Boteco: A bela linha Ibyrá da Zalaz

 por Marcelo Costa

Abrindo uma sequência de Ybyrás, série limitada e experimental da mineira Zalaz Brasil, com a Zapp 2017, uma cerveja que tinha como base uma Wheat Wine que foi maturada por quatro meses (lá em 2017) em barricas de carvalho americano antes usadas para maturar cachaça. De coloração âmbar clara levemente translucida e creme bege de boa formação e média alta retenção, a Zalaz Ybyrá Zapp 2017, cujo aroma, sensacional, traz madeira, coco, caramelo e alcaçuz além de percepção funky de levedura Bretta. Na boca, madeira e doçura juntas no primeiro toque se abrindo, na sequencia, para sugestões de coco, caramelo, alcaçuz e leve funky. Não há sensação de amargor, a acidez é baixa e a percepção de álcool (8.5%), também. A textura começa funky e picante, mas vai ficando sedosa e doce. Dai em diante, a sensação de aridez do conjunto aumenta, mas o conjunto, maravilhoso, apenas cresce. No final, caramelo, coco e madeira. No retrogosto, mais madeira, mais caramelo e mais coco. Delicia!

A segunda Zalaz Ybyrá é a Una e foi lançada em dezembro de 2017. Trata-se de uma Imperial Porter que recebeu café orgânico (umas das especialidades) da Fazenda Santa Terezinha – onde está sediada a cervejaria em Paraisópolis, Minas Gerais – e foi maturada por 350 dias em barris de carvalho americano que armazenaram uísque e depois cachaça, antes de receber a cerveja. O resultado é uma cerveja de coloração marrom escura com creme bege de ótima formação e média alta retenção. No nariz, acético e azedume suaves em destaque sobre uma base que junta melaço, madeira, torra e leve sugestão de cachaça além de chocolate discreto e suave sugestão de guaraná. Na boca, acético suave no primeiro toque, que enche o peito e despeja potência na sequencia, sem, ainda assim, soar agressivo. Há, ainda, percepção de azedume, de torra suave, de chocolate, de frutas escuras e discretíssimo (10% de) álcool. A textura é picante (de álcool) e acética. Dai pra frente, uma cerveja maravilhosa e complexa, que só melhora conforme aquece. No final, chocolate, acético e leve álcool. No retrogosto, torra, chocolate, azedume persistente e calor alcoólico.

A Ybyrá seguinte é a Aracê, uma Farmhouse Ale que foi fermentada inicialmente com leveduras belgas e, depois, refermentada com leveduras selvagens da Serra da Mantiqueira durante maturação em barricas de carvalho americano que, antes, armazenaram uísque e depois cachaça. De coloração âmbar clara levemente turva com creme bege claro de baixa formação e rápida dispersão – ainda que um anel se forme na beirada da taça. No nariz, percepção de madeira, de cítrico suave remetendo a laranja e a limão, uva, funky comportado, especiarias e álcool, tudo muito bem inserido. Na boca, uva e limão no primeiro toque seguido de leve amadeirado, álcool discreto (7%), funky suave e nada de amargor e baixa acidez. A textura é menos funky do que se espera, com certa suavidade. Dai pra frente surge um conjunto que reforça a presença da madeira, diminui a intensidade das frutas, ainda presentes, e finaliza com uva, limão e adstringência, suave. No retrogosto, as mesmas frutas, a mesma adstringência e uma leve refrescancia.

A quarta Ybyrá é a Iandé, uma Sour Ale lançada em julho de 2018 resultado do blend de cervejas que estavam em barril de carvalho americano desde agosto de 2016 com cervejas mais jovens, também envelhecidas em barris, mais adição de café, nibs de cacau e refermentadas na garrafa por mais de cinco meses. O resultado é uma cerveja de coloração marrom bastante escura com creme bege de boa formação e retenção. No nariz, café destacado em primeiro plano, percepção de azedume bem suave, um leve toque de cacau e algo bem sutil de balsâmico. Na boca, café delicioso no primeiro toque seguido num primeiro momento por notas que remetem a cacau e, de repente, uma pancada (suave) de azedume, que traz consigo o sutil balsâmico percebido no aroma. Ainda assim, a acidez e o azedume perpetrado pelas leveduras selvagens é tímido, comportadinho, para os padrões de uma Real Sour – o que pode ser um ponto positivo. A textura começa leve, mas vai se tornando arisca, picante. Dai pra frente, bastante café, leve cacau e azedume comportado fazem da Iandé uma Sour de alto drinkabilty, uma delícia que finaliza com azedume e leve adstringência, que se estende ao retrogosto, que ainda recebe a presença do cacau, discreta. Bem boa!

A quinta e última Ybyrá dessa série (novos lançamentos já estão no mercado) é uma Wood Aged Beer resultado da blendagem de três bases de cervejas distintas que maturaram por mais de um ano em barricas de carvalho americano, sendo que uma delas havia recebido adição de laranja orgânica da Fazenda Santa Terezinha. De coloração âmbar amarelada levemente turva com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Zalaz Ybyrá Avaré exibe um aroma que combina tanto notas amadeiradas evidentes quanto cítricas envolventes além de doçura leve de caramelo, sugestão de cereais, discreta condimentação e percepção do funky da levedura. Na boca, madeira e casca de laranja incríveis no primeiro toque abrindo para um conjunto que remete a uma Saison, mas não tão rustica, e sim elegante, com laranja e madeira e caramelo juntos. Não há percepção de amargor, mas um azedume bem levezinho. A textura é levemente arisca, com picância baixa. Dai pra frente surge um conjunto com muita presença de barril e de laranja, abrindo espaço, a posteriori, para outros elementos, como o malte. No final, casca de laranja e madeira, sugestão que retorna ao retrogosto envolvida em caramelo e cereais.

Balanço
Começando esse passeio pelas experimentais maturadas em barricas da Zalaz com a deliciosa Zalaz Ybyrá Zapp 2017, uma cerveja que combina de forma maravilhosa funky, caramelo, coco, madeira e álcool. Palmas. A Zalaz Ybyrá Una 2017 parece não ter o mesmo potencial de drinkability da Zapp 2017, mas também soa bem mais complexa, provocativa e sedutora, com seus 10% de álcool aquecendo o freguês, que se delicia com um conjunto que combina melaço, torra, chocolate, acético, azedume e álcool. Brilhante! A Zalaz Ybyrá Aracê 2018 desce alguns degraus de complexidade em relação as duas anteriores, mas, ainda assim, continua sendo uma bela cerveja. A Zalaz Ybyrá Iandé 2018 é a mais comportada das quatro, e com maior drinkability, sem, no entanto, abdicar da rusticidade e da provocação. Curti. Fechando com a Zalaz Ybyrá Avaré 2019, uma elegante sensação de Farmhouse Ale aprofundada, deliciosa e amadeirada.

Zalaz Ybyrá Zapp 2017
– Produto: Wheat Wine Barrel Aged
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 4.03/5

Zalaz Ybyrá Una 2017
– Produto: Imperial Porter Barrel Aged
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 4.07/5

Zalaz Ybyrá Aracê 2018
– Produto: Farmhouse Ale Barrel Aged
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.97/5

Zalaz Ybyrá Iandé 2018
– Produto: Sour Ale Barrel Aged
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.9%
– Nota: 4.05/5

Zalaz Ybyrá Avaré 2019
– Produto: Wood Aged Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.9%
– Nota: 3.98/5

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