Boteco: Sete cervejas californianas

por Marcelo Costa

Começando uma série de cervejas made in Califórnia, mais precisamente Fort Bragg, na costa do condado de Mendocino, com uma Berliner Weisse sazonal da North Coast (que já passou aqui com outras três, entre elas a Old Stock Ale, e ainda outras sete, incluindo a mítica Old Rasputin), que nesta versão Cranberry Quince recebe adição de pera modelo quince e cranberries do Oregon. De coloração alaranjada e avermelhada com creme branco de média formação e retenção, a North Coast Berliner Weisse Cranberry Quince apresenta um aroma que traz doçura e acidez em equilíbrio, sendo que a primeira sugere cranberrie e a segunda se aproxima da acidez da sidra. Há, ainda, um toque cítrico que remete a limão. Na boca, doçura no primeiro toque, rápida, atropelada por um azedume bastante sutil, que remete a limonada sem açúcar e um tiquinho de cranberrie. Não há amargor, mas a acidez é média e interessante. Já a textura é leve, até meladinha, com a acidez demorando a chegar. Dai pra frente, a sensação é de mais uma Fruit Beer, aqui com a acidez em destaque. No final, secura e acidez leve. No retrogosto, cranberrie, maçã e limão.

Agora em San Diego com a segunda New England IPA da cervejaria Modern Times a bater ponto por aqui: a primeira havia sido a excelente Space Ways e agora surge a Orderville, que combina a potência do lúpulo Mosaic com a pegada herbal de um blend de outros lúpulos, tendo o Simcoe à frente. O resultado é uma cerveja amarela turva, juicy como um suco, e creme branco de ótima formação e média alta retenção. No nariz, uma pancada de notas herbais domina a paleta com leve remissão a grama e pinho. Ainda é possível perceber um leve frutado cítrico, que ganha expansão após a cerveja acalmar na taça. Na boca, doçura frutada tropical e cítrica no primeiro toque, deliciosa, com leve remissão a laranja. O herbal chega chegando na sequencia, mas sem a potência que o aroma faz suspeitar. Já o amargor é, apesar dos 75 IBUs, limpo e aconchegante. A textura é sedosa, picante, mas com leveza. Dai pra frente segue o conjunto de outra primorosa NE, com herbal bastante presente, mas cítrico dando as cartas. No final, doçura frutada. No retrogosto, laranja, mamão e herbal discreto.

Agora Escondido, casa da Stone Brewing, que marca presença desta vez com a Tangerina Express IPA, cerveja lançada em janeiro de 2017 cuja receita combina Citra, Sterling, Centennial, Azacca e Mosaic com adição de tangerina e abacaxi. De coloração dourada com uma leve turbidez e creme branco de ótima formação e longa retenção, a Stone Tangerina Express IPA apresenta um aroma que destaca um frutado intenso que remete a toranja abrindo espaço na sequencia para tangerina, damasco e doçura de mel. Na boca, a pegada de toranja se impõe logo no primeiro toque trazendo consigo leve amargor e, também, doçura de mel, abacaxi e damasco. O amargor é potente, 75 IBUs reais, que marcam a garganta e descem riscando tudo de amarguinho pelo caminho. A textura é picante e adstringente, criando salivação sobre a língua. Dai pra frente, essa cerveja com cada letra de seu nome segue distribuindo aromas tropicais até o final, amargo e cítrico. No retrogosto, adstringência, amargor e cítrico. Ótima!

Desta vez de Fairfield, no meio do caminho entre São Francisco e Sacramento, com a Heretic, que retorna ao site após ter passado por uma rápida importação que a trouxe ao Brasil em 2015 (escrevi de dois rótulos aqui). Desta vez, a Heretic mergulha no estilo da moda (se o Brut IPA ainda não tiver roubado o lugar dele), o New England IPA, com a Make America Juicy Again, uma NE produzida com os lúpulos Mosaic, Citra e Belma (acho que a primeira cerveja com este último lúpulo a aparecer por aqui). Trata-se de uma cerveja de coloração amarela turva, juicy como um suco, e creme branco espesso de boa formação e retenção. No nariz, uma pancada frutada incrível de manga seguida de sugestão de abacaxi, laranja e grapefruit, bem suave. Na boca, a mesma sensação maravilhosa de manga no primeiro toque abrindo para mais frutas tropicais na sequencia, sem nenhuma pontada de amargor (são 40 IBUs macios e bem aconchegados no conjunto). A textura é suave e, dai pra frente, a Heretic entrega um exemplar maravilhoso de NE, frutada e saborosíssima. No final, manga. No retrogosto, mais frutas, mais refrescancia, mais sabor. Que delicia.

De Oakland, a Woods Beer Co. marca presença com a Islay, uma potente West Coast Double IPA que matura em barris que antes abrigaram uísque da Laphroaig, da ilha escocesa de Islay, famosa por seus uísques turfados. De coloração amarela levemente alaranjada com creme branco espesso de boa formação e longa retenção, a Woods Islay apresenta um aroma que combina potência cítrica (toranja), muito herbal (pinho) e leve sugestão de madeira, em segundo plano, e turfa, bem distante. Os 9% de álcool não dão as caras, felizmente. Na boca, o pinho se destaca no primeiro toque com a toranja por ali, querendo um espaço, entre o forte aceno herbal e a suave remissão a madeira. Os 100 IBUs de amargor soam exagerados, mas se baixarmos para 60 (que seria uma sensação mais real) ainda estaria num bom nível. A textura é suave querendo ser cremosa com o álcool mostrando suas garras e, trazendo consigo, os 100 IBUs de amargor (sobre a língua, o conjunto dobra sua intensidade). Dai pra frente surge uma interessante Imperial IPA amadeirada, pouco turfada (esperava mais) e com herbal se sobrepondo ao cítrico. No final, amargor, toranja e pinho, que brilha mais. No retrogosto, pinho, toranja, madeira e calor.

De Oakland para Santa Rosa com a quarta cerveja da Russian River a marcar presença por aqui, a Sanctification, uma Blond Ale com fermentação primária de 100% de leveduras selvagens (Brett) que acaba se aproximando de uma leve Saison. De coloração amarelo palha com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Russian River Sanctification apresenta um aroma que junta frutado (maçã, limão, grapefruit, tudo bem sutil) com notas funky derivadas da Brett, que remetem a couro e curral. Há, ainda, uma leve sensação mineral. Na boca, maçã no primeiro toque seguida por acidez bem leve, um toque quase imperceptível de toranja, mineralidade e refrescancia. O amargor é baixo, a acidez é média e a textura, frisante. Dai pra frente, a sensação de Belgian Saison fica mais evidente, mas com bastante leveza. No final, maçã, feno, mineral. No retrogosto, funky, mineral, couro, maçã, feno e refrescancia.

Fechando o passeio por Placentia, cidade a cerca de uma hora de Los Angeles que abriga a cervejaria The Bruery, uma das mais badaladas no território das Sours e Wild Ales. Ela já passou por aqui com outras três cervejas e agora retorna com a Wit The Funk, uma receita básica de Belgian Witbier com direito a casca de laranja, semente de coentro e levedura do estilo, que é entortada por uma combinação de leveduras selvagens (Brettanomyces e um mix de leveduras próprias da cervejaria) para, depois, ser maturada em um foeder forest, imensas barricas de madeira (na The Bruery, uma mescla de carvalho americano com carvalho francês). O resultado é uma cerveja de coloração alaranjada com creme bege clarinho, quase branco, de boa formação e média alta retenção. No nariz, uma combinação de notas ariscas, acidas e azedas com frutado cítrico (laranja distante), madeira (carvalho) e doçura de trigo. Na boca, o azedume chega antes acompanhado tanto por laranja quanto por acidez, madeira, doçura e funky, numa proposta arrebatadora. A acidez e o azedume tomam o lugar do amargor e a textura, frisante, faz uma festinha sobre a língua. Dai pra frente, uma cerveja incrível, refrescante e deliciosamente torta, que finaliza acética e levemente adstringente. No retrogosto, laranja, madeira, salivação, azedume e acidez. Uou!

Balanço
Abrindo os trabalhos com uma Berliner da North Coast com pera quince e cranberrie que parece muito mais Fruit Beer, com um azedinho e uma acidez diferenciando, e a valorizando. A Modern Times Orderville é mais uma baita New England. Fechando o quinteto com a deliciosa Founders Tangerina Express IPA, amarga, cítrica e com muita percepção de tangerina e toranja. A Heretic Make America Juicy Again é uma NE sensacional, maravilhosa, que consegue honrar o estilo com galhardia. A Woods Islay é um IPA potente e bem agradável. Já a Russian River Santification é uma Belgian Saison refrescante e deliciosa. Fechando, a The Bruery Wit The Funk é daquelas cervejas que são uma baita experiência, uma delicia cítrica, azeda, acética e amadeirada.

North Coast Berliner Weisse Cranberry Quince
– Produto: Berliner Weisse
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.1%
– Nota: 3.34/5

Modern Times Orderville
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 3.93/5

Stone Tangerina Express IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3.58/5

Heretic Make America Juicy Again
– Produto: NE India Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 4.04/5

Woods Islay
– Produto: Imperial IPA BA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.42/5

Russian River Santification
– Produto: American Wild Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.75%
– Nota: 3.49/5

The Bruery Wit The Funk
– Produto: American Wild Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3.99/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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