Três discos: Tantão e os Fita, Saskia e Ana Frango Elétrico

Textos por Renan Guerra

“Drama”, Tantão e os Fita (Selo QTV)
Tantão é figura mítica na Lapa, no Rio de Janeiro. Seu nome é parada obrigatória para se pensar o afrofuturismo, o punk e o noise no Brasil. Mesmo assim, sua figura segue sempre restrita a poucos espaços – algo relacionado a sua persona errante e cheia de meandros (algo que o essencial e pesado documentário “Eu Sou o Rio” apenas amplifica). Os Fita, Cainã Bomilcar e Abel Duarte, são os parceiros de Tantão na hora de dar vida a esse universo torto aberto em “Espectro” (2017) e que ganha sequência agora em “Drama” (2019). Música eletrônica industrial, noise, punk e funk se misturam e dialogam com a voz hipnótica de Tantão, que nos leva para vórtices inesperados através de sua poesia espiral. Palavras de ordem, questionamentos e tensões se repetem durante o disco, a dilacerar-se entre barulhos e universos quebradiços. Violência, raça, desigualdade, abandono e drogas fazem a cama para uma canção que é sempre torta, nunca comum, nada óbvia. É por isso tudo que Tantão e os Fita é banda a ser ouvida, pois reflete e pulsiona o nosso tempo, em sua confusão, em sua não-compreensão e em sua tentativa de tatear o que nos falta. “Drama” tem menos de 30 minutos, mas tem a força de um coquetel molotov e deve ser ouvido em volume altíssimo.

Nota: 8 (ouça o disco)

“Pq’, Saskia (Selo QTV)
Saskia nasceu em Porto Alegre, mas passou a adolescência no interior do Rio Grande do Sul, em Pelotas, onde começou a compor e a gravar com o que era possível – inclusive, com o auxílio de um celular. Nos últimos três anos, suas composições e sua forma completamente única de enxergar a música – brincando com o gêneros e desconstruindo o que é possível – fizeram com que ela chegasse até esse “Pq” (2019), disco de estreia, lançado pelo Selo QTV, com o apoio da Natura Musical. Com seu disco de estreia, ela se coloca na lista das “revelações” de 2019, mesmo se considerando que sua carreira não é nova e suas explorações já eram conhecidas no underground, seja de POA ou nas madrugadas de São Paulo. “Pq” é barulhento e cheio de caminhos, que passam pelo rap, funk, trap e industrial, para que a voz de Saskia encontre o seu lugar em um mundo racista e calculista, cheio de ódios e méritos. A artista explica que veio “instituir o caos para institucionalizar o meu lugar. ‘Pq’ veio fundir os 4 ‘por quês’, ou todos os porquês, de todas as perguntas”. Com pré-produção de Negro Leo e Ava Rocha e produção musical de Renato Godoy e Mateus Miranda (Tabu), “Pq” tem participação de diferentes nomes, como Edgar, Tantão e o norueguês Paal Nilssen-Love – vale citar também um sample da atriz Dercy Gonçalves. Mesclando a força da música eletrônica com a não subserviência do rap, Saskia faz um disco potente, catalizador de energias e pulsões, em carta de apresentação poderosa de uma artista a se ficar atento.

Nota: 9 (ouça o disco)

“Little Electric Chicken Heart”, Ana Frango Elétrico (Selo RISCO)
“Mormaço Queima” (2018), a estreia de Ana Frango Elétrico, tinha uma vivacidade interessante, um clima estranho em sua unicidade, mas ao mesmo tempo havia certa infantilidade estética e temática. Curiosamente, “Little Electric Chiken Heart”, seu elogiado segundo disco, parece ter deixado de lado esse espectro lúdico e colorido e se adentrado em tons mais soturnos, tudo sem perder aquela estranheza que faz Ana tão interessante. Essa nova guinada tem rendido frutos, já que o retorno de público e crítica tem apenas louvado a força de “Little Electric Chicken Heart”. Esse segundo disco é visto pela própria artista como sua fase “intérprete”, em comparação com o que seria o “Mormaço Queima”, que ela chama de um álbum de “anti-cantora”. Essa perspectiva de intérprete ajuda a entender um pouco os novos caminhos de Ana Frango Elétrico, que consegue aqui dosar de forma madura sua estranheza com um lado extremamente pop, mesmo em seus momentos mais lisérgicos. Curto e quase veloz, “Little Electric Chiken Heart” foi todo gravado com um microfone RCA dos antigos e tem instrumentos de sopro e coros de vozes que criam camas interessantes para a voz de Ana, algo meio chamber pop. De caráter bastante sensorial, esse segundo disco coloca Ana Frango Elétrico em outros holofotes e tira ela do apagamento que há em um cena cada dia mais morna no Rio de Janeiro, funcionando como um interessante cartão de visitas para que o resto do país visite esse “coraçãozinho elétrico de galinha”.

Nota: 9 (ouça o disco)

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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