Radiohead Public Library: 4 shows históricos (alguns inéditos) para ver na íntegra

por Bruno Leonel

Aproveitando um hiato da banda – em meio a uma época onde Thom Yorke aproveita para excursionar solo pelos EUA, e o guitarrista Ed O’brien prepara o lançamento de seu primeiro álbum (com canções inspiradas no Brasil) – o Radiohead surpreendeu a todos neste começo de 2020 resolvendo revirar o baú e disponibilizar um arquivo insano de raridades que podem ser vistas gratuitamente no site oficial.

A chamada “Radiohead Public Library” (https://www.radiohead.com/library/) apresenta um arquivo bastante extenso do grupo, cobrindo de forma impressionante cada uma das eras da banda correspondentes a cada um de seus nove discos.

Temos lá agora dezenas de fotos e artes em qualidade boa, arquivos de sites antigos, webcasts, DVDs, velhos merchans (que agora voltam a ser vendidos na loja oficial), playlists curadas pelos próprios integrantes e até faixas raras liberadas gratuitamente em streaming pela primeira vez – como as do primeiro EP da banda “Drill” de 1992, e até o K7 de raridades da edição deluxe de “Ok Computer”, lançado em 2017.

Fãs podem, inclusive, fazer uma carteirinha digital e curar uma “seleção” pessoal do acervo (?!?!). Cada um dos integrantes fez uma breve seleção pessoal do acervo com comentários também. A grande cereja do bolo fica talvez por conta dos shows impressionantes, disponibilizados na íntegra no site – vários deles inéditos, e em boa qualidade (incluindo ai a famosa apresentação em São Paulo em 2009, pela primeira vez na integra).

Em meio a uma era obcecada pelo arquivamento de imagens, e com amplas possibilidades de registrar e compartilhar tudo, é até curioso que a banda não tenha liberado este tipo de acervo antes. Aproveitando esse verdadeiro presente, separamos alguns dos shows que mais impressionaram por aqui, e que (agora) podem ser vistos no site oficial

Muitos deles, além de históricos, documentam minuciosamente momentos cruciais na saga de um grupo notável por crescer em popularidade, ao mesmo tempo em que soube subverter como poucos várias práticas do mercado fonográfico (e da música pop). Dessa forma, o quinteto quase por acidente criou uma das sagas mais interessantes da música popular dos últimos 35 anos. Vale muito a pena conferir! Vamos lá:

1 – The Colbert Report – EUA (26/09/2011)

O disco “The King of Limbs”, de 2011, com suas texturas cortadas, influências de dubstep e percussões, dividiu opiniões na época e se mostrou um conjunto de faixas bastante desafiador, mesmo para fãs da banda, e mesmo se tratando de uma banda que já havia lançado discos como “Kid A” (2000) e “Amnesiac” (2001). No entanto, o devido tempo passou, e hoje, vários anos mais tarde, precisamos reconhecer o quanto o disco melhorou, e até, com toda sua sofisticação, passou a fazer mais sentido no palco, após várias hipnóticas apresentações ao vivo que recriavam músicas como “Bloom” e “Little By Little” ao vivo. Essa apresentação impecável no show “The Colbert Report.” de 2011 (com um reforço sensacional de trompetes e metais) mostra isso.

Um registro incrível de uma ótima fase da banda, que talvez por soar (mais uma vez) muito à frente do tempo em que estavam, acabou chocando por levar ao público mais informação do que estavam preparados para absorver. Vale pela performance inspirada, e pela proximidade das imagens da banda (mais particular até do que as do filme “King of Limbs – From the Basement”.

Setlist: The Daily Mail, Bloom, Little By Little, Morning Mr. Magpie e The National Anthem

2 – The Gorge Amphitheatre – EUA (23/06/2001)

No auge da turnê “Kid A/Amnesiac”, o Radiohead lotou o The Gorge Amphitheatre (em Washington) em uma noite super enérgica que dedicou boa parte do set aos seus 2 álbuns mais difíceis até aquele momento da carreira. Em um show muito intenso (com destaque para uma plateia totalmente frenética), a apresentação ganhou um registro lindão que diz muito sobre o momento da banda, tanto pelo conteúdo, quanto pela forma como é apresentado.

A filmagem esfumaçada, em preto e branco, oblíqua e com enquadramentos e takes que muitas vezes causam mais impacto pelo que não mostram, são muito condizentes com o clima obscuro e denso dos álbuns que representam: Nada menos do que 11 músicas de “Kid A/Amnesiac” foram tocadas. O setlist foi inspiradíssimo, contando com pedradas como a matadora “Talk Show Host” e a rara “Feeling Pulled Apart by Horses”. Histórico é pouco.

Setlist: The National Anthem, Morning Bell, Lucky, My Iron Lung, Karma Police, Exit Music, Packt Like Sardines in a Crushed Tin Box, Airbag, Feeling Pulled Apart by Horses, No Surprises, Dollars and Cents, I Might Be Wrong, Pyramid Song, Paranoid Android, Idioteque, Everything in Its Right Place, Talk Show Host, Climbing Up the Walls, You and Whose Army?, How to Disappear Completely, Street Spirit, The Bends, Motion Picture Soundtrack.

3 – 14 minutos inéditos do Radiohead no Glastonbury 1997 – UK (28/06/1997)

O Radiohead no topo do mundo! A apresentação que consagrou o Radiohead como a grande banda da atualidade em meados de 1997, circula incompleta há anos em diversas qualidades em bootlegs pela rede. No entanto, este trecho inspiradíssimo de 14 minutos da apresentação (com 3 faixas), e que nunca havia sido transmitido, agora foi liberado no acervo oficial da banda.

Tudo contribuía contra em uma apresentação marcada por problemas técnicos, luz burocrática e dificuldades – com o próprio Thom Yorke admitindo, anos mais tarde, que quase saiu do palco antes do fim naquela noite – a banda fez história em um set de 20 músicas, tido por muitos como um dos grandes shows de headliner do festival em todos os tempos. A apresentação ganhou força do então recente (e ultra aclamado) “Ok Computer”. Foi a primeira de três apresentações como headliner que a banda faria em toda a carreira até hoje (rolou ainda em 2003 e 2017). Obrigatório.

Setlist do trecho: Airbag, Planet Telex, You

4 – Hammerstein Ballroom (10 spot) – NY / EUA (19/12/1997)

Entusiasmo da plateia, performances inspiradissimas de todos os integrantes, filmagem excelente (com direito a lindos trechos panorâmicos, quase em 360º, quase como se estivessemos vendo de lá) e uma qualidade de som impecável. Daria para tentar resumir em palavras o que esse show deve ter significado para quem viu ao vivo, mas fazer isso com justiça mereceria quase um novo verbo.

Assim como os Rolling Stones nos anos 1970, ou o U2 em meados de 1987, o show do 10 Spot (filmado pela MTV) capta um daqueles momentos únicos onde vemos a história acontecendo em tempo real, com uma banda cravando seu nome definitivamente na história do rock. Desde o repertório impecável até a qualidade do material, este é outro registro perdido da banda que por muitos anos apenas foi compartilhado de forma incompleta em bootlegs. São muitos os destaques, desde uma versão arrasadora de “Subterranean Homesick Alien”, a rara e incrível “Bullet Proof…”, e “Airbag”, e “Paranoid Android” e uma versão bastante emotiva de “The Tourist” – a faixa mais subestimada do mundo – fechando a conta.

Não bastasse o setlist generoso de 22 faixas, é o único registro conhecido em vídeo, no qual foram tocadas TODAS AS FAIXAS de “Ok Computer” (teve até “Filter Happier”abrindo o show, rolando no P.A). Histórico e definitivo.

Setlist: Airbag, Karma Police, The Bends, Exit Music (for a Film), Talk Show Host, Subterranean Homesick Alien, My Iron Lung, Climbing Up the Walls, Lucky, Planet Telex, Bullet Proof..I Wish I Was, No Surprises, Bones, Just, Paranoid Android, Fake Plastic Trees, Let Down, Street Spirit (Fade Out), Electioneering, (Nice Dream), The Tourist.

– Bruno Leonel (fb/silva.leonel.900) é blogueiro e integra a banda Crappy Jazz.

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