Boteco: 11 cervejas nacionais

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova série de cervejas por Belo Horizonte, Minas Gerais, casa da Wäls, que retorna ao site com a Wäls Lager, receita produzida com quatro lúpulos distintos (a cervejaria não divulga quais) e está sendo vendida em lata de 473 ml. De coloração dourada com creme branco de média formação e retenção, a Wäls Lager apresenta um aroma com cereais em destaque acompanhado de uma suave sugestão cítrica, que não se abre com intensidade (a ponto de remeter a uma fruta), mas dá um colorido especial ao conjunto. Na base, malte e herbal. Na boca, maltadinho no primeiro toque seguido de leve herbal com o cítrico ficando em segundo plano, mas aparecendo levemente. O amargor é quase nada, com a doçura caramelada dando mais às caras. A textura é leve, suave. Dai pra frente, uma Premium American Lager bastante honesta, com doçura de malte intensa, que domina a receita quando a cerveja aquece, leve cítrico e leve herbal. No final, refrescancia. No retrogosto, cereais e doçura.

Colab entre as paulistas Avós (São Paulo) e Gård (Campos do Jordão), que compartilham o mestre cervejeiro Fabio Kok Geribello, a Tmavé da Mantiqueira é uma Dark Lager de coloração marrom escura translucida com creme bege de boa formação e retenção. No nariz, notas maltadas caprichadas com toque de tosta e torra que remete tanto a café quanto a chocolate e caramelo trazendo ainda consigo uma suave remissão a frutas escuras. Na boca, doçura de malte tostado no primeiro toque com leve presença de fumaça mais chocolate e frutas escuras discretas na sequecia. O amargor é baixo e a textura, suave. Dai pra frente, um conjunto simples e funcional que honra o estilo alemão e está bem a frente das Dark Lagers populares que inundam as prateleiras do mercado brasileiro. No final, leve tosta e caramelo. No retrogosto, mais caramelo, discreto amargor e café.

De São Paulo para o Rio de Janeiro com a terceira Ampolis a passar por aqui – após as boas surpresas com a Forévis e a Ditriguis. Desta vez quem chega é a Cacildis, uma Amber Lager cuja coloração está muito mais para o dourado cristalino do que para o âmbar. O creme branco exibe média formação e baixa retenção. No nariz, malte e cereais bem suaves se destacam trazendo consigo remissão a pão e biscoito além de um leve toque floral. Na boca, doçura maltada leve no primeiro toque seguida de cereais, caramelo, leve floral e mais doçura. O amargor é baixinho e a textura, leve. Dai pra frente segue-se um conjunto que decepciona quem esperava o nível das outras duas, mantendo foco tanto no caramelo quanto na refrescancia do estilo, sem muita presença de lúpulo. O final é seco e refrescante. No retrogosto, caramelo, doçura e refrescancia.

Mantendo-se no Rio com a primeira da Rockbird a passar por aqui, cigana que produziu essa receita (limitada para o clube Beer) na fábrica da Cervejaria Lagos, em Saquarema. Trata-se de uma Gose que recebe adição de melancia, hortelã, gengibre e flor de sal, e atende pelo nome de Atomic Watermelon. De coloração amarelo palha e creme branco de baixa formação e retenção (típicos do estilo), a Rockbird Atomic Watermelon apresenta um aroma com bastante frutado remetendo a melancia, leve hortelã e percepção de sal e mineral. Na boca, limão e acidez juntos no primeiro toque abrindo-se na sequencia para melancia e leve salgadinho. Não há amargor (8 IBUs é menor que o de uma Skol), mas sim muita refrescancia. Já a textura pinica a língua com frisância. Dai pra frente, uma cerveja saborosa, perfeita para dias quentes, com melancia, limão e salgadinho combinando muito. No final, salgado e mineral. No retrogosto, melancia, hortelã e refrescancia.

Do Rio de Janeiro para Campo Bom, no Rio Grande do Sul, casa da Cervejaria Imigração, que além de ser responsável pela linha Roleta Russa também investe no território das fruit beers com a linha Barbarella, com duas receitas, Framboesa e esta Morango, uma cerveja de coloração avermelhada com creme branco de traços vermelhos de boa formação e rápida dispersão. No nariz, intensa percepção de morango em diversas variáveis artificiais: geleia de morango, refresco Kisuco de morango e bala de morango. Na boca, doçura (artificial) de morango no primeiro toque seguida de mais morango sobre uma base discreta, ainda que perceptível, de malte. São 13 IBUs, mas não há nada de amargor (e não daria para esperar de um suco de morango) e a textura é leve. Dai pra frente segue-se o conjunto de suco de morango alcoólico (4.9%) refrescante perfeito para dias quentes. No final, doçura de morango. No retrogosto, frutas vermelhas, doçura e refrescância.

Do Rio Grande do Sul para Santa Catarina com uma receita produzida pela Heilige especialmente para o clube Beer: trata-se da Dormi no Sol, uma Altbier de coloração âmbar cor de mel com creme levemente bege e alaranjado de boa formação e média permanência. No nariz, doçura maltada no primeiro toque sugerindo caramelo e, ainda, leve tosta que aproxima a paleta aromática também com algo de toffee e de açúcar queimado. Na boca, doçura maltada caramelada no primeiro toque seguida de tosta e toffee e até um discreto defumadinho. O amargor é baixinho apesar dos 38 IBUs adiantados pela casa, que soam mais comportados. A textura é suave e, dai pra frente, as principais características do estilo batem ponto com caramelo, tosta e toffee em destaque. No final, doçura e tosta. No retrogosto, malte, caramelo, tosta e toffee.

De Santa Catarina para Uberaba, nas Minas Gerais, casa da Cervejaria Tug, que depois de passar por aqui com sua India Pale Ale retorna com seu mais recente lançamento, a Summer Witbier, cuja receita recebe adição de casca de limão siciliano e semente de coentro. De coloração amarelo palha levemente turva com creme branco de boa formação e retenção, a Tug Summer Witbier apresenta um aroma com frutado cítrico em destaque, limão siciliano convidativo e sutil percepção de condimentação (tanto da semente de coentro quanto da levedura) além de leve doçura. Na boca, doçura e limão siciliano no primeiro toque com leve condimentação na sequencia e mais limão, delicioso. O amargor é bem baixo (12 IBUs), quase inexistente, e textura é leve e um tiquinho picante. Dai pra frente segue-se um conjunto delicioso e refrescante, que honra o estilo com bastante sugestão de limão e condimentação. No final, cítrico, limão siciliano e bastante refrescância.

De Uberaba para Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, com a primeira cerveja da Elementum (criada em 2014) a passar por aqui. Trata-se da Cosa Nostra, uma Belgian Witbier cuja receita recebe adição de cascas de limão siciliano, semente de coentro e, ainda, zimbro. De coloração amarelo palha bem clarinha com creme branco de ótima formação e longa retenção, a Elementum Cosa Nostra apresenta um aroma bastante refrescante com sugestões cítricas (limão), condimentação suave (a semente de coentro aparece mais do o zimbro) e doçura de mel derivada dos maltes. Na boca, doçura rápida no primeiro toque e condimentação dando as cartas com sutileza, mérito do zimbro, mais presente que o coentro (e trazendo consigo anis), e acrescentando notas interessantes que combina com as sugestões de limão e mel. O amargor é baixinho (20 IBUs, adianta a casa – diria até menos), a textura é levemente picante (dá-lhe especiarias) e, dai pra frente, segue-se um conjunto bem interessante, que finaliza picantezinho com zimbro e coentro. No retrogosto, limão, mel, amargor leve, refrescancia e… zimbro.

Do Rio Grande do Sul para a capital paulista, que abriga a Cervejaria Prime Bier Old Taste 1516 (ainda que a produção seja feita em Nova Odessa, na fábrica da Berggren), com a terceira dos paulistanos a passar por aqui: depois da APA e de uma excelente Kölsch agora é a vez da American IPA da casa, uma cerveja mais para o âmbar do que para o dourado (ainda que ele apareça sutilmente no copo) com creme branco de ótima formação e media alta retenção. No nariz, notas cítricas sutis, mas com discreta remissão ao lúpulo Cascade. Há, ainda, malte caramelo na base, mas a lupulagem distinta consegue oferecer uma paleta que vai além de uma Caramel IPA. Na boca, notas cítricas se destacam no primeiro toque com um leve acento de doçura caramelada seguido de amargor interessante (a casa antecipa 70 IBUs, mas 50 está de bom tamanho e de muito respeito). A textura é inicialmente picante e bastante cremosa na sequencia. Dai pra frente segue-se um conjunto de West Coast IPA com lupulagem brilhando e malte caramelo em segundo plano. No final, doçura caramelada, bastante cítrico e leve amargor, que se estende e se mostra mais presente no retrogosto, que ainda traz cítrico, caramelo e refrescancia.

Ainda em São Paulo, mas saindo de Nova Odessa e vindo para Várzea Grande, casa da Dádiva, que está responsável pela produção da cigana Treze, que já passou por aqui com a Berlin / SP 01 e agora marca presença com a Mata Uvaia Blonde, a primeira de uma série de receitas da casa que vai explorar os sabores nativos dos biomas brasileiros. De coloração amarela com um pouco de dourado e um pouco de turbidez, a Treze Mata Uvaia Blonde exibe um aroma com condimentação destacada (derivada da levedura belga do estilo) no aroma além de percepção de uvaia e de doçura suave de malte. Na boca, doçura rápida no primeiro toque seguido de presença de uvaia e da condimentação derivada da levedura. O amargor é baixo (chuto 25 IBUs) e a textura leve com picância discreta. Dai pra frente surge um Blonde Ale tortinha pela Uvaia, mas bem interessante. No final, uvaia e picância. No retrogosto, mais uvaia, mais condimentação e leve doçura.

Fechando esse passeio com a Invicta Iniciação, de Ribeirão Preto, uma Weizen de coloração dourada com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, as notas clássicas deste estilo alemão de cerveja de trigo sugerindo forte frutado remetendo a banana e condimentação puxada para cravo (duas características trazidas pela levedura Weiss). Há, ainda, doçura maltada perceptível. Na boca, doçura de mel e de caldo de cana (!) no primeiro toque seguida de banana (bem doce), cravo, cereais e um amargor bem baixo, quase imperceptível (15 IBUs para constar). A textura é levemente efervescente sobre a língua e, dai pra frente, um conjunto que prima pela leveza, mas que traz características respeitosas do estilo alemão numa releitura mais suave que parece querer adequar o estilo ao paladar brasileiro – algo controverso. No final, caldo de cana, mel e, finalmente, banana. No retrogosto, mais banana, mais cravo, mais mel, mais caldo de cana, tudo bem suave e agradável.

Wäls Lager
– Produto: Premium American Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 2.70/5

Avós e Gård Tmavé da Mantiqueira
– Produto: Dark Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.9%
– Nota: 3.08/5

Ampolis Cacildis
– Produto: Amber Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 2.45/5

Rockbird Atomic WaterMelon
– Produto: Gose
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.2%
– Nota: 3.29/5

Barbarella Morango
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.9%
– Nota: 2.41/5

Heilige Dormi no Sol
– Produto: Altbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.01/5

Tug Summer Witbier
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.34/5

Elementum Cosa Nostra
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.34/5

Prime Bier India Pale Ale
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.33/5

Treze Mata Uvaia Blonde Ale
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.30/5

Invicta Iniciação
– Produto: Weiss
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.07/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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