Boteco: Sete cervejas made in USA

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série de cervejas estadunidenses pelo Brooklyn nova-iorquino com mais uma cerveja da bela Brooklyn Brewery, que retorna ao site com a Naranjito, uma Orange Pale Ale cuja receita combina os maltes 2-Row, C-60 e Carafoam com os lúpulos Simcoe e Sorachi Ace além de adição de casca de laranja. De coloração dourada cristalina e creme branco de boa formação e média retenção, a Brooklyn Naranjito apresenta um aroma cítrico delicioso que consegue, com sucesso, se distanciar das tradicionais remissões a suco de laranja que inundam as adições de laranja em cerveja. Há, ainda, percepção suave de doçura maltada. Na boca, laranja no primeiro toque e uma pegada cítrica mais ampla na sequencia acrescentando algo de tangerina no conjunto. O amargor é confortável (35 IBUs), a textura é leve desejando ser suave (e cremosa). Dai pra frente, uma deliciosa APA com casca de laranja, que consegue honrar o estilo sem esconder a fruta. No final, leve efervescência cítrica. No retrogosto, refrescancia e tangerina.

Do estado de Nova York descemos para a Califórnia, mais precisamente San Diego, cidade que abriga a badalada Modern Times, que marca presença desta vez com uma receita da série sazonal Fruitlands, que aqui leva o nome de Rosé Edition devido a adição de framboesa, cereja, cranberries e… limão, resultado numa cerveja de coloração cor de rosa clara e creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, bastante cranberry, um pouco de sugestão de blood orange e toranja além de outras variedades de frutas vermelhas. Há percepção de acidez, mas é difícil tirar o cranberry de foco – é delicioso. Na boca, cranberries delicioso no primeiro toque seguido de acidez bastante leve, azedinho convidativo e, então, um toque de limão. O amargor é baixinho (15 IBUs que parecem menos devido a acidez) e a textura, levemente seca e frisante. Dai pra frente, uma Kettle Sour deliciosa, com as frutas muito bem inseridas, e bastante refrescancia. No final, azedinho e cranberry, que se esticam até o retrogosto, refrescante. Delicia!

Mantendo-se na Califórnia, mas saindo de San Diego em direção a Boonville, cidade de pouco mais de mil habitantes que fica num vale (o Anderson Valley) a duas horas de São Francisco e que abriga a badalada cervejaria Anderson Valley, que retorna ao site com sua terceira Gose, a Framboise Rose (as outras duas são a Briney Melon e a Blood Orange). De coloração dourada levemente afetada pelo vermelho da framboesa e creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Anderson Valley Framboise Rose Gose apresenta um aroma com notas de framboesa destacadas sobre uma base de acidez bem suave derivada da levedura láctica. Na boca, framboesa rapidamente no primeiro toque atropelada na sequencia pelas notas acéticas e depois equilibrada, com o bebedor podendo perceber as duas nuances. Não há amargor, mas sim uma acidez média. A textura, como era de se esperar, é frisante, e me pareceu a mais frisante das três, com o tradicional salgadinho do estilo dormindo sobre a língua. Dai pra frente surge um conjunto de kettle sour que consegue equilibrar bem a adição de frutas com o perfil arisco do estilo, resultando em uma cerveja saborosa e refrescante. No final, framboesa e leve salgadinho. No retrogosto, adstringência suave, sal, framboesa e refrescancia.

Ainda na Califórnia, mas agora em Santa Rosa, cidade da mítica Russian River, que retorna ao site com a It Takes A Lot Of Great Beer To Make Great Wine, uma West Coast Pale Ale cuja nome brinca com a ideia de que pra a melhor bebida para refrescar durante a colheita de uvas no verão para fazer vinhos é a cerveja. Na receita, os lúpulos Comet, Sabro, Chinnok, Cascade e HBC 692. Na taça, uma cerveja de coloração dourada levemente alaranjada com creme branco espesso de ótima formação e longa retenção. No nariz, delicadas notas florais com um toque cítrico distante além de percepção de maciez, de cereais e trigo. Na boca, doçura (sem soar muito doce) deliciosa no primeiro toque seguida de frescor floral, o mesmo cítrico distante percebido no aroma e leve especiarias campestres. O amargor é moderado (chuto 30 IBUs) e bem suave enquanto a textura é leve. Dai pra frente, uma cerveja saborosa para se beber muito debaixo do sol na rua, na praia, na casa, na fazenda. No final, herbal leve. No retrogosto, muita refrescancia.

Fincando pé na Califórnia, mas saindo de Santa Rosa em direção a Petaluma para mais uma Lagunitas, desta vez uma edição limitada, a Dark Swan Sour Ale, uma cerveja meio fora do padrão do que a casa faz normalmente, e, por isso, muito interessante. A receita recebe adição de uvas Petit Syrah e, na taça, a cerveja apresenta uma coloração roxa com creme roxo esbranquiçado de boa formação e média retenção. No nariz, notas frutadas sugerem tanto uvas vermelhas quanto frutas vermelhas, e ouso dizer que até mais o segundo, com doçura de cereja bastante presente em meio a presença sutil de acidez. Na boca, sensação de vinho sem pegada alcoólica no primeiro toque (e olha que são 7.7% de álcool) seguida de doçura de frutas vermelhas e acidez bastante baixa. Ainda assim, a acidez se destaca (não há amargor) e a textura é leve e levemente picante. Dai pra frente, uma cerveja estranha… e interessante, com bastante sugestão de uva e frutas vermelhas. No final, acidez baixa e doçura de uva. O retrogosto, por sua vez, segue com leve acidez, uva e frutas vermelhas. Maluquinha.

A sexta cerveja da série é a quinta seguida da California, e a segunda de San Diego: ainda que a sede da Mikkeller seja em Copenhague, na Dinamarca, a cervejaria abriu essa filial estadunidense que produz um grande número de rótulos próprios sob o nome de Mikkeler San Diego. Uma das belezinhas da casa é a Windy Hill, uma New England IPA que é uma das mais famosas da cervejaria. Na receita, destaque para o dry-hopping de lúpulos Simcoe e Mosaic. De coloração amarela turva, juicy tal qual um suco, e creme branco espesso de boa formação e retenção, a Mikkeller SD Windy Hill apresenta um aroma com notas frutadas cítricas que remetem a abacaxi doce, melão e lichia. Na boca, a mesma sensação que o aroma adianta, com abacaxi marcante no primeiro toque, seguido de doçura frutada, leve picante de levedura e amargor macio e convidativo, 70 IBUs que, na verdade, soam 35. A textura é suave, cremosa e deliciosa. Dai pra frente, uma New England IPA Californiana deliciosa, que segue os preceitos do estilo à risca, com capricha e muito frutado cítrico. No final, abacaxi. No retrogosto, maciez, doçura, frutado e refrescancia. Delicia!

De volta a Califórnia com um rótulo mítico, bastante badalado e limitado da Bottle Logic Brewing: a Fundamental Observation BA Imperial Vanilla Stout, uma American Imperial Stout maturada em barris de Bourbon (Buffalo Trace, WL Weller, Heaven Hill e Four Roses) com adição portentosa de baunilha de Madagascar. De coloração marrom escura praticamente preta com creme bege claro de baixa formação e média retenção (uma fina camada), a Bottle Logic Fundamental Observation BA Imperial Vanilla Stout apresenta um aroma com chocolate e baunilha destacados e só criando o desejo por uma… mordida. Há, ainda, percepção assertiva de madeira e Bourbon, com os 13.2% de álcool bastante acessíveis ao nariz. Na boca, chocolate no primeiro toque, mas poderia ser baunilha e também Bourbon, pois tudo chega praticamente junto conquistando o bebedor de uma maneira absolutamente incrível. Há, ainda, percepção de madeira, o álcool chega entorpecido em Bourbon, e deixa o bebedor apaixonado. Não há sensação de amargor, e a textura, suave, mas aos poucos caminhando para o licoroso (com os 13.2% pinicando a língua). Dai pra frente, uma cerveja majestosa, incrível e deliciosa em sua combinação de chocolate, baunilha, Bourbon e álcool. No final, achocolatadinho melado em Bourbon. No retrogosto, chocolate, Bourbon e baunilha. Apaixonado!

Balanço
A Brooklyn Naranjito me surpreendeu… muito. Eu não esperava tanto dessa Orange Pale Ale, e ele entregou uma cerveja deliciosa, refrescante e muito bem balanceada. A Modern Times Fruitlands Rosé Edition é simplesmente deliciosa, sensação que é compartilhada com a Anderson Valley Framboise Rose, na mesma pegada de fruit sour. A Russian River It Takes A Lot Of Great Beer To Make Great Wine é uma APA deliciosa, refrescante e que conquista o coração. A Dark Swan é a Lagunitas pensando fora da caixinha IPA de maneira provocante e deliciosa. A  Mikkeller San Diego Windy Hill é uma NEIPA californiana de primeiro time. Já a Fundamental Observation BA Imperial Vanilla Stout é uma cerveja praticamente perfeita, top 5 da vida (proce ter uma ideia).

Brooklyn Naranjito
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.35/5

Modern Times Fruitlands Rosé Edition
– Produto: Keetle Sour
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.42/5

Anderson Valley Framboise Rose
– Produto: Gose
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.2%
– Nota: 3.49/5

Russian River It Takes A Lot Of Great Beer To Make Great Wine
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5.25%
– Nota: 3.40/5

Lagunitas Dark Swan
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.7%
– Nota: 3.49/5

Mikkeller San Diego Windy Hill
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.92/5

Fundamental Observation BA Imperial Vanilla Stout
– Produto: American Imperial Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 13.2%
– Nota: 4.98/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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