Boteco: Cinco cervejarias nacionais, Dez cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova série de duas cervejas por cervejaria por Várzea Paulista com duas colaborativas da Dadiva. A primeira é a Kveik One, uma American IPA produzida com a Locomotive Brew cuja receita combina os lúpulos Hüell Melon, El Dorado e Citra, e é fermentada com uma levedura ancestral nórdica chamada Hornidal. O resultado é uma cerveja de coloração amarela turva, tal qual um suco, e creme branco espesso de excelente formação e longa retenção. No nariz, frutado intenso com muita sugestão cítrica e remissão a melão, lichia, laranja e abacaxi. Há percepção da intensidade da levedura e de leve doçura. Na boca, melão delicioso no primeiro toque abrindo-se para mais frutas (lichia, laranja, manga e abacaxi doce) até a pancadinha de amargor, comportada, mas marcante (chuto uns 45 IBUs). A textura é levemente efervescente e cremosa. Dai pra frente, mais uma porção de frutas amarelas, doçura baixa e amargor final levemente picante. No retrogosto, picância, frutas amarelas e refrescancia. Ótima!

A segunda colab da Dádiva, desta vez com os mineiros da Koala San Brew, mas mantendo o foco na levedura nórdica (Kveik, alias, significa levedura em norueguês e se pronuncia “cueique”) com a Kveik Two, outra American IPA, desta vez com os lúpulos Calypso e o experimental 6297 na receita. De coloração dourada levemente turva (e bem diferente da anterior, que era mais puxada para NE) e creme branco de excelente formação e longa retenção, a Kveik Two apresenta um aroma menos brilhante do que a primeira versão, todavia tende mais a Farmhouse Ale (e até um pouco a Brut IPA, devido a sugestão de secura), característica principal da levedura nórdica (que na versão 1 é despistada pela lupulagem assertiva). No nariz, frutado suave com pegada cítrica que remete a abacaxi e laranja trazendo consigo acidez. Há, ainda, um leve floral. Na boca, doçura cítrica no primeiro toque (uva verde) seguida de frutado, acidez, amargor (mais intenso do que na anterior) e secura, tudo vindo com microssegundos de diferença um do outro (aqui a aproximação com Brut IPA se torna mais latente). A textura é picante, efervescente e, posteriormente, cremosa. Dai pra frente, uma pegada de Brut IPA bem intensa (muito cítrico, muita secura, leve acidez) que finaliza… seco. No retrogosto, amargor leve, secura, uva verde e abacaxi. Interessante.

De Várzea Paulista partimos para o bairro de Vila Buarque, em São Paulo, com duas Imperial Stout produzidas pela Cervejaria Dogma em seu próprio taproom (e compradas em crowler no local). A primeira é a Macunaíma, uma American Imperial Stout produzida em colaboração com a Narrow Gauge Brewing Company, micro-cervejaria do estado norte-americano do Missouri. Na receita, adição de coco e de tonka, a semente do cumaru cujo aroma adocicado lembra baunilha (e é popularmente conhecida como baunilha da Amazônia). De coloração marrom escura praticamente preta e creme bege de baixa formação e retenção, a Dogma Macunaíma apresenta um aroma com presença intensa de cumaru, mas sem soar enjoativo. O coco também ganha um bom espaço na paleta aromática que, incrivelmente, consegue domar os 10% de álcool. Na boca, cumaru no primeiro toque e intensa doçura dele na sequencia, com o coco sutil dando uma bela colorida no trajeto. O amargor é baixo (não chega a 40 IBUs), a textura é suavemente achocolatada e só aqui, passeando sobre a língua numa analise sensorial, percebe-se a cacetada de álcool, e de maneira ainda sutil. Dai pra frente, uma RIS intensa e bastante doce, mas, novamente, deliciosa e nem um pouco enjoativa. No final, cumaru e leve coco, sugestões que permanecem no retrogosto e vão ficando, ficando, ficando. O álcool? Percebe-se apenas no rubor das faces… Sensacional!

O outro crowler da Cervejaria Dogma acondicionava a PBJ, uma Pastry Stout colaborativa com as micro-cervejarias norte-americanas 3 Sons Brewing Co. (Florida) e Mikerphone Brewing (Illinois). Aqui, a receita recebe adição de extrato de morango, amendoim e baunilha buscando replicar a sensação do sanduiche com geleia de Peanut, Butter and Jelly. De coloração marrom escura praticamente preta e creme bege de baixa formação e retenção (ainda que “maiores” do que na Macunaíma), a Dogma PBJ apresenta um aroma com destaque intenso para o morango, que salta em primeiro plano, com o amendoim aparecendo de maneira sutil. É possível perceber levemente a baunilha e, novamente, nada do álcool (e aqui são 12%!). Na boca, um reply do aroma com morango chegando antes no primeiro toque e se destacando durante todo o percurso, que ainda traz tanto notas de amendoim e baunilha e absolutamente nada de álcool. O amargor soa ainda mais baixo do que na anterior e a pancada de morango chega a sugerir que ela enjoe, ainda que não tenha sido o caso aqui. A textura é novamente achocolatada e um tiquinho mais picante (de álcool) do que na Macunaíma, mas ainda assim uma sensação muito baixa pela potência alcoólica do conjunto. Dai pra frente, a sugestão é de um bolo Floresta Negra intensamente alcoólico, ainda que você não perceba nada do álcool. No final, morango e baunilha. No retrogosto, uma Pastry Stout sensacional.

Da capital para Ribeirão Preto, no interior do Estado, com duas cervejas da linha Brasil com S, da Cervejaria Colorado. A primeira foi o quarto rótulo lançado da série, e trata-se de uma Summer Ale com adição de goiaba. De coloração amarela (que por só já denota a utilização de goiaba branca na receita) dourada com turbidez a frio e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Colorado Brasil com S 4 – Summer Ale com Goiaba apresenta um aroma que equilibra doçura maltada (mel) e frutado (goiaba) junto a notas de cereais e panificação suave. Na boca, a goiaba se sobressai um pouco mais desde o primeiro toque trazendo consigo leve doçura da fruta e uma acidez bem discreta, mas que marca presença. O amargor é baixo (20 IBUs), a presença da goiaba é mais marcante e a textura é leve. Dai pra frente, reforça-se a ideia de uma cerveja refrescante, leve e indicada para dias quentes de verão, com a goiaba dando um colorido bem suave no conjunto. No final, goiaba. No retrogosto, mel, goiaba e refrescancia.

A segunda da linha Brasil com S da Colorado (sexta da série) é a American Porter com Coco Queimado, uma cerveja de coloração marrom bastante escura, ainda que translucida nas bordas, e creme bege de média formação e baixa retenção. No nariz, cocada em destaque, mas conforme o nariz se acostuma é possível perceber outras notas remetendo a frutas secas, avelã e cacau. Na boca, leve sugestão de cacau no primeiro toque. O coco queimado (sugerindo cocada) chega na sequencia, e surpreende em um conjunto que ainda repete as outras sugestões adiantadas no aroma (frutas secas e avelã). O amargor é baixinho (25 IBUs) e a textura suave, mas mais suave do que se espera. Dai pra frente, uma American Porter com Coco Queimado bem interessado, em que tanto o estilo quanto a adição surgem bem representados. No final, coco e cacau sutil. No retrogosto, cocada preta.

Do interior de São Paulo para a mineira Matias Barbosa, na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro, cidade que abriga a fábrica da Cervejaria Antuérpia, que marca presença com duas (de três) variáveis da Russian Imperial Stout da casa, a Nikita, uma sobremesa alcoólica de 11.3%. A primeira delas é a Vanilla Orgasm, cuja receita recebe adição de lactose, baunilha e cacau. De coloração marrom escura praticamente preta com creme bege de baixa formação e média alta retenção, a Nikita, Vanilla Orgasm apresenta um aroma com intensa presença de baunilha em primeiro plano e cacau logo depois (numa combinação de chocolate ao leite e chocolate amargo). Na boca, equilíbrio entre baunilha e cacau, com a primeira se sobressaindo levemente, mas deixando um bom espaço para o cacau sugerir chocolate – e encantar o bebedor. O amargor é baixo (35 IBUs) e a textura, macia, para se deitar sobre ela e dormir (com os anjos ou… Nikita). Dai pra frente, uma Pastry Stout bem interessante, que não soa enjoativa muito menos, alcoólica. Um perigo (risos). No final, chocolate. No retrogosto, chocolate e baunilha.

A segunda Nikita da Antuérpia é a Cherry Hickey, cuja receita recebe adição de lactose, baunilha, cacau e, o diferencial para a anterior, cereja, mantendo a graduação alcoólica potente de 11.3%. De coloração marrom escura praticamente preta com creme bege de baixa formação e média alta retenção, a Nikita Cherry Hickey apresenta um aroma sedutor, que combina deliciosamente chocolate, cereja e lactose, sem que nenhum dos três ingredientes se destaque pelo excesso, mas sim pelo conjunto harmonioso que consegue, ainda, esconder a potência alcoólica. Essa paleta aromática é replicada com capricho no paladar, que traz chocolate e cereja juntos no primeiro toque seguido de acréscimo (incrível) de baunilha formando uma deliciosa sobremesa liquida. Não há sensação de amargor apesar dos 35 IBUs entregues pela casa. Já a textura permanece macia, aveludada. Dai pra frente, algo tipo um incrível bolo floresta negra delicioso… e liquido. No final, chocolate com cereja. No retrogosto, amor.

Permanecendo ainda em Minas Gerais, mas saindo de Matias Barbosa em direção a Paraisópolis, mais precisamente para a Fazenda Santa Terezinha, local em que a Zalaz vem fazendo magia cervejeira nos últimos meses. A primeira é a Undatus, mais uma da linha Amantink, que utiliza levedura própria da Serra da Mantiqueira combinada com ingredientes da fazenda (já passaram por aqui a Passiflora e a espetacular Citratus). Trata-se de uma Farmhouse Ale que recebe adição de vinho de pitaya, ambos fermentados com levedura selvagem. De coloração avermelhada alaranjada e creme branco de boa formação e permanência, a Zalaz Undatus apresenta um aroma com delicadas notas frutadas (a pitaya aparece de forma sútil) em meio a uma floresta de acidez, couro de cavalo, chulêzinho e curral. Na boca, a pitaya chega antes no primeiro toque trazendo consigo doçura e, depois, uma secura intensa. Não há sensação de amargor, pois a acidez passa varrendo tudo. Já a textura é delicadamente frisante e cremosa. A Colorado Brasil com S 4 – Summer Ale com Goiaba é uma cerveja agradável, com goiaba presente, mas meio sem graça. Não me chamou tanto a atenção, mas a fruta está ali, presente. Já a Brasil com S 6 – American Porter com Coco Queimado me surpreendeu e se tornou uma das minhas favoritas dessa série da Colorado. Dai pra frente, mais uma Brazilian Wild Ale supimpa da Zalaz, que consegue construir um conjunto em que a fruta aparece, mas divide o espaço com outras notas (ariscas). No final, azedumezinho e secura intensa. No retrogosto, adstringência leve, acidez, pitaya e alegria.

A segunda da Zalaz é mais uma da linha Ybyrá, que desenvolve cervejas envelhecidas em barril. A Ajucá é resultado do blend de cervejas que passaram, em média, 330 dias em barricas de carvalho americano que continham bourbon e depois cachaça. Ela foi refermentada com a microflora da cervejaria nos barris e repousou por mais 6 meses para chegar no seu ponto ideal. De coloração âmbar acastanhada turva com creme bege espesso de boa formação e retenção, a Zalaz Ybyrá Ajucá apresenta um aroma com presença deliciosa de madeira, um funky sutil apaixonante trazendo azedume e acidez, sugestão de pêssego e mel (este último de uma maneira bem leve). Na boca, avinagrado levezinho no primeiro toque trazendo consigo amadeirado e azedume, um conjunto de primeiras impressões arisco, mas que chega com bastante suavidade, e vai se tornando ainda mais macio com sugestão de pêssego e mel e mais madeira. Nâo há amargor, o lance aqui é acidez e azedume, adoráveis, funkys, provocantes, mas não extremos. A textura é suave e delicadamente picante até se tornar cremosa. Dai pra frente surge uma cerveja incrível, algo entre uma sidra francesa e uma gueuze belga, deliciosa e provocante. No final, barril, madeira. No retrogosto, acidez e azedume leves, pêssego, madeira. Delicia.

Dádiva e Locomotive Brew Kveik One
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.79/5

Dádiva e Koala San Brew Kveik Two
– Produto: American IPA (Brut)
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3.77/5

Dogma Macunaíma
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 4.52/5

Dogma PBJ
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4.53/5

Colorado Brasil com S 4 – Summer Ale com Goiaba
– Produto: Summer Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.11/5

Colorado Brasil com S 6 – American Porter com Coco Queimado
– Produto: American Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.39/5

Antuérpia Nikita Vanilla Orgasm
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11.3%
– Nota: 3.73/5

Antuérpia Nikita Cherry Hickey
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11.3%
– Nota: 3.99/5

Zalaz Undatus
– Produto: Brazilian Wild Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.93/5

Zalaz Ybyrá Ajucá
– Produto: Sour Barrel Aged
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.9%
– Nota: 4.04/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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