Ao vivo: Alice Caymmi se reafirma como figura de resistência artística em novo show

texto por Gustavo Almeida
fotos por Murilo Alvesso

Após apresentar seu novo disco, “Electra” (2019), para o público paulistano em junho, em julho foi a vez dos conterrâneos cariocas conferirem a nova fase de Alice Caymmi, que, sem dúvida, representa uma ruptura em sua carreira. Acompanhada de Itamar Assiere, ela aposta na intensidade de sua interpretação ao usar exclusivamente o formato piano-voz nas gravações. Após experimentar sonoridades, se aventurando entre o pop eletrônico e o R&B nos últimos trabalhos, ela resolveu se voltar para as canções. “Electra”, o disco, passeia por composições de diversas épocas, mostrando um repertório que se espera de uma artista estabelecida e que carrega o nome de uma das famílias mais importantes da nossa música popular.

O belíssimo Teatro Riachuelo, no centro do Rio, parecia o cenário ideal para associar as atemporais letras sofridas com a fúria de Electra, figura mitológica grega que batiza o álbum, na interpretação da artista. Dessa forma, assim que as cortinas se abriram revelaram uma Alice camuflada entre roupas e luzes vermelhas, com o rosto mascarado e uma ádaga nas mãos inaugurando a noite com uma dupla de canções que agarrou a atenção da platéia para não soltar mais: “Diplomacia” (Maysa) seguida de uma versão arrebatadora de “Como Vês” (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti). “O amor vai desbotar as cores / das fotos que ele tocar”, cantou Alice, ditando o tom de intensidade e angústia que guiaria o espetáculo.

Indo além do sofrimento lírico, o show seguiu para chegar a uma sequência de músicas que traria o espetáculo a outro nível de alcance. Se ainda era possível se dispersar com a presença vocal inquestionável de Alice, começava um giro cênico pelos elementos do palco (“Electra”, o show, marca o reencontro de Alice com Paulo Borges, diretor responsável pelo show “Rainha dos Raios”, de 2014. Ao lado esquerdo, agarrando-se a uma corda suspensa do teto ao chão, veio “Agora” (Gianpietro Felisatti e Cristiano Malgioglio), em uma impecável e emocionante execução. Depois, a cantora se debruçou sobre a mesa centralizada ao fundo do palco para as súplicas amorosas de Tim Maia em “Pelo Amor de Deus”, uma faixa do início dos anos 70.

O giro continuava para a escada ao lado direito, onde Alice subia enquanto declamava a belíssima letra de “Mãe Solteira”, feita quando Tom Zé, também nos anos 70, resolveu estudar o samba. Caminhando para o centro do palco e para o século XXI, ela se sentou para cantar sua recusa ao medo, o “alimento dos covardes”, em “Areia Fina” (Lucas Vasconcellos), e se levantou para subir no cenário e cantar, com ajuda do público, sua parceria com o hitmaker Michael Sullivan, “Meu Recado”.

O trecho final do show trouxe ao palco o percussionista Filipe Castro (alternando-se entre tambor e pandeiro) e o setlist ainda passou por importantes músicas de sua carreira, como “Iansã” (de Caetano e Gil feita especialmente para Bethânia nos anos 70) e “A Estação” (de Carlos Rufino) além do samba oitentista “Pedra Falsa” (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) e de “Me Deixo Mudo”, de Walter Franco.

Próximo do encerramento, Alice emprestou mais uma vez a música/manifesto de Candeia que abre “Electra”, “De Qualquer Maneira”, se reafirmando como figura de resistência artística. Tão artista que nem mesmo o final confuso da apresentação pôde abalar o impacto de um espetáculo que chegou para evidenciar a coragem de uma Alice que, apesar do que dizem, às vezes, sua própria família (não deixa de ser sintomático que a última canção da noite, o grande sucesso “Andanças”, seja uma parceria do pai Danilo com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), vai fundo no que acredita e tem muito a oferecer.

Gustavo Almeida é estudante de Comunicação Social na UFRJ e responsável pelo podcast Nos Palcos do Rio (ouça aqui). Os vídeos são do user Donnie Darko 73. Confira outros vídeos dele deste show.

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