XV Panorama Internacional Coisa de Cinema: A Idade de Glauber

“(…) como dizê-lo, como continuar, esfacelar a razão repetindo que não é somente um sonho, que se o vejo em sonhos como a qualquer de meus mortos, ele é outra coisa, está aí, dentro e fora, vivo (…)”

Júlio Cortázar, “Octaedro”

por Adolfo Gomes

Olho os filmes de Glauber Rocha e vejo Glauber. Poucos cineastas são assim tão corpo, vísceras e ideais como em sua filmografia – de modo que não há fronteira discernível aí, entre arte e vida, sonho, criação e queda, dor, violência e desencanto. O cineasta baiano chega a 2019 sob o signo do oito, quer seja nas décadas que nos separam do seu nascimento (80 anos nesta “noite” em que vivemos), quer seja na conturbada estreia de seu último longa-metragem, o extraordinário “A Idade da Terra” (lançado em 1980, no Festival de Veneza).

Vivemos, portanto, – e ainda (mais para o bem do que para o mal; mas ele, o mal, está lá, pela persistência da miséria, do fascismo e das patrulhas ideológicas) – na Idade de Glauber. Tempo dos elementos incontornáveis, imemoriais: a terra (o sertão), o ar (octaedro poético e revigorante das pulsações oníricas), o fogo (o transe das queimadas fatais, “Amazonas, Amazonas”) e a água (o mar e seu encontro com as utopias alquimísticas de transformação – o trópico de “Câncer”, “Eldorado” faustiniano).

Glauber entoa no final(?) de sua obra mais luminosa, implacável e bela: “Ela não gosta de mim…Ela não gosta de mim…” (a vida, a realidade?) Pior para elas – e para nós, que nos privamos do convívio carnal com sua força magmática, dos confins siderais e da ancestralidade da nossa existência (“só o real é eterno”). Quando vejo Glauber, um filme criado do seu sangue, não vejo fim. Tudo continua, novamente para o bem e para o mal, em círculos ora infernais, ora celestiais. Vejo Sol, Barraventos, Cabeças cortadas; vejo Claro, Antonio das Mortes e o Leão de Sete Cabeças. Para aqueles que ficaram – para mim sobretudo – é essencial ver Glauber.

Confira os filmes exibidos no evento:

“A Idade da Terra”
De Glauber Rocha
Brasil, 153’, Cor, Digital, 1980

Inspirado em um poema de Castro Alves, este filme faz um retrato da situação política, cultural e racional no Brasil no final dos anos 1970. Quatro personificações distintas da imagem de Cristo – um negro, um militar, um índio e um guerrilheiro – são os cavaleiros do apocalipse das terras tupiniquins, lutando contra a ganância e a violência “civilizatória” do poderoso John Brahms, um explorador estrangeiro e inescrupuloso.

“O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”
De Glauber Rocha
Brasil, 100′, Cor, Digital, 1969

Misturando cordel e ópera, esta aventura apresenta o personagem Antônio das Mortes, que recebe a tarefa de eliminar um novo cangaceiro da região. No caminho, ele encontra diversos jagunços e coronéis e se vê cara a cara com o povo do sertão e com as dificuldades enfrentadas pelos sertanejos, eventos que farão Antônio adquirir uma nova perspectiva de vida.

“Terra em Transe”
De Glauber Rocha
Brasil, 108’, P&B, Digital, 1967

O senador Porfírio Diaz detesta seu povo e pretende tornar-se imperador de Eldorado, um país localizado na América do Sul. Porém existem diversos homens que querem este poder, que resolvem enfrentá-lo. Enquanto isso, o poeta e jornalista Paulo Martins, ao perceber as reais intenções de Diaz, muda de lado, abandonando seu antigo protetor.

Consulte a programação completa em http://coisadecinema.com.br/xv-panorama/

– Adolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

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