Três filmes: O Retorno de Ben, Nós e Gloria Bell

Resenhas por Renan Guerra

“O Retorno de Ben”, de Peter Hedges (2018)
“O Retorno de Ben” tem cara de filme independente, pequeno, daqueles que dificilmente chegariam às telas nacionais, porém o nome de Julia Roberts foi fundamental para que o filme tivesse uma estreia modesta nas salas nacionais. Dito isso, “O Retorno de Ben” se transforma num filme de atores, em que a simplicidade e as minúcias do roteiro só crescem e se sustentam pela força de Julia Roberts e Lucas Hedges, um dos melhores atores da nova geração (vide “Manchester à Beira-Mar” e “Três Anúncios Para um Crime”). A história é simples: Ben é um viciado em drogas com um passado obscuro, que inclui tráfico e outros crimes; internado em uma clínica de reabilitação, o jovem ressurge na casa da família às vésperas do Natal. Para o medo do padrasto (Courtney B. Vance) e da irmã (Kathryn Newton), a mãe Holly (Julia Roberts) decide dar uma chance ao filho pródigo, porém a história obviamente assume contornos complexos, levando mãe e filho por um tour de force pela cidade em plena noite natalina. Barra pesada, o longa de Peter Hedges conversa com o recente “Querido Menino”, de Felix van Groeningen (2018), já que ambos optam por focar suas histórias no drama dos pais perante às drogas, dando um olhar desalentador sobre a dor e o desespero de familiares no meio do inferno sorrateiro em que os personagens se afundam. Numa das simbólicas cenas, Holly conversa com um antigo amigo de seu filho e quase clama pra ele, dizendo “eu era amiga de sua mãe, ligue pra ela e apenas diga que você está vivo”. Triste, “O Retorno de Ben” é um grande filme, onde Julia e Lucas brilham em meio ao desespero.

Nota: 8

“Gloria Bell”, de Sebastián Lelio (2018)
Sebastián Lelio já tem um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pelo belo “Uma Mulher Fantástica” (2017) e recentemente lançou “Desobediência” (2018), seu primeiro filme falado em inglês. Seu mais recente lançamento, “Gloria Bell”, entra naquela curiosa gôndola de filmes que são refilmados em inglês praticamente cena a cena, já que este novo longa é uma versão americana de seu filme “Gloria” (2013). A nova versão adapta-se culturalmente aos EUA e nessa transição se perdem muitas das camadas políticas (chilenas) do filme original, Por outro lado, Lelio agora apresenta a um novo público essa história extremamente delicada. Se Paulina García dominava a tela no filme de 2013, agora essa incumbência ficou nas mãos de Juliane Moore e como é lindo vê-la atuar! Moore é geralmente associada a personagens densas e problemáticas, por isso é tão instigante vê-la sorrindo constantemente, fazendo coisas comezinhas e nos apaixonando a cada cena. “Gloria Bell” acompanha a sua personagem título em diferentes atividades, dando foco especialmente a sua relação com Arnold (John Turturro, em excelente atuação) e com seus dois filhos (Michael Cera e Caren Pistorius). Em pouco mais de uma hora e meia, o espectador acompanha banalidades, encontros e desencontros, cenas absolutamente simples e que poderiam compor a vida de cada um de nós e, por isso, tudo é absurdamente belo, cativante, com uma energia que emana do filme e nos renova. Com ecos de John Cassavetes (o nome Gloria não é à toa), esse novo filme de Sebastián Lelio é uma plataforma para Juliane Moore brilhar, demonstrando vulnerabilidade, sinceridade e encantando o público.

Nota: 8,5

“Nós”, de Jordan Peele (2019)
Premiado com um Oscar de melhor roteiro por seu filme de estreia, “Corra!” (Get Out), o comediante, diretor, produtor e roteirista Jordan Peele assume novos riscos em seu segundo longa, “Nós” (“Us”, no original). Se no primeiro filme, o racismo era o estopim de uma história de terror psicológico, em “Nós” as questões são mais amplas e geram leituras distintas do público, que podem ir da xenofobia e da violência moderna a um medo complexo da vida em sociedade, tudo isso subentendido na história de uma família que decide passar o verão em sua casa de praia e passa a ser perseguida por versões más de si mesmos. O nonsense e a gratuidade da violência que esse encontro de dualidades gera lembra “Violência Gratuita” (1997), de Michael Haneke, filme que estava na lista que Peele deu ao elenco como base para as filmagens; a lista ainda incluía clássicos como “Os Pássaros” (1963) e “O Iluminado” (1980), bem como lançamentos modernos como “O Babadook” (2014) e “Mártires” (2008). Os excelentes Wiston Duke e Lupita Nyong’o formam os pais de família atormentados, ambos em atuações precisas; porém o longa ainda conta com uma participação também primorosa de Elizabeth Moss. Mesclando uma tensão constante com pitadas de um humor sagaz, Jordan Peele brinca com os espectadores, num jogo que se comunica com o estilo de grandes mestres do terror como Wes Craven e Sam Raimi. Inúmeras referências irão passar pela tela, de citações a outros filmes até camisetas de Michael Jackson e Black Flag, tudo pra criar uma ambiência de dualidade, de complexidade e um universo de paralelos, de coincidências que deixam o espectador aflito – quer maior representação dual do bem e do mal do que a figura ambígua de Michael Jackson? A trilha sonora é outro ponto alto do filme: de Minnie Riperton a NWA, incluindo um uso completamente genial dos Beach Boys. Tenso e divertido, “Nós” acaba por se exagerar nas explicações finais, o que dá certa amornada no clima final do filme, porém nada que diminua a experiência geral de uma grande obra cinematográfica.

Nota: 9

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o site A Escotilha.

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