Entrevista: Ultramen (2019)

entrevista por Homero Pivotto Jr.

Aquela dívida de apresentar um novo disco que a Ultramen tinha com os fãs foi quitada em 2018, no lançamento de “Tente Enxergar”. Desde 2006, quando saiu “Capa Preta”, que o conjunto gaúcho não disponibilizava um álbum de inéditas. Mas te ligo, bico: o quinto trabalho na discografia dos caras mostra que eles não perderam a mão e nem a capacidade de misturar rock, rap, samba, soul e MPB com maestria.

Revisitar a obra da Ultramen é como passear em uma máquina tempo. Logo, nada mais adequado do que os próprios músicos falarem sobre como tem sido a viagem desde 1991, ano em que a banda foi criada. Por isso, nesta entrevista, alguns integrantes da formação atual — que tem Tonho Crocco (voz), Pedro Porto (baixo), Malásia (percussão), Leonardo Boff (teclado), DJ Anderson (scratches) e Zé Darcy (bateria) — respondem uma bateria de questões.

Entre os temas abordados, estão: como agregar, de canto e sossegado, influências sonoras distintas, a peleia que é montar um repertório e o que mantêm os ultramanos pilhados para seguirem nessa estrada perdida da música. Além, uma lista dedicada de referências que ajudaram a formam cada um dos álbuns da Ultramen, um balaio classudo em que cabem de Beastie Boys e Funkadelic e Parliament a Beatles, Mutantes e Bob Marley! Confira o papo!

A Ultramen é uma das bandas que despontaram por volta do fim dos anos 1990 no cenário gaúcho. Desde então, outros artistas dessa leva diminuíram o ritmo — alguns até pararam —, mas vocês seguem na ativa. O que os mantêm tocando juntos, seja no estúdio ou no palco?
Pedro Porto — O prazer de tocar juntos e o respeito pela nossa própria história. Olhar para os discos que gravamos no passado nos dá vontade de manter a máquina em movimento, de produzir cada vez mais.

Por falar em rock gaúcho… Vocês têm elementos do rock (formação instrumental e peso no som, por exemplo), mas a musicalidade da Ultramen vai além. Tem referência do rap, do reggae, de música brasileira, do dub e até do pop. Consideram-se uma banda de rock? Por quê?
Pedro Porto — Falar de rótulos é complicado no caso da Ultramen, justamente porque a proposta da banda sempre foi misturar estilos diversos com o objetivo de apresentar um resultado final original. E o rock como rótulo também pode ser confuso, porque engloba Dead Kennedys, Erasmo Carlos e The Police. A gente não vê a Ultramen como uma banda de rock hoje em dia, mas, com certeza, o rock aparece como uma das referências mais fortes, junto com o reggae, o rap e a soul music.

Como se deu a formação dessa identidade musical bem eclética? Ainda mais em uma época na qual misturar estilos nem sempre era algo visto com bons olhos?
Pedro Porto — A ideia original era misturar rap com rock pesado, o que não era incomum no início dos anos 90. Com o tempo, fomos experimentando com outros estilos, como reggae, samba rock, funk e tradicionalismo gaúcho.

E como vocês enxergam que essa gama de referência se distribui na discografia da banda? Tipo: os dois primeiros são mais agressivos, com guitarras nervosas. Os dois seguintes já soam mais acessíveis, dando espaço para sonoridades menos pesadas. E por aí vai. Como vocês avaliam isso?
Luciano Malásia — Na verdade, não existe uma fórmula, mas, no início, a gente tentava agregar som pesado (metal, hardcore) com funk old school e hip hop. Com o passar do tempo, foram entrando reggae e música brasileira, principalmente por conta de alguns integrantes terem esses estilos nas bandas covers ou trabalhos paralelos da época. Eu diria que, no primeiro disco, a gente estava tentando equilibrar as influencias de sete anos de atividade. A partir do álbum “Olelê” (2000) já conseguimos essa harmonia. A sequência da discografia é uma mistura dessa nossa tendência musical curiosa e alquimista com o que estávamos ouvindo no momento, sejam novidades ou coisas antigas que sempre curtimos.

Teria como citar artistas e/ou discos que influenciaram cada álbum da Ultramen?
Tonho Crocco — No primeiro disco, “Ultramen” (1998), podemos citar Red Hot Chilli Peppers, Faith no More, Public Enemy e Sepultura. Já no segundo, “Olelê”, Beastie Boys, Tim Maia, Dr. Dre, Bob Marley, Lee Perry e César Passarinho. No terceiro, “O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias” (2002): Mutantes, Luis Vagner e Jorge Ben. No quarto disco, “Capa Preta” (2006), pode ser Funkadelic, Parliament e Beatles. Já no quinto, “Tente Enxergar” (2018), diria que Zapp, Gustavo Black Alien e Augustus Pablo.

O trabalho mais recente, “Tente Enxergar”, comprova que vocês são uma banda sem medo de experimentar. Tem de composições alto-astral ao hardcore. A ideia era um criar um trampo com essa diversidade musical mesmo?
Pedro Porto — Essa diversidade já aparecia em outros discos da Ultramen, como em “O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias”, por exemplo. Na verdade, não é planejado. Durante o processo de composição, as ideias vão sendo trazidas e nós vamos arranjando as músicas da forma que nos pareça soar melhor. O que acontece é que, por ter uma gama enorme de gostos musicais entre os músicos da banda, dificilmente alguém vai dizer “não dá para fazer assim, porque vai ficar muito diferente das outras”. Uma das coisas legais de tocar na Ultramen é esse grau de liberdade

Não se tem comprovação da existência de papai Noel, Gnomo, ET e tampouco show fraco da Ultramen. De onde vem essa pilha para sempre apresentar o melhor possível ao vivo?
Zé Darcy — Da Galáxia M-78 e da cápsula beta.

Como vocês escolhem o repertório? Que tipo de som costuma funcionar mais ao vivo?
Malásia — Escolher um repertório que caiba em 1h30min de show com uma discografia que tem cinco discos é meio complicado. Temos uma espinha dorsal que parte dos hits que a gente não pode deixar de tocar, como ‘Bico de Luz’, ‘Dívida’, ‘Santo Forte’ e ‘Tubarãozinho’ — para dar exemplo de músicas dos nossos quatro primeiros álbuns. Sempre acaba ficando algo de fora e, agora, com disco novo ainda, temos que colocar as músicas novas, como ‘Robot Baby’ e ‘Tive Tudo’. Geralmente, a gente bate cabeça para montar isso no camarim, pensando no tempo do show, e deixa umas três confirmadas para o bis. Quando é show coletivo e o tempo é menor, a gente corta as que sabe que ficam muito longas ou são menos empolgantes ao vivo. Às vezes, essa função de setlist é meio extenuante, porque é preciso ter um impacto no início e não dá para deixar a peteca cair durante o show. Mas a gente sempre consegue montar algo que nos agrada e também ao público. No fim das contas, é isso que importa.

Qual música da Ultramen vocês acreditam que é uma boa trilha para se tatuar? Por quê?
Tonho Crocco — Não sei se falo pela banda, mas gosto de músicas mais calmas para tatuar. Alivia a tensão, a dor e o estresse da adrenalina que é ser riscado. Eu sugiro ‘Estrada Perdida Dub’.

Para o show do Inked Art Tattoo Fest, alguma novidade ou surpresa deve rolar?
Tonho — A turnê do novo disco, “Tente Enxergar”, começa oficialmente no show do dia 14 de abril, na Inked Art. Então, é um show novo e diferente, com as músicas novas e as antigas mais pedidas pelo público.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal. Entrevista cedida pela Abstratti Produtora. A foto que abre o texto é de Ville Juurikkala / Divulgação

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