Entrevista: Autoramas (2019)

Entrevista por Janaina Azevedo

São 21 anos de Autoramas! Em 2018, por ocasião do 20º aniversário da banda, o tributo “A 300 Km Hora”, produzido por Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) e Débora Cassolatto (Debbie Records), reuniu 41 nomes homenageando o repertório do grupo formado por Gabriel Thomaz no final dos anos 90, gente como China, Nevilton, Camarones Orquestra Guitarrística, Marcelo Callado e Fábio Cardelli, entre outros, cantando clássicos do cenário indie nacional como “Fale Mal de Mim”, “Catchy Chorus”, “Eu Era Pop”, “Carinha Triste” e “Abstrai”, entre muitos outras.

2018 também foi o ano de “Líbido”, o sétimo disco de inéditas da banda, que ganhou diversos elogios da imprensa e figurou em “todas as listas de melhores do ano”, segundo Gabriel Thomas – inclusive aqui no Scream & Yell. Além de Gabriel (voz e guitarra), o Autoramas conta hoje com Érika Martins (ex-Penélope) na guitarra, percussão, teclados e voz, Fábio Lima na bateria e Jairo Fajersztajn no baixo. O quarteto segue incansável na estrada e se prepara para embarcar para sua 16ª turnê europeia (a partir de maio)!

Antes, porém, o Autoramas tem um sério compromisso na capital paulista. Depois de acompanhar as edições do Lollapalooza como muitos de nós – do conforto do sofá, pelas transmissões da TV – Gabriel Thomaz finalmente estará em cima do palco de Interlagos, na primeira participação do Autoramas no festival. No bate papo abaixo, ele fala sobre “Libido”, elenca um grande número de bandas de surf music nacional, paga tributo ao mestre Dick Dale e adianta que o disco de seu projeto Gabriel Thomaz Trio já está pronto, e logo deve sair. Confira.

O Autoramas toca no Palco Onix do Lollapalooza, sexta-feira, 05/04, às 13h15

Vi tua postagem sobre o Dick Dale. Como foi quando tu descobriu que ele havia morrido?
Essa história do Dick Dale… fiquei bem triste esse fim de semana porque pra mim ele é uma referência total. Para mim, como guitarrista, como compositor, ele sempre foi uma grande referência, um som de guitarra melhor do mundo, uma originalidade. A gente estava entrando no show, em Ribeirão Preto, eu estava ali olhando o celular e começou a surgir um monte de posts de sites gringos de música e coisas que eu assino, e a gente a dez minutos de entrar no show, aquilo me foi um baque. Até acabou que tocamos “Misirlou”, improvisada, a gente nunca tinha tocado e foi um momento bem emocionante. Conheci o Dick Dale muito antes de estourar, era um artista dos anos 60, e eu gosto muito do som dos anos 60. Tenho um amigo, Serginho (Sérgio Barbo, de acordo com o post do Facebook), que é DJ. Ele sempre me aplicou nessas coisas que não eram muito conhecidas no Brasil, e eu ouvi aquilo loucamente, minha adolescência toda. Quando “Misirlou” estourou no (filme) “Pulp Fiction” foi uma loucura, era demais, tocava em tudo que era lugar, uma beleza. A música tocava e meus amigos apontavam pra mim, sabe? Era muito legal. Como se fosse a minha música. Tive a chance de conhece-lo. Inventei a maior mentira pros seguranças, pra entrar no camarim e foi demais. Estava a galera toda da MTV, que testemunhou tudo, um momento emocionante. Sempre acompanhei a carreira dele. Ele estava já bem idoso e continuava tocando nos festivais. Nas nossas turnês lá fora a gente sempre via os cartazes dele, às vezes alguns festivais que a gente tocava ele tinha tocado no ano anterior, no mês anterior, na semana anterior. Pra mim, sempre foi uma grande referência, um ídolo. Quem conhece o Autoramas sabe isso. Quando rolaram as notícias, a confirmação da morte dele, um monte de gente me mandou mensagem, pois as pessoas não sabiam se era verdade ou mentira. Eu estava em Ribeirão Preto, tinha todas as lembranças dele guardadas em casa. Quando cheguei em casa tirei a foto e fiz aquele post. Achei até um pouco superficial. Mas acho que valeu.

E como está a cena da surf music no Brasil?
O Brasil é uma das cenas de surf music mais legais que tem no mundo. Bandas muito boas, eu tenho visto vários shows de uma banda chamada Gasolines, por exemplo, que é uma banda que já tem mais de 20 anos, e eles são sensacionais. (Alexandre) Kanachiro, grande guitarrista. Tem outra banda que adoro, acho que tem muito a ver com o som do Autoramas, com os timbres que faço, uma banda nova chamada Sangue de Android, essa banda é animal. Tem a Ted Boy Marinos, que é uma banda do Clayton, baixista que era dos Ostras nos anos 90, são os caras que têm experiência no negócio e têm guitarrista que é excelente, que toca com uma Mosrite, uma guitarra super clássica da surf music. Tem muita coisa legal, tem muita coisa acontecendo, inclusive lá em Brasília, acho que a melhor banda de surf music do país hoje é lá de Brasília, Os Gatunos, cujo guitarrista é o Fabrício Paçoca, e é um absurdo, ele é bom pra caralho, um grande guitarrista, um puta talento, muito bom. São coisas que a gente tem no Brasil, ele faz um esquema latino, guitarrada do Pará, e é muito bom. Tem muita coisa boa, se deixar eu ficar aqui falando (fico horas)… Um belíssimo cartão de visita da cena de surf music nacional é uma coletânea tripla que saiu agora chamada “Brazilian Tsunami”. São 63 bandas, e o nível é altíssimo. Tão mandando a caixa de CDs pra fora, o povo da surf music lá de fora tá impressionado. Não são cinco bandas, são 63. É um absurdo. O Autoramas vai fazer o Lollapalooza, logo depois a gente vai pra uma turnê na Europa. Voltando da turnê, vou lançar o meu trio instrumental, surf, fuzz, guitarrada, que é o Gabriel Thomaz Trio. A gente tá com o disco pronto pra sair. Aliás, em Porto Alegre tem uma banda muito boa de surf, o Paquetá, belíssima banda, participaram inclusive do tributo ao Autoramas. Porto Alegre sempre teve muita coisa boa de rock n roll, de todos os gêneros. Eles são uma banda muito legal.

Como é esse teu projeto solo?
O nome é Gabriel Thomaz Trio. A gente já esta fazendo bastante show, e a gente quer fazer muitas turnês, sair tocando por aí, com certeza. É um projeto que eu sempre quis fazer, sempre gostei do rock instrumental, e agora acho que chegou a hora. A gente já tentou fazer shows do Autoramas 100% instrumentais, porque a gente tem músicas instrumentais em todos os discos, o suficiente pra fazer um show só de músicas nossas instrumentais, mas isso dava muita confusão na cabeça da galera, dos contratantes, do povo que vai ver um show do Autoramas, de a gente não estar cantando no show. Então a gente decidiu colocar outro nome, fazer outra coisa. A gente já tem uma música que é um hit nos shows, uma música que chama “Bababa”, que inclusive estará no disco. Tá muito bom o trabalho, posso explorar muito os meus efeitos. Lá fora, as críticas e resenhas falam muito dos meus efeitos de guitarra, ultraoriginais. E eu nem sabia que eles eram originais, só quando vi eles falando lá fora que entendi isso. Foi um barato isso, e exploro bastante essas coisas. Esse disco do Gabriel Thomaz Trio pode ser que saia até mesmo lá fora também.

E como tá a recepção do “Libido”?
Está muito boa. No início do ano saíram todas as listas de melhores de 2018, e o “Libido” estava em todas as listas. Teve uma votação que foram mais de 40 jornalistas e o “Libido” ficou em primeiro como melhor disco do ano! Pô, fiquei muito feliz. Acho que realmente é o melhor disco que a gente já fez em todos os quesitos: composição, gravação, arranjo, capa, tá o maior barato. Acho que a gente está cantando melhor, compondo melhor, está muito legal. Adoro as músicas do disco. Desde o lançamento a gente têm feito muitos shows, resultado dessa falação. É um disco em que nós comemoramos 20 anos de banda. Agora vamos fazer uma turnê na Europa, ver como vai ser lá a recepção. Porque o disco saiu no Brasil pela HBB e na Europa pela Soundflat, que é um selo sensacional que sempre lançou as bandas que eu escuto pra caramba. Não sei se você já foi a algum show do Autoramas (nota da reportagem: só um, há mais de 10 anos), as músicas do disco novo são um destaque total. A gente fez vários clipes: “Stressed Out”, “Ding Dong”, “Creepy Echo”, que um cara de Manaus fez e ficou um absurdo. O disco saiu no Japão, e esse clipe tem até legendas em japonês. O que é engraçado é que desde que o “Libido” ficou pronto já comecei a pensar num próximo disco, já tenho um monte de coisa nova pronta. Mas primeiro vamos lançar o disco do Gabriel Thomaz Trio (risos). A gente não para de compor, ensaiar. E tem sempre uma perspectiva de coisa nova vindo por aí. O mais difícil é lançar essas coisas. Organizar as ideias e elas virarem discos, músicas, show é muito fácil pra nós, a gente faz isso o tempo inteiro. A questão de lançar mesmo é que demora mais tempo, e exige outro tipo de esforço. Então, a gente acaba regulando nosso tempo por esse tipo de tarefa, sabe..

E o disco também saiu em versão cassete, né?
Acho muito legal o formato da fita cassete! É engraçado que nas nossas turnês lá fora, sempre que a gente tocava com banda americana, eles faziam ali a banca de discos e sempre tinha cassete. Sempre vinha um gringo perguntar “e aí, vocês têm cassete de vocês?”, e a gente “não”. E o cara ia e comprava da banda americana. Então existe um nicho pra isso, pequeno, mas que existe, existe. É um barato. Escrevi um livro, o “Magnéticos 90”, falando sobre a geração do rock brasileiro lançada em fita cassete. É um formato que eu sou totalmente familiarizado, difícil pra mim é mexer no computador. Cassete é mole. Eu adoro o formato, acho muito legal, muito bonitinho, muito fofinho, um formato colecionável que possibilita um conceito vintage da música, a coleção. Não sei se tem uma volta (do cassete). As coisas rolam, sempre tem um público, sempre tem uma galerinha. Todos os cassete que a gente lançou esgotaram, primeiro formato a esgotar rapidamente. A Erika (Martins) é muito fã da Bjork e a Bjork acabou de lançar a discografia dela em cassete. Não é só a gente que é doido, tem mais maluco pelo mundo.

O “Libido” é o disco que vocês que mais tem músicas em inglês. Lembra aquela vez que o Jack Endino criticou brasileiros que cantam em inglês? O que tu acha disso?
Até li o que o Jack Endino falou, e ele falou que tem muita banda que canta em inglês no Brasil que nunca fez um show em países que falam inglês. Ou que pegam um inglês totalmente incompreensível para quem fala inglês, só pra botar aquela sonoridade ali. Essa é a discussão. Ele não entendia porque o pessoal faz isso. Existem muitos motivos e acho que não vem nem ao caso eu falar disso. Mas no caso do Autoramas, a gente sempre teve música em inglês, que sempre foram minoria. Acho que as ideias vão pintando, e a gente vai fazendo. E fazendo muito show lá fora, você fala inglês o tempo inteiro, vai ouvindo as frases em inglês, é uma coisa natural. Ao mesmo tempo eu também sei que é difícil convencer as pessoas de que a gente fez uma coisa em inglês porque a gente gosta. Não pra conquistar um lugar lá fora, por algum motivo. Pra mim, é muito mais fácil compor em português, é a minha língua, as expressões que sei desde que nasci, mas você passa um mês lá fora só falando em inglês com as pessoas, as músicas vêm. As letras vêm, as rimas vêm, é uma coisa que rola. E eu vou te falar uma coisa. É muito engraçado porque hoje a gente se sente livre pra lançar um repertório parte em inglês. A gente vive uma época da música que não tem muitas regras, sabe. Por exemplo, eu posso lançar um disco instrumental! Na minha carreira, eu sempre quis fazer isso, e ninguém jamais me incentivou, a galera sempre quis me podar em relação a isso e agora a música, ou pelo menos o tipo de música que a gente faz, não tem mais essas pessoas dando pitaco, te fazendo brochar nas suas próprias ideias. É um momento muito legal. “Sofas, Armchairs and Chairs”, que a gente colocou pra abrir o disco, eu acho que talvez seja a melhor música do Autoramas! Outra: uma música que não pode faltar nos shows do Autoramas é em inglês, “Catchy Chorus”, que é do primeiro disco, que rola pra caramba. Lá fora essa música arrebenta. E é o maior barato. A gente vai fazendo, usando a nossa liberdade pra fazer essas coisas. Eu gosto muito de fazer letras que não tem significado nenhum, tipo “1,2,3,4”, tipo “Ding Dong”, do disco novo, essas coisas eu curto pra caramba. Tem vocal, mas não tem uma letra. Eu gosto muito dessas coisas. Também são coisas universais. A gente perdeu o pudor de ficar “não, em inglês não”. Acho que o resultado ficou do jeito que a gente queria, não veio nenhum gringo dizer que o nosso sotaque é esquisito ou que não entendeu a letra.

– Janaina Azevedo (www.facebook.com/janaisapunk) é jornalista e colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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