Três perguntas: Daughters

Texto por Marcelo Costa
Colaborou Renan Guerra

Uma usina de caos e barulho formada em 2002 nos Estados Unidos, o Daughters debutou em 2003 com “Canada Songs”, um disquinho de art-core com 10 “singelas” faixas em menos de 12 minutos de duração destacando títulos poéticos como “I Slept with the Daughters and All I Got Was This Lousy Song Written About Me” e “I Don’t Give a Shit About Wood, I’m Not a Chemist”. O álbum chamou a atenção da mídia, que colocou o disco em diversas listas de melhores do ano.

O segundo disco, “Hell Songs” (2006), dura o dobro do tempo do primeiro (o que não era tão difícil), acrescenta influências de noise e industrial e, novamente, conquista a crítica e aumenta o séquito de fãs. Corta para 2009 e, no final do processo de produção do terceiro disco, “Daughters” (2010), o grupo implodiu devido a desentendimentos entre o vocalista Alexis SF Marshall e o guitarrista Nicholas Andrew Sadler, que acabaram fazendo com que o baixista Samuel Walker pedisse as contas. O grupo parou as atividades, mas nunca anunciou seu fim.

Em 2018, o álbum “You Won’t Get What You Want” pegou os fãs de surpresa não só por romper um hiato de 9 anos, mas por mudar a sonoridade do quarteto, deixando o lado grind no passado e focando no noise e no industrial. Pouco antes de tocar no Brasil, Alexis respondeu metade das perguntas que foram enviadas por e-mail pelo Scream & Yell. Ele se confundiu e passou batido pelas primeiras (que focavam na mudança de sonoridade do disco do ano passado e no caos da banda ao vivo) pulando, intencionalmente, apenas uma, ahñ, mais politizada.

Deu pra salvar as três questões abaixo e, ainda, uma que versa sobre sua relação pessoal com o Brasil: “Não esperava ter a chance de tocar no Brasil. Comecei a treinar jiu jitsu em 2008, então minhas conexões com a cultura brasileira sempre foram através das artes marciais”, comenta, e avisa: “Estou muito animado de tocar ai. É o oposto de se sentir sufocado e inconsciente”. No rápido papo abaixo, poesia, letras de música, capas de disco e rótulos musicais: “Cada pessoa tem que ouvir e tomar sua própria decisão sobre o que representa o nosso som”.

Alguns críticos musicais se divertem tentando descrever o som do Daughters. O que vocês acham quando alguém os define como grindcore, noise, pós-rock ou “Elvis Presley sendo torturado” e “Jerry Lee Lewis com drogas alucinógenas”?
Não prestamos atenção nisso. Pessoas e críticos gostam de rótulos porque lhes permite resumir e reduzir o que realmente está acontecendo. Nós já fomos descritos de muitas maneiras diferentes e acredito que isso deixa extremamente claro que não somos um produto que já nasceu com um rótulo. Não há uma única palavra que resuma o Daughters. Cada pessoa tem que ouvir e tomar sua própria decisão sobre o que representa o nosso som.

Principalmente após “Hell Songs”, a arte das capas ficou extremamente forte, artística. Como é para você simbolizar um grupo de canções na arte de capa de um disco?
Conseguimos trabalhar com algumas pessoas talentosas que entenderam a nossa estética e nos forneceram algo notável, cada um na sua vez. Nossos álbuns não possuem um tema geral. A arte é mais sobre “algo no ar” em oposição à venda de uma ideologia.

Alexis, você tem um trabalho como poeta, já tendo lançado o livro “A Sea Above the Pains of Our Youth“. Você acha que existe alguma possibilidade desse trabalho ser traduzido e lançado em português? Aliás, o que você acha de traduzir poesia para outros idiomas? Uma última: quando você compõe há uma distinção do tipo “isto será um poema” ou “isto será uma canção” ou as coisas se embaralham?
Não sou fã de poesia e literatura traduzidas. Com isso dito, eu nunca impediria que alguém traduzisse meu trabalho e o liberasse em outros países. Minhas próprias preferências sobre poesia traduzida não são importantes. Sobre poema e letras de música, eles são completamente diferentes. A poesia é um processo muito mais pessoal. A poesia é minha. É minha solidão e reflexo dos meus sentimentos, experiências e observações. O conteúdo lírico, por sua vez, é muito mais fruto de uma narrativa. A consideração dos membros do grupo é necessária no esforço de evitar fazer qualquer tipo de declaração com a qual os outros possam não concordar, social ou politicamente.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o site A Escotilha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.