Boteco: Sete estados, sete cervejas

por Marcelo Costa

Começando por Pomerode, em Santa Catarina, casa da Schornstein, que aparece desta vez com sua Festival, uma New England IPA produzida especialmente para o 3º Schornstein Festival, em 2018. De coloração amarela com leves traços âmbar e creme bege bem claro de boa formação e média retenção, a Schornstein Festival New England IPA apresenta um aroma com bastante frutado cítrico e, ainda, muita presença herbal, sugestões que combinam manga, pinho, frutas amarelas e, ainda, percepção de pêssego além de doçura discreta de caramelo. Na boca, a pegada de frutas chega antes no primeiro toque trazendo consigo pêssego e maracujá. Logo na sequencia, é possível perceber a presença herbal, com sugestão de pinho, tudo isso cortado enfim pelo amargor, mais intenso e arisco (65 IBUs) do que numa NEIPA tradicional. A textura, no entanto, é suave, quase cremosa. E dai pra frente, a combinação frutado + herbal entrega um conjunto de ótimo drinkability e muito sabor. No final, amarguinho, herbal e caramelo. No retrogosto, doçura leve, frutado e herbal.

A segunda desta série é a Brazilian Wood II, da paulistana Cervejaria Treze, que na primeira edição de sua série de cervejas especiais com madeiras brasileiras convidou a holandesa De Molen para uma colaboração, e nesta segunda chama os curitibanos da Cervejaria Dum para uma parceria. A Brazilian Wood II é uma Wheat Wine maturada com a madeira brasileira Castanheira. De coloração amarela, juicy tal qual um suco (mas sem ser uma New England) e com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Treze Brazilian Wood II apresenta um aroma com muitas frutas amarelas, delicioso amadeirado e uma leve sugestão de doçura. Os 10.1% de álcool não aparecem no nariz. Na boca, doçura de frutas amarelas no primeiro toque seguida de leve presença de mel, amadeirado e álcool muito sutil. Não há percepção de amargor, a textura é sedosa, caminhando para o licoroso, e o conjunto surpreende pela combinação delicada da madeira com a doçura (que remete a mel) e a sugestão de frutas amarelas. No final, doçura, calor alcoólico e frutas amarelas. No retrogosto, mel, frutas amarelas, madeira e alegria.

De São Paulo para o Rio de Janeiro, ainda que a planta da cervejaria carioca Hocus Pocus se localize em Matias Barbosa, Minas Gerais, com a Orange Sunshine, uma American Blond Ale com (cevada, trigo, aveia e) adição de laranja. De coloração amarela levemente turva remetendo a suco de laranja exceto o creme branco, de boa formação e média alta retenção, a Hocus Pocus Orange Sunshine apresenta um aroma bastante frutado, com intensa remissão a suco de laranja de caixinha, e praticamente mais nada (nem de American Blond Ale, nem de cerveja). Na boca, pegada leve de laranja no primeiro toque que, porém, aumenta consideravelmente na sequencia, deixando na dúvida se é cerveja ou suco – no mínimo, ela é muito mais Fruit Beer do que Blond Ale, já que a base foi esmagada pela fruta. O amargor praticamente não existe e a textura é leve (sobre a língua é possível sentir um pouco de… cerveja). Dai pra frente, um conjunto saboroso de Fruit Beer e nada de American Blond Ale. No final, laranja e refrescancia, sensações que também formam o retrogosto.

Do Rio de Janeiro para Porto Alegre, no Rio de Grande do Sul, com mais uma da gaúcha Suricato, ainda que esta Flêtcha-Flêtcha seja produzida na fábrica da Dádiva, no interior de São Paulo. Trata-se de uma Brett Saison que recebe dry-hopping de lúpulo Citra e de casca de limão bergamota. De coloração amarela turva como um suco e creme branco de excelente formação e eterna retenção, a Suricato Flêtcha-Flêtcha apresenta um aroma delicioso que combina frutas cítricas (limão colhido do pé agorinha e leve tangerina) como o funky leve e tradicional do estilo Farmhouse Ale. Na boca, mais limão, desta vez delicioso no primeiro toque. O conjunto, na sequencia, equilibra com sabedoria notas cítricas e o funky suave do estilo e da levedura selvagem. O amargor é baixo (32 IBUs segundo a casa), a textura é levemente cremosa e frisante. Dai pra frente, a receita continua exibindo com louvor essa junção de Brett, Saison e frutas cítricas, que finaliza com limão e picância. No retrogosto, limão, tangerina, picância e refrescancia. Uma delicia!

De Porto Alegre para Salvador com mais uma cerveja da 5Elementos, que já passou por aqui com um de seus grandes hits, a Abyssal, e retorna com a Abyss, Vanilla Oatmeal Stout que além de baunilha recebe adição também de nibs de cacau. De coloração marrom escura turva (tipo café cujo pó também passou pelo coador) e creme bege de excelente formação e média alta retenção, a 5 Elementos Vanilla Oatmeal Stout apresenta um aroma que destaca a torra (?) deixando tanto a baunilha quanto o cacau praticamente imperceptíveis – fica a dúvida se inclusive os ingredientes foram colocados na receita. Há um leve metálico e uma sugestão discreta de azedume. Na boca, leveza “aguacolatada” no primeiro toque seguido de um leve azedume, metálico e praticamente nada que lembre uma Oatmeal Stout – até a torra em destaque não deveria estar aqui. A textura é picante e metalizada. Dai pra frente, um conjunto zoado que não honra a cervejaria muito menos o estilo. Decepção. No final, torra e azedume bem leve. No retrogosto, café, torra, azedume suave.

De Salvador para Londrina, no Paraná, uma das casas da Maniacs Brewing Co. (sediada em Curitiba), que retorna ao site com sua Craft Lager, uma American Light Lager de coloração dourada cristalina e creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, cereais, leveza, um toque bastante sutil de doçura e quase nada que remete a lúpulo. Na boca, cereais no primeiro toque com doçura maltada bem suave na sequencia e, com muita boa vontade, um leve toque cítrico e herbal distante, mas bem distante mesmo. O amargor é baixo (20 IBUs), a textura é leve e picante (com percepção sutil de metal) e, dai pra frente, surge uma American Light Lager bastante simplória, que não consegue brigar de igual para igual com outras representantes artesanais muito menos rótulos mainstream famosos (como Heineken ou Stella Artois), o que prejudica consideravelmente a experiência no quesito custo / beneficio. No final, refrescancia. No retrogosto, leve metalizado, refrescancia, cereais.

Do Paraná para Minas Gerais, com mais uma do clube da Wäls, de Belo Horizonte, o MadLab. Desta vez, eles produziram uma Double Brown Ale cuja receita recebe adição de cacau, baunilha e um leve blend de cerveja maturada em barricas de balsamo. De coloração marrom escura com creme bege espesso de boa formação e media alta retenção, a Wäls MadLab Double Brownie apresenta um aroma que exibe bastante presença de malte tostado sugerindo caramelo, percepção de cacau, praticamente nada que remeta a baunilha e, muito menos, a balsamo. Na boca, malte tostado no primeiro toque com o cacau dando as caras com intensidade na sequencia. Já a baunilha e o balsamo decidiram ficar de fora dessa garrafa (só pode). O amargor é baixo (26 IBUs), a textura é cremosa e, dai pra frente, a receita cumpre a risca a ideia de entregar uma Brown Ale potente, mas falha em entregar as sensações dos insumos que o rótulo diz que a cerveja traz. No final, doçura maltada. No retrogosto, caramelo tostado e cacau.

Balanço
A catarinense Schornstein Festival não está no mesmo alto nível, mas é uma NEIPA bastante agradável e de ótimo drinkability, e com bom custo beneficio. Já a Treze Brazilian Wood II, uma Wheat Wine de alto drinkability (cuidado) para os seus 10.1% de álcool, muito bem inseridos num conjunto delicioso. A Hocus Pocus Orange Sunshine é uma ótima Fruit Beer e uma decepcionando American Blond Ale. A laranja atropela tudo, mas é uma cerveja refrescante e de boa entrada. Só precisa ser melhor posicionada, para evitar equívocos. A Suricato Flêtcha-Flêtcha, por sua vez, consegue equilibrar com maestria os adjuntos adicionados sem descaracterizar o estilo construindo uma grande cerveja. Palmas. Por sua vez, a 5 Elementos Vanilla Oatmeal Stout é um grande equivoco, um erro gigantesco que não honra nem a cervejaria nem o estilo. A Maniacs Craft Lager não chega nem a arranhar o status da Heineken, imagina de outras artesanais.

Schornstein Festival
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Pomerode, SC
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3.33/5

Treze Brazilian Wood II
– Produto: Wheat Wine
– Nacionalidade: São Paulo, SP
– Graduação alcoólica: 10.1%
– Nota: 3.91/5

Hocus Pocus Orange Sunshine
– Produto: American Blond Ale
– Nacionalidade: Rio de Janeiro, RJ
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.00/5

Suricato Flêtcha – Flêtcha
– Produto: Brett Saison
– Nacionalidade: Porto Alegre, RS
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.94/5

5 Elementos Stairway To The Abyss
– Produto: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Salvador, BA
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: —/5

Maniacs Craft Lager
– Produto: American Light Lager
– Nacionalidade: Londrina, PR
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 2.02/5

Wäls MadLab Double Brownie
– Produto: Brown Ale
– Nacionalidade: Belo Horizonte, MG
– Graduação alcoólica: 8.8%
– Nota: 3.09/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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