Boteco: Dez cervejas de cinco cervejarias nacionais

por Marcelo Costa

Abrindo uma tradicional série de duas cervejas com duas latas produzidas pela Cervejaria Dogma, de São Paulo, em seu próprio taproom no bairro central de Santa Cecília. A primeira delas é a Swag, uma New England IPA com os lúpulos Azacca e El Dorado. No nariz, um aroma tropical, com muito frutado (tangerina, mamão e manga) e uma leve sensação de picância (provavelmente derivada da levedura). Na boca, doçura frutada deliciosa que fica em segundo plano no aroma se destaca no primeiro toque seguida de picancia (definitivamente de levedura, ainda que tenha um dedinho de lúpulo e também dos 6.5% de álcool). A textura é suave, aveludada, mas com picância (do trio: levedura, lúpulo e álcool) facilmente perceptível. Dai pra frente segue-se uma NE IPA como manda o figurino: veludo, cítrico, amargor imperceptível e levedura ativa. O diferencial é do El Dorado, que consegue tirar o estilo do mais do mesmo. No final, anis (um beijo para o lúpulo El Dorado) e mamão e picância. No retrogosto, mais anis, mais mamão e mais picância.

Outra Dogma enlatada no taproom da cervejaria, a Ortônimo é uma Saison cuja receita combina malte de cevada, malte de trigo e malte de espelta além de receber adição de cascas de limão china (cravo). De coloração amarelo palha com creme branco de boa formação e média retenção, a Dogma Ortônimo apresenta um aroma com casca de limão distribuída tanto notas frutadas quanto herbais, já que a sugestão de ervas é intensa. Há, ainda, leve condimentação. Na boca, doçura com herbal chegam juntos no primeiro toque seguidos de refrescancia, mais limão, mais condimentação e nada de amargor – há um leve azedinho apenas. A textura é suave com picância mínima (o estilo promete mais) e, dai para frente, segue um conjunto altamente refrescante, com a casca de limão se encaixando bem na receita, ainda que falte a aridez tradicional do estilo. No final, refrescancia e azedinho. No retrogosto, casca de limão, herbal, refrescancia e condimentação discreta.

De São Paulo para o Rio de Janeiro, casa da Hocus Pocus, ainda que a planta da cervejaria carioca esteja localizada em território mineiro, mais precisamente na cidade de Matias Barbosa, próxima de Juiz de Fora. É de lá que surgem a terceira e a quarta Hocus Pocus a passarem por aqui (depois da Red Potion e Kambô). Começando pela Pandora, uma Munich Helles de coloração dourada, cristalina, com creme branco de ótima formação e longa retenção. No nariz, notas maltadas deliciosas distribuindo sugestões de trigo, biscoito, casca de pão francês, feno, caramelo e cereais. Na boca, doçura de caramelo mais cereais no primeiro toque seguido de reforço da sugestão, amparadas por um amargor bem leve, 18 IBUs, tradicional do estilo alemão. A textura é leve e, dai pra frente, segue-se um conjunto refrescante e saboroso, que finaliza com leve amargor e secura. No retrogosto, cereais e refrescancia. Ótima!

A outra Hocus Pocus é uma das favoritas do público da cervejaria: APA Cadabra, uma American Pale Ale que foi a segunda receita da cervejaria, fundada em 2014. Assim como a anterior, apresenta uma coloração dourada, cristalina, com creme branco de ótima formação e longa retenção. A diferença, porém, já surge no nariz, com a lupulagem destacando frescor dos lúpulos norte-americanos com muito cítrico (maracujá, laranja e abacaxi) e muito herbal (pinho e uma resina bem discreta, mas perceptível). Na boca, mais herbal do que cítrico no primeiro toque, percepção que se estende na sequencia com pinho no comando e amargor leve, ainda que mais marcante do que na Pandora (são 40 IBUs aqui, bem suaves). A textura é leve, mas com uma picância marcando presença, que a diferencia da Pandora. Dai pra frente, com amargor mais presente, eis uma baita American Pale Ale, q ue assim como a Munich Helles, é um elogio a escola de origem. No final, amarguinho herbal delicia. No retrogosto, refrescancia e mais herbal. Ótima!

Do Rio de Janeiro para o polo cervejeiro de Nova Lima, em Minas Gerais, com as duas primeiras Capapreta a passarem por aqui. O debute é com a Euphoria Juice Northeast IPA, cuja receita une malte de cevada e aveia com os lúpulos Citra e El Dorado. De coloração amarela turva intensa, juicy como um suco, e creme branco de boa formação e média alta permanencia. No nariz, uma bandeja de frutas cítricas e tropicais com sugestão de manga, maracujá, cajá e mamão papaia sobre uma base bastante doce com remissão a mel. Na boca, doçura frutada no primeiro toque seguida da tal bandeja de frutas (com bastante doçura de mamão e acidez de maracujá) percebida pelo aroma com direito a acidez discreta e um amargor deliciosamente comportado. A textura é cremosa e mais picante de amargor do que aparenta ser. Dai pra frente segue-se um conjunto delicioso e, ainda que um tiquinho mais doce do que a média do estilo, excelente. No final, frutado cítrico e leve harsch de cryo hops. O retrogosto reforça a potência cítrica e a refrescância de uma bela receita.

A segunda dos mineiros da cervejaria Capapreta é a Diesel Double IPA, que foi a sexta receita da casa, lançada em novembro de 2016 (a cervejaria foi aberta em 2013). De coloração dourada levemente translucida com creme branco espesso de boa formação e ótima retenção, a Capapreta Diesel apresenta um aroma bombasticamente cítrico (maracujá e laranja) sobre uma base bem suave de caramelo, numa paleta aromática deliciosa. Na boca, doçura cítrica deliciosa no primeiro toque (mais laranja do que maracujá) com leve antecipação de amargor na sequencia até a pancada de 80 IBUs, incrivelmente limpa – e cítrica. A textura é cremosa e picante (menos do que sente no amargor) e dai pra frente segue-se um conjunto delicioso, com bastante cítrico, doçura na base e amargor marcante, mas equilibrado, sem ocupar o espaço dos outros. No final, amargor cítrico com leve resina. No retrogosto, cítrico, doçura e muita alegria. Bela receita (2).

Permanecendo em Minas Gerais, mas saindo de Nova Lima para Uberaba com duas cervejas da My Dear, que produz suas receitas numa fábrica na cidade mineira de Capim Branco. A primeira delas é a Mim Ache, uma Session IPA com dry-hopping de Amarillo que mais parece uma Session APA, a começar pela coloração, âmbar caramelada com creme bege clarinho, quase branco, de formação espumante e longa retenção. No nariz, uma combinação suave de notas cítricas e herbais se destaca sobre uma base bem discreta de malte caramelo. Na boca, doçura de caramelo discreta no primeiro toque seguido da combinação de cítrico e herbal percebida pelo aroma. O amargor não soa tão 40 IBUs quanto a casa antecipa (não passa de 30), trazendo consigo bastante doçura. A textura é cremosa com picância suave. Dai pra frente, segue-se um conjunto que fica na linha que separa uma APA de uma IPA, mas a doçura, um tiquinho acima do desejável para o estilo Session, pode prejudicar o drinkability de uma cerveja que foi feita para ser bebida de balde. No final, secura e um amarguinho bem suave. No retrogosto, doçura de caramelo, herbal e leve cítrico.

A segunda uberabense My Dear é a Desbravadora, uma American Pale Ale cuja receita recebe adição de gengibre combinado com lúpulos norte-americanos. O resultado é uma Caramel APA de coloração âmbar caramelada com creme bege clarinho de formação espumante e longa retenção. No nariz, uma combinação destacada de malte caramelo, notas herbais (mais presentes do que), notas cítricas e sutil presença de gengibre. Na boca, doçura de caramelo moderada no primeiro toque seguida de uma leve picância de gengibre e dos lúpulos norte-americanos, com acento herbal. O amargor é bem suave honrando os 36 IBUs enquanto a textura é cremosa e levemente picante. Dai pra frente segue-se o perfil de uma Caramel APA honesta, com amargor moderado, bastante doçura, percepção sutil do gengibre adicionado e presença herbal marcante. No final, secura e amargor suave. No retrogosto, herbal, gengibre e caramelo.

Para fechar, duas da cigana paulista Heroica, ambas produzidas no Brew Center, em Ipeuna, interior de São Paulo. A primeira é a Bad Company Witbier com Cajá, receita criada em colaboração com o ator e humorista Marvio Lúcio, conhecido como Carioca, que recebe adição de suco de cajá e tapioca além de especiarias (erva-mate). De coloração amarela, tal qual um suco de cajá, com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Bad Company Witbier com Cajá exibe no aroma predomínio do suco de cajá adicionado na receita com leve percepção de azedinho e um toque herbal sutil. Na boca, doçura sutil e bastante cajá no primeiro toque seguida de leve azedinho, herbal discreto e acidez moderada. O amargor é quase inexistente (20 IBUs apenas), a textura é suave com picância discreta e, dai pra frente, surge um delicioso conjunto praieiro, leve e refrescante. No final, cajá e azedinho. No retrogosto, cajá e refrescância.

Segunda da linha Bad Company, da cigana paulistana Heróica, essa é uma India Pale Ale cuja receita recebe adição de chutney de manga Palmer com pimenta e gengibre. De coloração amarela dourada turva com creme branco espesso de boa formação e longa retenção (com direito a rendas ao redor da taça), a Heróica Bad Company Palmer Mango Chutney IPA II apresenta um aroma que combina doçura de frutas (manga notadamente em destaque, mas também laranja e tangerina em segundo plano) com leves notas de condimentação. Na boca, chutney de manga alcoólico (5.5%) brilhante no primeiro toque seguido de especiarias e uma leve picância de pimenta e de lúpulo. O amargor é leve, tão leve que a picância da pimenta, que também é sutil, se destaca mais. Já a textura é suave e picante. Dai pra frente, segue-se uma IPA meio doidinha, mas bastante interessante, que cumpre a proposta de chutney de manga a perfeição (talvez mais de uma enjoe o bebedor, talvez). No final, picância de pimenta e leve adstringência. No retrogosto, manga, laranja, pimenta, gengibre e doçura. Boa!

Balanço
Abrindo com a Dogma Swag, uma NE IPA deliciosa e “diferentona”, muito pela utilização do lúpulo El Dorado (que eu, particularmente, amo). A Dogma Ortônimo é uma cerveja bem agradável, ainda que falte a aridez do estilo. Primeira da Hocus Pocus, a Pandora é uma Munich Helles caprichada, que nada deve a uma boa Munich Helles alemã. O mesmo pode ser dito da ótima APA Cadabra, em que a Hocus Pocus homenageia com todas as letras o estilo estadunidense. Agora em Minas Gerais com a Capa Preta Euphoria Juice, uma NE belíssima e saborosa. Já a Capa Preta Diesel mantém o nível com mais álcool e mais pegada. Excelente. De Uberaba, a My Dear Mim Ache é uma Session IPA meio Session APA, e com muita doçura, mas é interessante. Voltando a São Paulo com a Heróica Bad Company Witbier com Cajá, uma cerveja deliciosamente leve e refrescante, e a Palmer Mango Chutney II, uma loucurazinha deliciosa e, também, bem interessante.

Dogma Swag
– Produto: NE India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3.89/5

Dogma Ortônimo
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3.48/5

Hocus Pocus Pandora
– Produto: Munich Helles
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.39/5

Hocus Pocus APA Cadabra
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3.50/5

Capa Preta Euphoria Juice
– Produto: New England Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.83/5

Capa Preta Diesel
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.83/5

My Dear Mim Ache
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.9%
– Nota: 2.90/5

My Dear Desbravadora
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3.06/5

Heróica Bad Company Witbier com Cajá
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3.44/5

Heróica Bad Company Palmer Mango Chutney II
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.49/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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