Olhar de Cinema 2019: O tempo e a luz

por Adolfo Gomes

Deveria ser a matéria-prima de todos os filmes: o tempo e a luz. O irremediável começo. Assim como a composição do quadro cinematográfico, a partida de qualquer (re)criação imagética. A esta altura, infelizmente, já não são tão óbvios tais pressupostos. E uma boa maneira de lembrar esses princípios é se deparar com o mais recente trabalho da lusitana Rita Azevedo Gomes: “A Portuguesa” (Portugal, 2018) baseado em obra do escritor austríaco Robert Musil. O filme é uma das atrações da mostra “Exibições Especiais”, no Festival “Olhar de Cinema 2019”, realizado em Curitiba.

Exigente na construção do seu ritmo, Rita Avezedo encena, aqui, uma espécie de ritual de espera, percorrendo com rigor o itinerário de solidão, discreto prazer e resiliência que enseja. Uma jovem, provavelmente no século XVI, é entrincheirada num austero palácio enquanto aguarda o desenrolar das guerras forjadas, em grande parte, pelo espírito beligerante do seu esposo, um nobre algo decadente e rude.

A intermitente convivência do casal é um contraponto quase farsesco (nos faz recordar os desencontros pantomímicos de Keaton a Tati) ao ascetismo do ambiente e das situações. O operar do tempo, neste sentido, parece se descolar do tédio e da angústia, para se inscrever no próprio seio da narrativa, criando elos sensoriais entre as parcimoniosas sequências, como se cada ação enquadrada pela câmera, ancorada no seu décor inventivamente atemporal, tivesse uma autonomia espacial, ou seja, poderia estar em curso em diversos lugares simultâneos – e também em outras épocas.

Então, “A Portuguesa”, à parte a força evocativa e atualizadora da adaptação de Agustina Bessa-Luís, é um filme que se manifesta para além dos diálogos e do “enredo”. Sua grandeza reside, sobretudo, no artesanato vigoroso da composição dos planos, no regrado movimento dos atores, na imobilidade das convicções de seus personagens traduzida em imagens luminosas, justas. Tudo isso lhe confere um encanto peculiar, o da vida em si preservada, (re)imaginada e constante, como se da guerra não tivéssemos mais necessidade para nos sentirmos em paz.

Cinefilia
Já em “Não Pense Que Eu Vou Gritar” (Ne Croyez Surtout Pas Que Je Hurle, França, 2019) a demanda pelo cinema é ainda mais visceral: (sobre)viver através dos filmes. Selecionado para o segmento “Novos Olhares”, o longa-metragem de Frank Beauvais nos oferece uma torrente de imagens pré-existentes conjurada por uma vertiginosa narração em primeira pessoa.

O cineasta, isolado numa pequena cidade do interior da França, se entrega à cinefilia para enfrentar o abandono, depois do fim de um relacionamento afetivo. Não é uma declaração de amor à arte ou ao cinema, em particular. Estamos aqui – não idealizem – no domínio do desespero e da dor. Trata-se de uma imersão sem condescendência – e muito lúcida.

A voz, em oposição à experiência do filme de Rita Azevedo, se sobrepõe ao que vemos – flashes, mais do que trechos, de centenas de filmes não ilustram, nem reforçam o que é dito. Estão aí na condição de testemunho de um estado de espírito, vestígios de um percurso íntimo que precisa de alguma instância visível para vir à tona.

– Adolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

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