Quadrinhos: “Lenora”, “Justin”, “Desafiador – Retorno à Eternidade” e “David Boring”

Resenhas por Adriano Mello Costa

“Lenora”, de Juliana Fiorese (Independente)
Edgar Allan Poe faleceu em 1849 na cidade de Baltimore, nos EUA, aos 40 anos e não viu sua obra fazer sucesso e ganhar a imensa amplitude que exibe até hoje. A hq “Lenora”, da ilustradora e quadrinista Juliana Fiorese (de “Clara Carcosa”), é mais uma prova disso. Concebida de maneira independente e viabilizada através de uma campanha de financiamento coletivo, “Lenora” é uma adaptação do poema “Lenore”, de 1843, trabalho menos conhecido do autor de “O Corvo”. Com 48 páginas e uma edição muito cuidadosa e bonita temos a história de Guy de Vere, que perde sua paixão cedo demais e procura aceitar isso de alguma maneira, sendo esse processo de aceitação que o poema exibe e aparece na tradução de Pedro Mohallem, que ainda colabora com um texto bem interessante no final. “Lenora” é outra iniciativa caprichada em cima da obra do bardo americano com uma arte detalhista e admirável.

Nota: 6
Instagram da autora: https://www.instagram.com/julianafiorese/

“Justin”, de Anne-Charlotte Gauthier (Editora Nemo)
Em 26 de maio de 1983 nascia Justine Claude Adélaïde, mas logo aos 4 anos percebeu que na verdade não era menina e, sim, um menino. Esse é mote de “Justin”, trabalho da quadrinista Anne-Charlotte Gauthier (de “O Enterro das Minhas Ex”) publicado na França em 2016 e que recebeu edição nacional pela editora Nemo em 2018 com 104 páginas. Em uma sociedade ridícula e preocupantemente conservadora, a autora narra os desafios que a protagonista percorre para conseguir se sentir bem e a vontade. A transexualidade abordada na trama é espelhada em ações da família, da escola, do círculo social e dos psiquiatras que não tem habilidade ou conhecimento. “Justin” apresenta as dificuldades de ser entendido como se quer, mas sem se aprofundar muito, deixando a trama até de certo modo suave, enquanto brinda o leitor com as conquistas de alguém que não se deixou vencer em momento algum.

Nota: 7

“Desafiador – Retorno à Eternidade”, de Andrew Helfer e José Luis García-López (Panini Comics)
A DC Comics tem uma quantidade relevante de personagens de terceiro (ou até mesmo quarto) escalão que são interessantíssimos e apresentam características distintas dos mais famosos nomes da editora, principalmente se adentrarmos o campo mágico e/ou místico. O Deadman – no Brasil conhecido como Desafiador – é um deles. Criado em 1967 pelos estupendos Arnold Drake e Carmine Infantino, Desafiador é o fantasma do acrobata circense Boston Brand que consegue possuir corpos e fazer estes agirem como se fossem ele. Dono de um senso de humor bem afiado, ele é aquele tipo de coadjuvante que sempre abrilhanta a história. Agora em 2019 a Panini Comics publicou em edição bacanuda de capa dura uma minissérie de 1986 com roteiro de Andrew Helfer e arte do magistral José Luis García-López. “Desafiador – Retorno à Eternidade” conta com 108 páginas de puro deleite da nona arte em uma história que une aventura, humor, honra, família, misticismo e mistério.

Nota: 7,5

“David Boring”, de Daniel Clowes (Editora Nemo)
“David Boring”, de Daniel Clowes, originalmente publicado em 2000 nos EUA pela Pantheon Books retrata com habilidade esse momento de final de século para um jovem do país. No meio da apatia, da infelicidade e da falta de perspectiva, o autor insere quantias generosas de fetiche, obsessão e uma respeitável e gloriosa falta de amor por convenções sociais. A editora Nemo – que já havia lançado “Paciência”, “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro” e “Ghost World” – coloca mais esse título no mercado em uma edição com capa brochura e 144 páginas. O personagem principal, que sai de uma cidade pequena para basicamente fugir da mãe, se envolve em um fluxo de sexo, violência e alívios temporários para mascarar os desgostos existenciais que traz consigo. Dividida em três atos, “David Boring” explica parte das razões que levam o autor a ser um dos maiores nomes dos quadrinhos alternativos dos últimos anos.

Nota: 8 (leia um trecho)

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop ( http://coisapop.blogspot.com.br ) e colabora com o Scream & Yell desde 2009!

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