Primavera Porto 2019: Bonito, confortável e quase perfeitinho

Texto por Thiago Pereira
Fotos por Hugo Lima

Apesar de um enorme letreiro lembrar, logo no primeiro palco, que o evento foi criado em Barcelona, o Primavera Sound é a cara do Porto. Ou melhor: a versão local reúne muitos dos méritos que a cidade possuí. Com um cartaz literalmente (físico e midiático) menor que seu irmão catalão – particularmente gostaria que nomes como Suede, Primal Scream e Kurt Vile passassem por aqui também – e compactado em três noites, o festival arrebata de maneiras parecidas como a cidade que o sediou entre os dias 6 e 8 de junho. Ocupando charmosamente uma parte do gigantesco e lindo Parque da Cidade, reprisa fielmente uma das qualidades maiores do Porto: é um evento handy, na mão, ou seja, fácil de ir (muitas opções de transporte), de voltar (com ônibus rodando especialmente para o festival pela madrugada) e, principalmente, de se deslocar lá dentro. E, rememorando Bruno Capelas, que esteve aqui pelo Scream & Yell em 2013, “é um festival pequeno, mas com alto nível de apresentações“.

Seus palcos não têm aquela distância quase intermunicipal que tem se tornado padrão nos grandes festivais, aquela mania de grandeza que pode encher os olhos da malta mais jovem, mas que entristece um miúdo como eu, quase quarentinha nas pernas e costas. A edição do NOS Primavera Sound Porto segue a via contrária com uma extensão democraticamente confortável para todos, onde era possível circular por toda sua extensão sem fôlego de maratonista ou sem desejar ajuda hospitalar – e ainda, ao contrário de sua cidade-sede, sem ribanceiras elevadas. O acesso aos palcos e aos itens básicos de sobrevivência humana (banheiro, comida, cerveja) é simples. Parece pouco e incomodamente extra-musical, mas é o tipo de coisa que define muito da experiência de estar no evento e compensa a falta de atrações mais chamativas na escalação musical. Mas muitas vezes é na ausência dos tais ‘grandes nomes’ que moram as melhores surpresas.

Dia 01 (06/06)

O primeiro dia foi sintomático e explicitaria a dinâmica do evento: em espaços e vontades ainda maiores um show como o do Stereolab correria sérios riscos de se perder no éter, passar despercebido, com suas nuances jazzy e eletrônicas e experimentais. No Porto, se acomodou muito bem, colocando uma turma bem mais velha para dançar e cantar seus pequenos hits como “French Disko” e “Lo Boop Oscillator”. A mesma lógica serve ao Built To Spill, na verdade Dave Marsch e seus brothers do Brasil, já que a banda que o acompanhava era composta de músicos daqui, incluindo o herói indie carioca Lê Almeida. Em outros contextos, encarar o palco principal com versões mais lentas, baixas e bem menos empolgantes de hinos indies como “Center of The Universe”, “You Were Right” e “The Plan” poderia ser uma bola fora. Mas sendo no começo do evento (quando ainda estamos sob o impacto da chegada), com a luz do céu de fim de tarde querendo aparecer, o ambiente também ‘melhora’ os ótimos riffs da Stratocaster de Marsch. Festival também é clima, atmosfera, etc.

Built To Spill

Mas Jarvis Cocker, um daqueles camaradas capazes de roubar a cena até em fila de banco ou trocando o pneu do carro (como no imperdível documentário “Pulp: A Film About Life, Death and Supermarkets”), não precisa de nada disso – precisa de um ou dois parágrafos só dele, dono do melhor show deste primeiro dia, de longe. Natural born entreteiner, o britânico esteve para o Primavera Porto como os ingleses que estiveram nos bares da cidade para assistir à Liga das Nações na última semana (e voltaram eliminados da vizinha Guimarães pelos holandeses): não importa o jogo (ou o repertório), o importante é estar ali e celebrar a simples existência daquilo (seja o futebol ou a música pop). Se no dia anterior os portugueses celebraram muito timidamente os impressionantes gols de Cristiano Ronaldo que os levaram para a final, os ingleses, movidos à teralitros de cervejas, cantavam, berravam, beijavam-se, tiravam a camisa. Um bando de loucos que deliciosamente ‘oprimiam’ os locais, fazendo uma algazarra completa onde passavam por aqui.

Jarvis Cocker

Jarvis, com sua elegância dândi, e aditivado pelos chocolates (!) que tirava do bolso e mandava pra plateia, fez no palco algo semelhante um dia depois: passou quase todo o show em cima de uma das caixas de som, como que pra deixar bem claro quem ‘mandava’ ali e fez interações impagáveis com a plateia. Recadinhos maliciosos (“Mas vocês estão tão quietos”), mímicas coletivas e, principalmente, aqueles prelúdios sensacionais entre as canções. Se Jarvis foi o comentarista social mais afiado como então jovem britpopper, hoje narra maravilhosamente os dilemas e dramas da vida adulta, como o comichão por farrear depois dos quarenta (“House Music”), as chateações da vida à dois (“Further Complications”) e a grande e definitiva mensagem sobre os dias que correm (“Cunts Are Running The World”). Vale lembrar que quando o Pulp decidiu voltar aos palcos em 2011, o primeiro show escolhido a dedo foi no Primavera Barcelona (que tinha visto o último concerto da banda, em 2002), com direito a “Common People” dedicada aos “Indignados”, grupo de manifestantes que havia apanhado da polícia catalã naquele dia.

Se por vezes o tom do britânico soa sombrio como um Leonard Cohen, quando adicionada sua voz à harpa, sax, globo de discoteca e, principalmente, à sua personalidade impagável, lembramos que, na verdade, a performance sacana e ácida de Jarvis é herdeira direta de outro cantautor, Serge Gainsbourg. Deixando bem claro que ele era o dono de Porto naquela noite, trouxe e mandou a chuva local embora na duração de apenas uma canção, “His N´Hers”, concessão deliciosa ao repertório do Pulp. Foi o suficiente para nos molhar todos (não estamos falando de garoas e sim de ataques aquáticos raivosos) e (quase) não nos importarmos.

No fechamento de uma simpática mas morna noite de estreia, a headliner Solange prometia levar o Primavera para outras dimensões, ocupando o palco principal com todo o aparato pop habitual: backing vocals, multiníveis, dançarinos, banda completa, além de um belo de um disco/declaração lançado neste ano “A Seat At The Table”. A julgar tanto pelo conteúdo lançado, quanto pela transposição dele nas primeiras músicas do show (a chuva, o frio e a idade proibiram o alongar das pernas e das horas), ela pode se sentar confortavelmente junto à poderosa irmã, mas numa parte mais à esquerda e aventureira da mesa r&b, o que torna as coisas ainda mais interessantes.

Dia 02 (07/06)

Apesar de Solange ser a cabeça de cartaz mais destacada, como divulgado pelo próprio festival (o que dá alguma medida para a moral da moça) é a partir da sexta-feira, segundo dia, que o Primavera Sound ganhou uma dimensão especial, reunindo não apenas mais público, mas também aqueles que se mostrariam ser alguns dos melhores shows de todo o evento. Como o humor da própria cidade do Porto, a ausência de chuva e a volta do sol aperfeiçoaram todo o contexto, deixando o festival mais vibrante, caloroso e bonito.

A nata do segundo dia de Primavera esteve entre dois extremos radicais, duas visões sobre ‘fazer música’ que não poderiam estar em polos mais opostos, mas que emocionam de maneiras parecidas e enaltecem a experiência do “ao vivo”, da performance, em vários âmbitos: Shellac, mais cedo, em um palco menor enlouquecendo os convertidos transfigurando o insulto, a violência, o ódio, em arte. E James Blake, fechando o palco principal para uma multidão hipnotizada pela delicadeza de seus arranjos, pela fragilidade de suas canções e pela leveza de sua voz. Em comum, ambos os shows mostram que a regrinha de menos é mais (três pessoas no palco, sem maiores papagaiadas) muitas vezes é imbatível. Fora isso, difícil pensar em viver dois extremos sônicos tão grandes, mas igualmente redentores, em um intervalo de poucas horas.

Shellac

Apesar de escudado por um baterista e um baixista absolutamente geniais, Shellac é o show de Mr. Steve Albini, uma constelação particular que, desde os tempos de Big Black, que orbita em torno da inadequação, do ódio, da frustração e da impossibilidade de superar tudo isso. Tem um volume e uma violência que, por exemplo, o impactante post hardcore dos bascos Lisabö, que com suas duas baterias, dois baixos e duas guitarras fez barulho e chamou a atenção no Palco Seat logo no começo do dia, apenas sonha em chegar (e a culpa não é deles, insisto, já que trata-se de uma bela banda).

Lisabö

Mesmo tendo moldado algumas das paisagens mais importantes e definidoras do rock contemporâneo (Pixies, Nirvana) que inclusive o credenciaram para assinar trabalhos de retorno com clássicos imortais (Page & Plant, The Stooges) com seu trabalho como produtor, como músico Albini ainda parece gloriosamente repetindo e tentando atualizar o hino que criou ainda na década de 1980, “Kerosene”, uma das canções mais… inflamáveis de todos os tempos. A diferença é que, ao contrário do hino que versava sobre jovens entediados que precisam botar fogo em cidade provinciana para dar algum sentido para a vida, o guitarrista (e que guitarrista!) hoje conhece o mundo e parece conseguir algum prazer sádico nisso. Portugal sabe bem: Albini bate ponto quase todos os anos no Primavera (é sempre a primeira atração a ser anunciada) e devolve carinhosamente seu afeto pelos lusitanos, quando exprime o desejo de trepar com “todas as pessoas dessa plateia”.

Se sua cosmologia anterior tinha a ver com “songs about fucking”, “rapeman” e outros signos que hoje poderiam ser percebidos como obra de um celibatário involuntário (mas com toda a ironia, verniz criador e principalmente performance contida nisso, essencial para separa-lo desses punheteiros de merda que se escondem na internet), Albini parece ter conseguido canalizar sua frustração, sua luxúria doentia, para sua criação. Assim, o Shellac não é propriamente um show: é mais um happening, palco para um orador do caos tecer, sob uma blitz de riffs e timbres espetaculares de guitarra muito, muito pesados e intensos, suas considerações sobre o estado do mundo atual: um longo e ruidosíssimo (já falei das guitarras?) discurso sobre como seu “grande plano de dominação” da música e da vida deu errado, mas com tons de stand up comedy (Ed Sheeran, afinal, não passa de um porco nojento por não lavar seus lençóis, como ele declama com obsessão) que revelam muito de sua genialidade.

É blues do macho branco castrado sim, mas convincentemente angustiante – à citação à “Transmission”, do Joy Division não vem à toa – sacana, inteligente e hipnótico. Ver Shellac ao vivo nos faz dispensar qualquer outra chancela referente à ‘música pesada’: é a literal arte do barulho.

James Blake

Nada mais oposto que James Blake, na outra ponta do evento e, especialmente, do propósito artístico: se o veterano Albini se interessa pela carne, o talentoso jovem busca o espírito. Mas a procura de ambos é igualmente inesquecível. O britânico faz música pop celestial, heaven up here, promove o silêncio, as pausas, a falta de ruído como parceiros ideais para suas espetaculares canções. Às vezes acontece: vários dos aspectos (aquelas expressões pavorosas tipo downtempo, jazzy, cool) que muitas vezes compõem o modelo para algumas detestáveis propostas sonoras, são sublimados em música incrível. Para seguir a toada, Blake é herdeiro do melhor trip hop, não do lounge. Sua música climatiza ambientes redentores, não coworkings ou ‘agências criativas descoladas’.

Não à toa, gemas como “Assume Form” (que abriu a apresentação), “The Limit To Your Love” e “Timeless” comoveram uma multidão de portugueses já tarde da noite para o palco principal; sua música veste bem parte do ethos local. Assim como um dos maiores orgulhos lusos, o Madredeus, Blake organiza um pop que desejaria ser ouvido nas muitas igrejas espalhadas pelo Porto. E assim ele conseguiu transformar o Parque da Cidade em seu púlpito particular, um reino da delicadeza, preenchendo todo aquele ambiente com sua marcante voz e seus esparsos arranjos de teclado, synths e bateria, guiando tranquilamente o que seria uma hora de muitos silêncios, fumaça, alguns choros (presente!) por ali. “Can’t believe the way we flow”, sumariza uma das canções lá pelo meio da apresentação. Melhor definição não há.

Courtney Barnett

Mas como entre o inferno e o céu há a vida mais “cotidiana”, Courtney Barnett é um dos exemplos de como a música simplificada, despretensiosa, pode ser sensacional. De novo, é a lógica do menos é mais, de canções deliciosamente fáceis como “City Looks Pretty” e “Faceless Nameless”. A moça tem várias credenciais indie? Tem sim. Mas cá pra nós, sem os tiques e recalques típicos, ou seja, é apenas pop por vezes embrulhado em barulho, por vezes não, mas sempre muito bom de ouvir. O bloco que juntou em “Everybody Here Hates You”, ironicamente tocada depois de uma saudação romântica ao sol que se punha no parque e seus deliciosos hits (“Elevation”, “Depreston” e “Pedestrian At Best”, que fechou o show, foi dos momentos mais deliciosos de todo o Primavera). E quando reparamos, acabou o show, sorrisos na cara (nas nossas e na dela) e a sensação de que a vida fica um pouquinho mais leve com a existência de uma artista como ela.

Liz Phair

Curiosamente, podemos pensar em Liz Phair, que se apresentou pouco depois, como uma pré- Barnett. Guardadas as devidas dimensões, tratam-se de duas mulheres portanto guitarras barulhentas, amplificando discursos femininos e que se estabeleceram/estabelecem como pepitas indie de suas gerações, gravando discos que marcaram épocas distintas. Mas… tirando uma certa nostalgia dos anos 1990, especialmente no que se refere à timbragem das três guitarras que estavam no palco e no template power pop distorcido que embala o repertório de Liz, trata-se de um show pouco memorável, que nos faz lembrar menos da cantora abusada que chamou a atenção com “Exile On Guyville” e um pouco mais da musa alternativa que tentou uma virada pop desastrada em determinado momento da carreira para cair no esquecimento. É um comeback que não convence muito.

Interpol

Quem convence, especialmente o público português, é o Interpol. Os lusos parecem se reconhecer nos climas mais desolados e sombrios do grupo, acompanhando com alguma empolgação o show. Em uma apresentação bastante correta (jogando seus hits pra galera sem nenhuma parcimônia), os nova-iorquinos se mostraram afiados. Não é nada, não é nada, daqui há pouco completam-se 20 anos de “Turn On The Bright Lights”, disco de estreia e ainda o momento maior do grupo (“PDA”, “Obstacle 1”, executadas, nos lembram disso) e os caras ainda estão aí, firmões naquela elegância toda, com direito à música lançada em 2019 (“Fine Mess”, com aplausos que comprovaram a devoção local pelo grupo) e seguindo o jogo.

Jorge Benjor

Dia 03 (08/06)

Último dia de festival, dia de atrações brasileiras, e, particularmente, de algumas das atrações que nutria muita vontade de assistir. Infelizmente não cheguei a tempo de ver O Terno e felizmente, já assisti a Jorge Benjor em 1994, 2000 e alguma coisa e boas. Ou seja, já vi essa versão pouco inspirada do gênio Ben ao vivo suficientemente. Ao longe, dava pra escutar o clássico “teteteretê” ad infinitum e imaginar quantas garotas da plateia ele chamaria para subir ao palco, etc, etc, etc.

Big Thief

Meu encerramento começou mesmo com o Big Thief. Donos de um dos discos mais intoxicantes de 2019 (“UFOF”) o grupo é exemplar daquilo que é chamado de Americana, um composto contemporâneo de folk, country, rock, que, sutilmente amalgamados, garantem sedução certa para ouvinte. Claro que também serve de muleta para coisas bastante genéricas, o que não é o caso do Big Thief. Ao vivo, não proporciona a mesma experiência do disco, como esperado (é um repertório delicado o suficiente para se perder em grandes arenas) mas convence. A voz de Adrienne Lenker, se em disco remete à relíquias como Joni Mitchell ou Judee Sill, ao vivo, emoldurada por guitarras e violões, soa deliciosamente pop (até Cranberries me veio á mente), à frente, pique de show. Destaque também para o visual “desleixado” da turma, roupas rasgadas, dentes quebrados, talvez culpa do “fim da turnê”, como anunciaram no palco. Estranhamente, o foco do repertório não esteve no novo e elogiadíssimo álbum, fazendo um passeio pela curta carreira da banda. Talvez isso tenha diminuído um pouco o saldo final.

Na sequência, Robert Pollard comandou um show de nada menos que 36 (TRINTA E SEIS) músicas à frente do Guided By Voices. Tomando uísque do gargalo, o vovô do indie desempenhou, digamos assim: cantando maravilhosamente bem, girando microfone à la Roger Daltrey, comandando uma banda barulhenta e afiada, levou um pequeno mas fidelíssimo público à um passeio inesquecível pela longa trajetória do grupo. Aquele tipo de apresentação em que você encontra um ou dois fãs na grade cantando absolutamente tudo, da música mais obscura do álbum lançado recentemente (o GBV é o tipo de grupo que está com uma discografia labiríntica, zilhões de trabalhos) e perde a cabeça em hinos como “Motor Away” ou “Game Of Pricks”.

Amyl and The Sniffers

Uma volta rápida em palcos menores revelava que 1) A estética punk rock não vai morrer nunca (não que deveria, claro) e ainda comove muita gente, com o barulhento show de Amyl and The Sniffers, com a vocalista tocando fogo em uma plateia cheia de rodas de pogo (com direito à descer do palco e se juntar à malta) e 2) Existe uma artista gigantesca na rota ibérica, chamada Rosalia, que ainda não bateu no Brasil e que impressiona por sua popularidade, pela força ‘diva pop’ que possuí (comparável, no Primavera Sound, apenas à Solange) e pela mescla de cumbía, reggaeton e ritmos latinos ao template global de canções pop. Bonito de ver de longe a multidão.

Rosalia

Como um daqueles ‘presentes’ que grandes festivais dão discretamente no cartaz de suas programações, estava o Low. Ainda menos conhecido no Brasil que deveria, é o tipo de banda/show que ENLOUQUECERIA certos nichos por aí, e com toda razão. Trata-se de uma experiência que o teórico alemão Hans Gumbrecht chamaria de produção de presença: sensorialidade pura, anterior ao campo ou às lógicas do entendimento, do significado. É um som que emana e afeta, as raias do físico: os quase dez minutos de feedback, caos sônico de “Fly” poderiam/deveriam ser previamente informados à audiência: este escriba aqui ficou minutos com a visão embaçada, a cabeça doendo, os sentidos desorientados. Gostas de delírios pós roqueiros, baby?

Entre isso, coisas simplesmente maravilhosas (“Quorum”, “Lazy”, “Dou You Know How To Waltz”, o show inteiro caralho), executadas em um palco que escondia completamente os rostos e feições do trio norte-americano e nos deixava reféns do som e das luzes, um joguinho esperto pra cacete e condizente com a proposta do grupo. O casal Alan Sparhawk e Mimi Parker (a melhor herdeira de Moe Tucker, do Velvet Underground, de todos os tempos) criaram há décadas um universo absolutamente particular, tem a certeza que habitam no melhor lugar do mundo e nos convencem com perfeição de que deveríamos concordar com isso. Chega a ser perverso, e , hipnotizados, concordamos. No final de todo esse caos, uma descida mais suave com “Disrray”, o vocalista/guitarrista revela que sabe mesmo das coisas: “Não posso esperar para ver Erykah Badu. Boa noite e obrigado”.

Ele, assim como a multidão no palco principal, teve que esperar um pouco mais que o combinado, A última grande atração do Primavera Festival com seu atraso de quase uma hora, conseguiu um feito que eu pensava ser impossível: arrancar (poucas) vaias (muito tímidas) da plateia portuguesa. Dava pra entender: já na madrugada, Porto apresentava aos desavisados um de seus moradores mais indesejados: o vento frio, combinação de floresta e maresia. Haja tinto para dar conta. Era possível ver gente indo embora e outros pensando no assunto mas… não dá pra gostar de música e desperdiçar a chance de assisti-la. Porque, em um mundo mais equilibrado e preocupado com urgentes correções históricas, Erykah Badu seria tão universalmente celebrada quanto, sei lá, Bjork.

Badu é gênia. Ponto. Ela, junto com D’Angelo, são o fino do que o r&b contemporâneo pode apresentar. Não existem pares. Tem muita gente incrível nessa fila, de Frank Ocean à própria Solange, mas diva, diva meeeesmo, é Miss Badu. É daquele tipo de artista que, no decorrer da carreira, arrancou as tripas de um determinado gênero (a soul music) e foi apresentando diferentes e sofisticadíssimas formas de cozinha-lo. Afinal, logo no disco de estreia ela mostrou conhecer muito bem a receita e apresentou um clássico. A partir daí, se moldou menos à perfeição de Aretha e mais à virtuosidade de Nina Simone, por assim dizer; acrescentou doses generosíssimas de p-funk ao seu caldeirão (especialmente nos magistrais “New Amerikah”), onde, para além do balanço, incorpora aquela elaboração sonora a là Sly Stone ou Parliament que faz aquela coceirinha na cabeça enquanto os quadris não param de suar.

Minha grande questão era saber se tudo isso se traduzia em um bom show, saber as sutilezas de seu som iriam ser bem traduzidas naquele contexto. Não precisou de muito tempo: vestida com algo repleto de folhas e o que pareciam ser galhos que poderiam ter saídos dali do Parque mesmo, falando de mostrar frequências, vibrações para o “público jovem, nascidos quando nasceu o meu filho” Badu comandou um sermão soul/xamânico espetacular. Já de saída, com “Hello”, saudando a plateia e se desculpando pelo atraso, abriu alas para o labirinto sonoro de sua banda (como conseguem executar tudo aquilo meu Senhor?) e principalmente pela força de sua voz e de sua performance, absolutamente hipnotizante. Com isso, bastou nos fazer coro alguns de seus classudérrimos hits (“On and On”, “Other Side Of The Game”), nos emocionar com a declaração “Love Of My Life”, dançar com “Window Seat” e sintetizou boa parte de seus feitiços com uma épica “Out Of My Mind, Just In Time”.

Um fim impecável para um festival que é cara do Porto: não possui nem de longe o cartaz de outros eventos (como sua matriz) ou lugares (a própria Barcelona até), mas que se mostra, além de bonito à beça, confortável, na medida, quase perfeitinho. Além da organização impecável, da beleza natural, pelo menos quatro shows daqueles que vão ficar na cabeça por muito, muito tempo. Não precisa de muito mais, precisa?

Thiago Pereira  é jornalista, professor, pesquisador e divulgador voluntário da campanha “Eu Avisei”, em curso no Brasil até 2022. Cruzeiro acima de tudo: deboche acima de todos.

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