Selo Scream & Yell: Baixe “Sem Palavras II”

por Leonardo Vinhas

A linguagem instrumental é a que mais me empolga na música. Ponto. Amo o formato canção, mas parece haver algo que muitos músicos, especialmente os brasileiros, conseguem comunicar apenas quando escolhem deixar as palavras de lado.

Quase tudo que eu queria escrever sobre a “música instrumental” – um rótulo para lá de vazio – escrevi pela ocasião do lançamento do primeiro “Sem Palavras”, e é bom relembrar:

(…) “música instrumental” virou um rótulo infeliz. A ausência de voz não torna uma composição do The Surfaris semelhante a uma do Tortoise. Por mais que tenha feito faixas sem vocais, o Kraftwerk não cabe no mesmo escaninho do Mulatu Astatke. Parece óbvio dizê-lo, mas não é. Quantas vezes você não ouviu um conhecido dizer que gosta de “música instrumental” e na verdade queria dizer alguma música para boi dormir, uma sequência de notas passível de ser ignorada durante a audição?

Música é música. E sem letra, compositores e instrumentistas ficam mais livres para dizer o que querem sem sublinhar as sensações com texto. Ninguém aqui quer desprezar os grandes poetas que colaboraram para fazer da música popular uma arte inesquecível, mas é bom lembrar que há muito a ser dito no silêncio entre as notas, nas mudanças de tom, nas construções de paisagens sonoras que palavra alguma seria capaz de exprimir”. (…)

Sem Palavras I” foi lançado em 2017 e a percepção equivocada sobre a composição sem letra continua, e não é tão cedo que vai desaparecer. Mas preciso dizer que, entre todos os álbuns que produzi, o “Sem Palavras I” foi o que mais me satisfez e, ao mesmo tempo, o que mais me deu a sensação de ser um trabalho em progresso.

Porque o cenário de bons artistas que sabem navegar por diferentes linguagens musicais sem precisar cantar é imenso, e cresce em uma velocidade que eu não consigo acompanhar. E senti que haveria um segundo volume, já que o primeiro terminou com uma coceira na alma avisando que não daria para parar em um só.

Não deu. E eis aqui o segundo volume, com alguns nomes que eu já queria ter incluído no primeiro volume, e outros que vim a conhecer só depois de tê-lo lançado. Convidei gente do Brasil e do exterior, e nem assim deu conta de chegar perto de incluir todos que eu queria.

Esse segundo volume teve uma produção conturbada, com atrasos, imprevistos e desistências que não haviam ocorrido no seu antecessor. Por isso ele atrasou quase quatro meses em relação ao seu prazo originalmente previsto para lançamento, e por conta disso nenhum artista do Nordeste brasileiro entrou – Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul estão contemplados, além da Grécia e do Equador.

Algumas das faixas teriam sua estreia aqui, mas por conta dos atrasos, acabaram sendo lançadas antes nos álbuns ou EPs da discografia oficial dos artistas. É o caso das versões de Dirty Fuse (os primeiros a serem convidados) e Macaco Bong. Já os brasilienses do Passo Largo se enquadram numa situação parecida com a dos Skrotes no volume 1: a banda cedeu faixas de um disco que, nas palavras deles próprios, “muito pouca gente ouviu”. Assim, “Respeita Januário” e a faixa bônus “Quase sem Querer” foram tiradas do álbum Diversões (2018) e remasterizadas para essa coletânea.

O critério para a escolha das faixas a serem versionadas foi simples: bastava que o original fosse brasileiro. Isso permitiu que Caetano Veloso e Luiz Gonzaga aparecem duas vezes, e também que as fontes de inspiração passassem tanto por nomes consagrados como por menos conhecidos, como o duo catarinense Muñoz, que teve sua “Run” recriada aqui. De resto, cada um tinha liberdade para fazer o que quisesse, desde que não se incorresse no pantanoso e desnecessário terreno do cover – um objetivo cumprido por todos, diga-se.

Mais já não digo, porque é texto demais para um álbum que se pretende explicar pela música. Dá o play e boa viagem!

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“Sem Palavras II”
– Curadoria e produção executiva: Leonardo Vinhas
– Masterização: Gustavo Halfeld
– Capa: Bruno Honda Leite
Agradecimentos: a todos os músicos participantes, Marcelo Costa, Tratore, Loop Discos, Neri Rosa, Duda Victor, Marcelo Domingues, Marcelo Damaso, Tatiana Pugliesi e Nathalia Birkholz.

Faixa a Faixa – Sem Palavras II
por Leonardo Vinhas

01) ‘Cannabis na Sopa’ – Macaco Bong. A versão de ¨Mosca na Sopa¨ acabou sendo o canto do cisne do Macaco Bong, que encerrou suas atividades em 2019. O título foi mudado, como era tradição nas versões da banda, que já lançara um disco de releituras do “Nevermind”, do Nirvana, chamado “Deixa Quieto“. E tal como neste disco, a banda de Bruno Kayapy mostra o quanto conseguia conciliar humor e vigor em seu som.

02) ‘Respeita Januário’ – Passo Largo. O trio brasiliense também gosta de brincar com versões, e essa faixa do mestre Luiz Gonzaga perde a cara regional, mas não o gingado e o alto astral na releitura enguitarrada, que também faz parte do álbum “Diversões‘ (2018).

03) ‘Expresso 2222’ – Muralha Trio. Gilberto Gil anda fazendo tão pouca coisa autoral que periga nos esquecermos do grande compositor que ele pode ser. Os gaúchos do Muralha Trio não esquecem, porém, e levam a afrobaianidade desse clássico para um passeio nas praias do funk e do fusion.

04) ‘Tropicalia’ – Rodrigo Nassif Trio. Talvez uma das bandas mais ousadas musicalmente da atualidade, o Rodrigo Nassif Trio, de Porto Alegre, leva peso e psicodelia a um dos melhores temas da fase inicial de Caetano Veloso. A releitura é acústica, acidentada e enérgica, sem jamais perder de vista a melodia original.

05) ‘O Drama II’ – Herod. O quarteto paulistano Herod abriu para o The Cure na última visita da trupe de Robert Smith ao país, e na opinião deste que vos escreve, roubou o show dos headliners. Isso ajuda a entender como conseguiram pegar um obscuro instrumental do Biquini Cavadão e transformá-lo em um impressionante épico post rock.

06) ‘Deixe a Terra em Paz’ – The Dirty Fuse. O quinteto grego já contou com um brasileiro (Duda Victor, do Terremotor) em sua formação, o que ajuda a entender como uma banda punk brasileira chegou à Grécia. Esteja onde estiver, esperamos que o falecido Redson se sinta honrado com essa surpreendente versão surf, com guitarras mediterrâneas e o sax certeiro de Manolis Kisamitakis.

07) ‘Falador Passa Mal’ – The Rude Monkey Bones. Como o Dirty Fuse, os equatorianos também fizeram uma longa turnê brasileira, e foi durante a passagem pelo país que o convite foi feito. A banda pesquisou bastante o cancioneiro popular nacional, e pirou em “Falador Passa Mal”, composição de Jorge Ben gravada pelos Originais do Samba, e passou a malandragem carioca para o ska do Pacífico.

08) ‘You Don’t Know Me’ – Esdras Nogueira e Grupo. O saxofonista brasiliense fez ‘Transe‘, um tributo ao álbum “Transa”, do Caetano Veloso. A versão de “ You Don’t Know Me” aqui presente foi concebida como parte desse projeto, mas é uma versão exclusiva, gravada ao vivo em Barcelona, num registro que deixa mais “afrorruidosa” a recriação desse clássico originalmente acústico.

09) “Muito à Vontade” – Edu Meirelles. O baixista gaúcho, também integrante do Muralha Trio e ex-Pata de Elefante, fez um dos melhores discos instrumentais dos últimos anos, “Escambo” (2017). Então não causa espanto ele ter escolhido um original de João Donato, um dos músicos mais completos desse país, para reler à sua moda. Reverente e autoral, Edu entrega uma versão breve, bonita e malemolente.

10) ‘Wave’ – Rude Dog Ska Ensemble. O sexteto de Taubaté ainda está preparando seu primeiro álbum, a ser lançado ainda este ano, mas suas apresentações ao vivo já permitem apontá-los como uma das mais inventivas agremiações a usar as ferramentas do ska e do dub no Brasil. Duvida? Então ouça o que eles fizeram com esse clássico de Tom Jobim.

11) ‘Run’ – Aminoácido. O quarteto de Londrina é uma das poucas bandas que realmente merece ser chamada de “inclassificável”. E como “doideira” e “fritação” não querem dizer nada, é melhor apenas falar que eles pegaram uma obscura canção de uma ainda mais obscura dupla catarinense e fizeram um “quase” funk rock que fica entre Fishbone, o ruido e o “jazz hardcore” (?!).

12) ‘Vera Cruz’ – Lucas Estrela. O jovem guitarrista paraense leva a música do seu Estado a terrenos aos quais ela nunca esteve antes, e o fato de ele ter escolhido um delicado tema de Milton Nascimento para ganhar uma versão meio tecnobrega, meio psicodelia amazônica, é outra prova disso.

13) ‘Asa Branca’ – Andrea Perrone. O trabalho solo da gaúcha Andrea Perrone reúne o erudito, o flamenco, o blues e o folk. Mesmo que ainda uma obra em formação, já desponta como algo sem par no cenário nacional. Recriar “Asa Branca”, uma das melhores canções já compostas no Brasil, era um sonho antigo da musicista, que finalmente o levou a cabo para esse disco.

Bonus
14) ‘Quase sem Querer’ – Passo Largo. Bônus exclusivo do download, traz o trio de Brasília homenageando os conterrâneos da Legião Urbana com um suingue que a banda de Renato Russo nunca teve (não, nem em “A Dança”).

“Sem Palavras II” é o 18º lançamento do  Selo Scream & Yell. Os anteriores foram o álbum “Conexão Latina“, o single “A Comida”, d’Os Cleggs; “Um Grito Que Se Espalha – Tributo a Walter Franco”, “As Lembranças São Escolhas”, que comemora 30 anos de música e jornalismo de Dary Jr (Lorena Foi Embora, Terminal Guadalupe, Rosablanca e Dario Julio & Os Franciscanos), “Dois Lados”, um tributo ao Skank, e, ainda, “Sem Palavras”, apenas com bandas instrumentais, em abril de 2017 (baixe aqui). Conheça também “Faixa Seis” e “Brasil Tambien És Latino” (artistas latinos gravando canções brasileiras), “Ainda Há Coração” (em tributo a Alceu Valença), “Caleidoscópio” (em homenagem aos Paralamas do Sucesso), “Temperança” (Um Manifesto Contra o Ódio), “Ainda Somos os Mesmos” (em homenagem ao Belchior), “Espelho Retrovisor” (Engenheiros do Hawaii), “Mil Tom” (a Milton Nascimento), “Projeto Visto” (uma troca musical entre brasileiros e portugueses) e “Somos Todos Latinos” (com 16 artistas independentes brasileiros regravando temas pop e rock dos países de idioma espanhol).  O site já havia lançado anteriormente álbuns de Borealis, Antonio NovaesGiancarlo RufattoLeonardo MarquesMarcelo PerdidoNatália MatosTransmissorOs Lacraus e Walverdes.

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