Em clima de ensaio, Ana Frango Elétrico mostra um dos grandes discos do ano

texto por Gustavo Almeida
fotos por Rogério von Krüger

Por trás dos vidros do Lab Sônica, estúdio da Oi Futuro no Rio de Janeiro, Ana Frango Elétrico fez seu primeiro show após o lançamento de “Little Electric Chicken Heart” (2019). O segundo disco da cantora foi lançado no último dia 12 de setembro e ela aproveitou essa apresentação (que integrava a programação do Festival Levada) para testar o novo show, com nova banda, novas músicas e até velhas canções rearranjadas, transformando os presentes em cobaias para seu experimento sonoro que aproxima o belo e o estranho.

“Little Electric Chicken Heart” é um dos principais lançamentos do ano, com canções que trazem o já conhecido talento de Ana para melodias e esquisitices, somadas a uma maior consciência de seu papel como vocalista. Antes do show, ela falou sobre sua posição de “anti-cantora” quando lançou “Mormaço Queima” (2018), que ainda está presente em sua assinatura vocal de alguma forma. No entanto, dessa vez, sua performance no disco vai além desse papel tão libertador quanto limitador para uma artista consolidando sua identidade, entregando uma obra consistente e de notável evolução. Ao vivo, o objetivo parece ser alcançar o alto nível das gravações produzidas por ela mesma, acompanhada de Martin Scian.

A primeira faixa do show, por exemplo, também inaugura o novo álbum, “Saudade”. Nela, a força do coro masculino não aparece ao vivo como na gravação, o que não descarta a faixa como simpático cartão de visita do novo repertório, libertando uma Ana que deslizava pelo palco e pelas vocalizações com seu carisma habitual. E para dar o tom do que seria o repertório, que também inclui antigas canções, puxou uma versão repaginada de “No Bico do Mamilo”, uma das favoritas do público em “Mormaço Queima”.

Em seguida, “Promessas e Previsões” mostrou porque é o carro-chefe de “Little Electric Chicken Heart”. Mais uma vez comparando com o alto nível do disco, o eco de anti-cantora ainda presente prejudica a interpretação vocal, mas nada que diminua significativamente a força da grande composição. E esta serviu para abrir uma grande sequência do novo repertório, trazendo “Se no Cinema”, que caminha entre o estranho e o pop no melhor estilo Ana Frango Elétrico, o single “Tem Certeza?” e a deliciosa “Chocolate”. Aqui vale ressaltar o inquestionável trabalho de Antonio Neves, que fez os arranjos de sopro e, com Marcelo Cebukin e Eduardo Santana, formam o time dos metais e contribuem decisivamente para o nível do show. Na bateria, a presença de Marcelo Callado, consagrado nome da cena carioca e ex-baterista de Caetano Veloso, soma muito ao bom grupo que acompanha a cantora. Guilherme Lírio na guitarra e Vovô Bebê no baixo completam a banda do show.

Ana então tocou, na mesma sequência que encerra o disco, “Torturadores”, “Devia Ter Ficado Menos” e “Caspa”, com destaque para a primeira delas com sua bela defesa do “direito de saber”. Mesmo que por um breve momento, essa boa canção coloca os pés da compositora no chão da realidade atual, sem descaracterizar sua poética viajante, ainda que muito física e real. Encerrou o show então resgatando mais algumas músicas de “Mormaço Queima”, com “Picles”, “Farelos” e “Roxo”. Os sopros mais uma vez foram destaque para dar uma nova cara às canções, mas o ótimo arranjo de “Farelos”, que vai de um jazz suave à uma agitação dançante beirando o afrobeat, foi um dos pontos altos da apresentação e ganhou a plateia.

Ainda que a sensação de “ensaio aberto” não fosse o esperado para um show como esse, no Festival Levada, Ana Frango Elétrico é uma personagem singular e carrega bem a estranheza do inesperado. Ela mesmo contribuiu para essa sensação de que o espetáculo ainda precisa de ensaio e preparação, parando e recomeçando canções para melhorar a execução durante o show. O público, do outro lado, ria – alguns de nervoso, outros viam graça na honestidade. De qualquer forma ficou claro que, apesar da postura que não condizia com a situação, ela, o disco, a banda e o show tem potencial de sobra para estabelecê-la, de vez, como uma das principais artistas da nova geração.

– Gustavo Almeida é estudante de Comunicação Social na UFRJ e responsável pelo podcast Nos Palcos do Rio (ouça aqui).

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