Ao vivo: em São Paulo, Dido mostra uma carreira em plena ebulição

Texto por Renan Guerra
Fotos por Fernando Yokota

A britânica Dido Florian Cloud de Bounevialle O’Malley Armstrong tem mais de 20 anos de carreira e um público sólido no Brasil, mas mesmo assim ela nunca havia se apresentado por aqui – na verdade, a cantora nunca tinha feito nenhuma turnê pela América Latina. Há de se considerar nessa conta que ela fez uma pausa de 15 anos sem tocar ao vivo, voltando aos palcos só agora, com o lançamento de seu quinto disco, o ótimo “Still On My Mind” (2019).

Curiosamente, a chegada de Dido ao Brasil foi tratada como algo nostálgico, mesmo pela mídia especializada, que parecia tratar a cantora como uma artista parada no tempo, na virada do século. Desde seus hits em novelas nacionais, a cantora já fez muita coisa, sendo até mesmo indicada ao Oscar em 2011. O recente “Still On My Mind” ficou em primeiro lugar tanto na Billboard americana quanto na parada inglesa de Independent Albums – na Inglaterra, inclusive, o disco dela ficou na terceira posição no ranking geral de lançamentos. Por aqui, o feito de foi conseguir vender um número grande de ingressos para a sua apresentação no Unimed Hall, em São Paulo, apesar dos preços bem salgados.

No palco, ela disse não haver uma explicação e nem uma desculpa para nunca ter vindo ao Brasil, mas ressaltou que pretende voltar mais vezes. Em uma apresentação de quase duas horas, ela mostrou em sua maioria canções do novo disco, porém não faltaram faixas de discos como “Life for Rent” (2003) e “No Angel” (1999), incluíndo aí hits como “Thank You”, “Hunter”, “Sand In My Shoes” e “Here With Me”. Uma das surpresas da noite foi a interpretação de “My Lover’s Gone”, de seu primeiro disco, faixa que nunca foi lançada como single, mas que se tornou hit no Brasil por causa da trilha sonora da novela “O Clone”. Dido comentou que não cantava essa faixa há quase 20 anos, mas foi ajudada pela plateia, em um belo coro.

A plateia, aliás, deu um show a parte. O fã clube de Dido, depois de tantos anos de espera, se organizou e quis mostrar todo o seu amor pela artista de diferentes formas. Eles distribuiram balões em formato de coração, que foram erguidos e iluminados com as lanternas de celular na hora de “Sitting on the Roof of the World”; levaram cartazes escritos à mão para a faixa “Thank You” e levaram lenços brancos para o momento de “White Flag”. A cantora, obviamente, ficou emocionada com o carinho e perguntava curiosa sobre os balões de coração, querendo entender de onde eles surgiram. Um dos fãs, ao distribuir os balões antes do show começar dizia “vamos mostrar nosso amor, para que ela volte para cá mais vezes”.

E é bem provável que Dido volte mais vezes sim, pois ela parecia extremamente à vontade no palco a brincar com as palavras em português que havia aprendido e a contar histórias divertidas sobre as canções. Com uma banda classuda, é interessante ver como Dido realmente apresenta todas as faixas ao vivo, o que é algo raro em tempos em que muitos artistas fazem suas turnês internacionais apenas munidos de samples e sons pré-gravados. Há um calor e uma força em ver todos os sons sendo criados ao vivo, ali, e isso inclui uma interessante percussionista, responsável por muitos dos detalhes e dos pequenos barulhinhos que compõem o universo eletrônico de Dido.

A surpresa da noite foi que Dido anunciou que está com um novo disco e apresentou a faixa “My Boy”, que foi produzida ao lado de seu irmão Rollo Armstrong. A faixa é bastante eletrônica, indo pro lado do house, e foi lançada sob o codinome R Plus, e integra o disco recém lançado “The Last Summer”, já disponível nas plataformas digitais. Sobre isso, a própria Dido brincou que ficou anos quietinha para então voltar a pleno o vapor. E foi exatamente isso que vimos ao vivo: uma artista em plena ebulição, se divertindo no palco e apaixonada por aquelas canções. Foi, sem sombra de dúvidas, um presente para quem esperou tanto tempo. No Brasil, Dido ainda faz show em Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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