Boteco: 10 cervejas nacionais de 5 cervejarias

por Marcelo Costa

Da série “ultrafresca” da cervejaria Trilha, que assim que sai do tanque, enlata e envia para um clube de associados, o lote de novembro foi impactado pela chegada de um lote fresco do lúpulo australiano Galaxy, que rendeu duas receitas: a primeira delas é a Galaxy-Me, uma New England IPA Single Hop (já passaram por aqui a Eldorado-Me e a Citra-Me) de coloração amarela turva, tal qual um suco, e creme branco de média formação e retenção. No nariz, bastante frutado (manga dominando, mas também é possível perceber pêssego e laranja) e uma sensação discreta de condimentação. Na boca, uma pancada frutada incrível no primeiro toque trazendo manga em primeiro plano, e acrescentando laranja e abacaxi na sequencia. O amargor é médio, por volta dos 50 IBUs, mas surge macio e delicioso. Já a textura é suave e bastante agradável. Dai pra frente, uma Juicy IPA clássica e deliciosamente fresca, crocante na boca. No final, manga e um amargor bem leve. No retrogosto, pêssego e laranja. Delicia.

A segunda “ultrafresca” do mês de novembro do clube da Trilha é a Triunvirato, uma Juicy IPA que combina o lúpulo com os clássicos Citra e Mosaic e tem uma apresentação bem próxima da anterior, com coloração amarela turva, tal qual um suco, e creme branco de média formação e retenção. No nariz, mais presença de sugestão de laranja, que se destaca, além de manga e condimentação leve. Na boca, suco de laranja no primeiro toque seguida de mais laranja, leve manga e um amargor mais intenso do o tradicional do estilo (ainda que bem longe de uma West Coast IPA). A textura me pareceu mais sedosa do que na anterior e, dai pra frente, segue-se um conjunto delicioso, um passo à frente da single hop Galaxy-Me, provocante e saboroso. No final, leve harsh e amargor e laranja no final. Já o retrogosto aposta na refrescancia das frutas cítricas (laranja dominando) com um leve harsh final, que incomoda um tiquinho, mas não atrapalha o resultado final.

Permanecendo em São Paulo com mais duas da Japas Cervejaria, produzidas na fábrica da Dádiva, em Várzea Paulista. A primeira delas é uma versão da Sumô como uma incrível New England Imperial IPA com adição de limão yuzu, um cítrico japonês raro e muito aromático, tangerina, limão siciliano e dry-hopping dos lúpulos Citra e Cascade. De coloração amarela turva, juicy como um suco, e creme branco espesso de média formação e retenção, a Japas Sumô – New England IPA – Yuzu apresenta um aroma espetacular, com muita sugestão de frutas cítricas, como se o bebedor estivesse debaixo de uma árvore de laranja lima. Há, ainda, algo de lichia e pera e leve percepção de picância. Na boca, laranja lima docinha e bem cítrica no primeiro toque abrindo as portas para um perfil com mais sugestão de pera, de lichia e, levemente, de limão siciliano. O amargor, como manda o estilo, é comportado (então imagine metade dos 88 IBUs apontados na lata) enquanto a textura é suave, deliciosa, dançando sobre a língua. Dai pra frente, uma NE apaixonante, com muito cítrico puxado para o limão, mas com leve doçura. No final, cítrico delicioso puxado para limão, mas sem azedume. No retrogosto, cítrico e refrescancia. Uou!

A segunda da Japas é a Sawã Yuzu, uma Sour que leva exatamente os mesmos ingredientes da Sumô NE (limão yuzu, tangerina, limão siciliano, aveia trigo e cevada), incluindo o dry-hopping dos lúpulos Citra e Cascade. O perfil de estilo, porém, é completamente diferente, a começar pela coloração, que aqui apresenta um amarelo levemente translucido que traz tons de dourado ao mesmo tempo que de palha. O creme é branco, de ótima formação e retenção. No nariz, o limão domina a percepção (a tangerina brilha na anterior) trazendo consigo notas cítricas potentes que até remetem à folha sendo retirada do pé e passando o aroma para a mão. Há, ainda, de longe, uma discreta sugestão de hortelã. Na boca, limão intenso no primeiro toque com sugestão clara de siciliano e remetendo na sequencia, inclusive, a caipirinha. A tangerina aparece de maneira bem suave e mesmo o sour não é algo agressivo, e parece derivar mais das frutas do que da ação característica do estilo. O amargor é quase 0 (na verdade, 7 IBUs), a acidez é média, a textura é levemente frisante. Dai pra frente, amplo domínio dos limões, que continuam deliciosamente aproximando o conjunto da caipirinha. No final, casca de limão e limão. No retrogosto, refrescancia e caipirinha.

Mantendo-se em Várzea Paulista, mas agora com duas da dona da casa, a Dádiva. A primeira delas é a Psidium Punch, uma Milkshake IPA produzida em colaboração com o cervejeiro, designer e escritor Randy Mosher, e que inclui adição de goiaba, lactose e baunilha. De coloração amarela, turva, juicy como um suco, e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Dádiva Psidium Punch apresenta um aroma que combina deliciosas notas frutadas tendendo à goiaba, mas também a laranja (bem madura) e maracujá. Na boca, a goiaba se destaca no primeiro toque, mas a sequencia é bem interessante (e divertida) com um azedinho delicioso, sugestão de mousse de maracujá e laranja bem madura. O amargor é baixo, 40 IBUs que mais parecem 20. A textura é suave e levemente picante. Dai pra frente, milk-shake de goiaba com maracujá, muito mais pendente ao cítrico do que ao doce, e com final levemente picante de goiaba. No retrogosto, goiaba e maracujá. Delicia.

A segunda da Dádiva foi a primeira de uma série da cervejaria focada em lúpulos neozelandeses, a Ink, que debutou com essa Wisdow Ink, cujo destaque são os lúpulos Moutere e Rakau. De coloração amarela turva e creme branco espesso, de ótima formação e retenção, a Dádiva Wisdow Ink apresenta um aroma com notas bem tropicais que remetem a suco de laranja bem madura espremida na hora e também de abacaxi bem maduro com um leve funky da levedura batendo ponto. Há ainda leve sugestão de anis e de uva verde. Na boca, laranja passada doce no primeiro toque seguida de mais frutas tropicais (abacaxi e uva verde). O amargor é médio, a textura é sedosa e levemente picante (com percepção dos 6.1% de álcool) e, dai pra frente, uma IPA absolutamente deliciosa e felizmente diferenciada do oceano de American IPAs que assolam o mercado. No final, doçura de abacaxi maduro, bem maduro. No retrogosto, abacaxi, laranja madura e refrescancia. Delicia (2).

De São Paulo para o Rio de Janeiro com duas Sours da Three Monkeys. A primeira foi também a primeira da linha I’m Sour da casa, e trata-se de uma receita que recebe adição de pitaya e goiaba. De coloração avermelhada com creme branco avermelhado de média formação e rápida dispersão (típica do estilo), a Three Monkeys I’m Sour apresenta uma aroma delicioso puxando para a goiaba, que é o grande destaque na paleta aromática, transbordando frescor. Na boca, a goiaba também dá as cartas, desde o primeiro toque, mas abre um leve espaço para que o bebedor não apenas perceba a presença da pitaya, mas também sugestões de outras frutas vermelhas, tal como morango e framboesa. A acidez é bem baixa, parecendo um suquinho delicioso de 6.3% de álcool. A textura é leve com discreta suavidade e picância. Dai pra frente, uma Kettle Sour deliciosa, leve e para se beber com muito cuidado, afinal 6.3% de álcool. No final, goiaba. No retrogosto, alegria, goiaba, pitaya, morango e refrescancia.

A segunda da Three Monkeys foi o terceiro lançamento da linha Sour da casa, e levou o nome carinhoso de I’m Fucking Sour, cuja receita combina adições de pitaya, framboesa e limão. De belíssima coloração vermelha com creme branco avermelhado de média formação e rápida dispersão, a Three Monkeys I’m Fucking Sour apresenta um aroma com bastante frutado puxando para frutas vermelhas com morango em destaque, mas também pitaya, fresquissima. Ao menos no nariz, o limão não aparece tanto. Já no paladar, pitaya deliciosa no primeiro toque trazendo consigo leve acidez, que segue em frente acrescida de um delicioso azedinho (limão?) e mais sugestões de frutas vermelhas. Não há amargor e a acidez é média baixa, mais da fruta do que da levedura. A textura é leve com discreta suavidade e picância. Dai pra frente, um suquinho alcoólico delicioso de incríveis 6.3% (cuidado com isso na praia, cuidado) que, no final, reforça sua paixão por frutas vermelhas. No retrogosto, frutas vermelhas, azedinho e refrescancia.

Do Rio de volta a São Paulo, mais precisamente para o bairro de Santa Cecilia, com duas novas Dogmas produzidas no próprio taproom da casa e enlatadas lá mesmo. A primeira delas é a Urban Machine, uma Double New England IPA cuja receita combina os lúpulos Nelson Sauvin, Centennial e Mosaic. Na taça, ela exibe uma coloração amarela turva, juicy tal qual um suco, com creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção. No nariz, pancada de levedura mais frutas tropicais (abacaxi, maracujá, laranja e uva verde) e um leve toque de anis. Na boca, uva verde no primeiro toque seguida de funky derivado da levedura, mais uva verde e um tiquinho de maracujá. O amargor é médio (não passa dos 50 IBUs), a textura é suave, macia, dengosa, com leve picância e percepção discreta dos 9% de álcool. Dai pra frente, uma Double New England IPA impactante, marcante e alcoólica. No final, uva verde e amargor sutil. No retrogosto, frutas tropicais e refrescancia.

Fechando essa série com a segunda lata da Dogma, outra Double New England IPA cuja receita combina novamente o lúpulo Nelson Sauvin, mas desta vez com Galaxy e Citra. De coloração amarela (ainda mais) turva (que a anterior), juicy tal qual um suco, com creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção, a Dogma Epic Abstraction apresenta um aroma que, novamente, é dominado pela assertividade da levedura acompanhada de frutado mais definido do que no perfil anterior, sugerindo de manga a pêssego passando por laranja, as três bem maduras e bem doces. Há, ainda, percepção resinosa. Na boca, pêssego e manga juntos no primeiro toque seguidos de uma pancada intensa de resina, que castiga o céu da boca e vai riscando de amargor e álcool (os mesmos 9% da anterior) garganta abaixo, deixando pelo caminho um traço altamente perceptível de manga. A textura é suave e picante, resinosa. Dai pra frente, uma NE meio West Coast, extremamente intensa de álcool e amargor, com a fruta em segundo plano. No final, levedura e manga. No retrogosto, resina, resina, resina e manga.

Trilha Galaxy-Me
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.87/5

Trilha Triunvirato
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.88/5

Japas Sumô New England Imperial IPA
– Produto: Double New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.8%
– Nota: 4.25/5

Japas Sawã Yuzu
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 3.88/5

Dadiva Psidium Punch
– Produto: Milkshake IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.81/5

Dadiva Wisdow Ink
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.1%
– Nota: 3.89/5

Three Monkeys I’m Sour
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.53/5

Three Monkeys I’m Fucking Sour
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.50/5

Dogma Urban Machine
– Produto: Double New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 4.02/5

Dogma Epic Abstraction
– Produto: Double New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.57/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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