Três audiolivros: Graciliamos Ramos, Lygia Fagundes Telles e Antonio Prata

por Herbert Moura

Mesmo que ainda pequeno, o mercado de audiolivros no Brasil começa a dar passos significativos em direção ao sucesso: no ano passado, o Google Play estreou seu serviço de audiolivros por aqui e a Amazon também já prepara a chegada de sua plataforma, Audible. O interesse das grandes empresas de tecnologia pelo setor não é à toa: o segmento é o que mais cresce no mercado editorial dos Estados Unidos e movimentou 2,5 bilhões de dólares em 2017.

Segundos especialistas, uma das possíveis causas para o crescimento do mercado de audiobooks são as novas tecnologias e suas funções. Smartphones cada vez mais inseridos no nosso dia a dia (no ano passado o Brasil bateu a marca dos 220 milhões de aparelhos inteligentes), conexões mais velozes que possibilitam mais interação e acessórios mais modernos, como fones de ouvido bluetooth ou sem fio, fazem do audiolivro a opção mais fácil e cômoda em tempos de rapidez exacerbada.

Para os recém-chegados ao mundo dos audiolivros, separamos três sugestões de títulos para entrar nesse mundo e colocar a leitura (ou seria a escuta?) em dia:

“Vidas Secas”, Graciliano Ramos (Editora Record)
Narrador: Sérgio Sartório

Um dos maiores clássicos da literatura brasileira foi lançado em 1938 e reeditado como audiolivro em 2019. A história conta a trajetória da família de Sinhá Vitória, Fabiano, seus dois filhos e a cachorra Baleia pelo sertão fugindo da seca. A aridez do sertão também é plasmada nos diálogos e no pouco uso de adjetivos na obra. Sobre os personagens o autor disse: “Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão… os meus personagens são quase selvagens… pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer… porque comumente não são familiares com o ambiente que descrevem… Fiz o livrinho sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tem tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos”.

“Antes do Baile Verde”, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras)
Narrador: Lara Aufranc

Considerados por muitos críticos o livro de contos mais bem-sucedido de Lygia, “Antes do Baile Verde” reúne os escritos da autora entre os anos de 1949 e 1969. Os contos contam histórias diversas: em “A Caçada”, um homem se interessa tanto por um tapeçaria encontrada em um antiquário que se transfere para a cena retratada na peça. Já em “O Menino”, um pequeno garoto no cinema observa e retrata um casal infiel. Em “O moço do Saxofone”, um motorista de caminhão se debate sobre ir ou não para um hotel de beira de estrada com uma mulher casada. Com seu texto elegante e polivalente, Lygia navega segura por gêneros e narradores e transporta o leitor para muitos mundos distintos. Quem narra a história é a artista Lara Aufranc, entrevistada pelo Scream & Yell recentemente.

“Nu, de Botas”, de Antonio Prata (Companhia das Letras)
Narrador: Rodrigo Regis

Carregado de ingenuidade infantil, “Nu, de Botas” narra a infância do autor com o mesmo bom humor que o levou a ser um dos principais colunistas da Folha de São Paulo e um dos principais cronistas de sua geração. Antonio Prata revive as passagens mais marcantes de sua vida, desde a tenra idade no quintal de casa com amigos à descoberta do sexo através de revistas pornográficas. O resultado é uma linha do tempo cheia de lirismo, magia e humor. Como escreveu Bruno Capelas no Scream & Yell, “Prata usa da inocência e de sua simplicidade (por que não, ao desnudar suas memórias?) para renovar um tema já tão batido e adicionar força ao inconsciente coletivo de várias gerações. Uma candura.”

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