“APKÁ!”, show e disco de Céu, já são grandes acontecimentos culturais de 2019

Texto por Renan Guerra
Fotos por Fernando Yokota

Primeiro surgiu uma data na agenda do Sesc Pompeia que mencionava o lançamento de um novo álbum de Céu. Até aquele momento nada se sabia sobre esse tal disco – “Tropix”, seu último lançamento até então, saíra em 2016. Posts misteriosos com tons de azul apareceram no Instagram da cantora. O mistério se seguiu até que na sexta-feira, 13 de setembro, o disco “APKÁ!” chegou às plataformas de streaming de surpresa. Mas as dúvidas continuaram: o que é APKÁ? O que Céu está nos dizendo nesse momento? O que esperar daqui pra frente?

APKÁ é uma expressão que o filho caçula de Céu, Antonino, constuma usar em momentos de plena alegria. Antonino e a irmã gostam de gritar APKÁ pela casa enquanto gargalham. Essa alegria dos momentos familiares foi o propulsor para que Céu se engendrasse de novo em seu universo particular de criação e, assim, ao seu modo, construiu um disco que tenta tatear as dualidades e as complexidades de um mundo em plena combustão. Medo, solidão, tecnologia, paixão e encantamento costuram-se de forma poética nos versos cantados em “APKÁ!”, e ganham nuances nas mãos dos produtores Hervé Salters, da banda General Elektriks, e Pupillo – a mesma dupla que colaborou com Céu no genial “Tropix”.

Céu havia apresentado no início do ano, no Z Carniceria, em São Paulo, um show que passeava por sua carreira e dava conta de mostrar a força da artista que é apenas reforçada agora neste novo show, apresentado na Comedoria do Sesc Pompeia, com ingressos esgotados e disputados. Fãs, artistas, jornalistas e articuladores da MPB estavam no gargarejo para ver mais uma vez Céu encantar o público. As novas canções, como “Off (Sad Siri)”, “Coreto”, “Pardo” (composição de Caetano Veloso) e “Forçar o Verão” abriram o show de forma forte, mostrando a potência do novo projeto.

“Coreto”, inclusive, foi escolhida como primeiro single do disco e ganhou clipe belo, com direito a baile charme enquando Céu pede no refrão “Quero tocar na sua rádio / Alfa by night”. No vídeo, Céu aparece com a mesma maquiagem que compõe a capa de “APKÁ!”, com seus lábios brilhantes de gloss e seu olho desenhado em tom de azul. Foi com essa mesma maquiagem que ela subiu ao palco do Sesc Pompeia, em delicada harmonia, de uma artista sempre atenta aos detalhes. “APKÁ!” é, desse modo, azul, neon e noturno – assim como “Tropix” era preto, branco e prata ou “Vagarosa” (2009) era de um rosa esfumaçado, cada um com sua cor. No palco, Céu é cercada por molduras de neon, que podem ser tanto molduras de retratos antigos, quanto remeter ao formato das inúmeras telas a que estamos submersos, como celulares e ipads.

A nossa relação quase fagocitosa com as tecnologias, por exemplo, é tema das faixas “Off (Sad Siri)” e “Eye Contact”, faixa inicial e final do disco, respectivamente. Mas se a tecnologia, de algum modo, pode nos afastar, o amor ainda nos une e é por esse universo que o show também passeia, ao resgatar canções como “Grains de Beauté”, “Perfume do Invisível”, “Varanda Suspensa”, “Malemolência” e “A Nave Vai”. “APKÁ!”, o show, consegue costurar muito bem as novas canções de Céu com o seu passado, criando uma apresentação sólida, que abre espaço para que faixas recém-lançadas como “Nada Irreal” e “Fênix do Amor” cresçam um bocado. No novo setlist, apenas “Ocitocina (Charged)” faz falta; a bela faixa foi a primeira a ser composta para o disco novo e foi inspirada pelo parto de Antonino.

Depois de extremamente celebrada pela plateia que lotou a noite de estreia, Céu ainda retornou para um bis, em que cantou a nova “Make Sure You Head Is Above”, faixa composta por Dinho, do Boogarins. A canção cresce de forma esplendorosa ao vivo, com os instrumentos no volume máximo e Céu segurando a faixa no alto, como uma canção de rock. Um fechamento e tanto para uma estreia que já surge redondinha, quente, sem a tensão e o nervosismo que muitas vezes as estreias possuem. ]=

“APKÁ!”, show e disco, já podem ser claramente vistos como acontecimentos culturais importantes de 2019, pois reforçam a presença e a importância de Céu nesse cenário. O jornalista Alexandre Matias, no release de lançamento, inclusive pontuou que Céu é a cantora e compositora mais importante de sua geração e isso é comprovado quando vemos a naturalidade, a entrega e a verdade com que ela conduz o seu trabalho. Céu é e segue sendo um acontecimento da MPB e, em tempos tão bicudos, é um deslumbre poder ver tamanha força artística em movimento.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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