Entrevista: De um Filho, De um Cego

 por Rafael Donadio

Eles são de Jacarezinho, Paraná, e estão com trabalho novo na praça. Trata-se do EP “Mente” (ouça e/ou baixe gratuitamente no site oficial ou ouça no Spotify), composto por cinco faixas. Esse é o quinto trabalho da De um Filho, De um Cego e a primeira parte do disco cheio, previsto para ser lançado até o fim deste ano: “Mente Andorinha”. Já no ano passado, a banda divulgou o clipe da música “Braço de Ferro”, uma das músicas de “Mente”, com produção, fotografia e direção de Lucas Kakuda.

Formada por Lucas Waricoda (vocal e guitarra), Galego Teixeira (guitarra), Matheus Teixeira (bateria) e Guilherme Nascimento (baixo), a banda nasceu de um projeto solo folk de Waricoda, quando ainda cursava jornalismo em Ponta Grossa (PR). O nome surgiu, despretensioso, da junção dos títulos de duas músicas do primeiro trabalho solo de Lucas: “De um Filho” e “De um Cego” (2009). Depois veio “7 Canções de Um Mesmo Amor” (2013) e, já como banda, o EP “Simplicidade” (2014) e o álbum “Outros Verões” (2016).

O EP “Mente” (2019) foi gravado em Londrina (PR), no estúdio do guitarrista Galego, Audio13. A ideia do quarteto é lançar o EP “Andorinha” no segundo semestre e o disco cheio, “Mente Andorinha”, no fim do ano, com a junção das músicas dos dois trabalhos e algumas faixas bônus, inéditas, em formato físico. Os integrantes conversaram com o Scream & Yell sobre o projeto do disco, a história do grupo, o processo de criação e produção e o futuro da banda. Além disso, Lucas fez um faixa a faixa das cinco músicas do EP. Confira abaixo:

Qual é o conceito de “Mente Andorinha”, esse disco lançado em forma de dois EPs? Como surgiu a ideia?
Lucas: Desde o lançamento de “Outros Verões” (2016), rolou muita estrada, correria e aprendizado. Nesse tempo, passamos por mudanças de integrantes até chegar nessa formação – e acho que encontramos a fórmula certa pra gente. “Mente Andorinha” é, basicamente, isso: nosso olhar sobre experiências vividas por nós durante esses três anos. Em linhas gerais, o conceito do disco gira em torno do cotidiano, das amarras físicas e dos “respiros” da rotina, brechas que nos permitem observar e refletir sobre a vida e as coisas.

Galego: A escolha por dividir o trabalho em duas partes foi mais por uma questão comportamental, das pessoas não conseguirem se concentrar em alguma coisa mais de meia hora. As cinco faixas talvez prendam mais a atenção do nosso ouvinte do que um disco de dez, por exemplo. E, em cima disso, a gente construiu a ideia de como separar os dois e tal.

E como surgiram os nomes “Mente” e “Andorinha” e quais as diferenças entre eles?
Lucas: Os nomes saíram da música “Mente Andorinha”. Só separamos os termos. O nome (e a música) é uma inspiração direta do “Poeminho do Contra”, de Mário Quintana. A junção das palavras brinca com a dualidade do físico e das ideias.

Galego: Basicamente, o “Mente” é mais sóbrio e o “Andorinha” é algo mais solto, com as músicas mais soltas, mais etéreo.

Como foi compor e produzir dessa forma, com duas partes que formarão um só disco mais para frente?
Lucas: O processo de composição foi praticamente o mesmo. A maioria das músicas já estava composta antes mesmo da gente ter a ideia de lançar em duas partes. A meu ver, a principal diferença está na maneira como estamos produzindo esse disco, se comparado ao “Outros Verões”. Dessa vez, exploramos mais timbres, camadas e recursos vocais, além de criarmos a maioria dos arranjos em estúdio durante jam sessions – o que acabou imprimindo um aspecto mais orgânico e natural às músicas.

Galego: Acho legal falar da produção citando a música “Mente Andorinha”, por causa da maneira como ela surgiu, ao contrário das outras que chegaram em estúdio já estruturadas, arranjadas. A gente começou a trabalhar nela faz um tempo, há uns dois anos, mas ela foi empacando; cada um meio descontente com sua parte. No fim, entramos em estúdio sem que ela estivesse fechada ainda. Uma das minhas linhas de guitarra foi o Lucas quem mandou para mim. Outra parte, do final, eu fiz quando estava desplugando os instrumentos e saindo do estúdio, aí ela me veio à cabeça. A música foi gravada bem no flow, não teve edição, com a batera bem solta. Casou bem com a letra, que eu acho muito interessante, que fala do corpo doente, mas, apesar disso, a mente andorinha, livre para voar. O disco todo foi gravado no meu estúdio em Londrina, Estúdio Audio13. Tudo gravado pela gente e mixado por mim. No fim, adorei, todo mundo gostou e acho que deve ser a nossa preferida do disco. Mas a gente só foi ouvir a música pronta depois que mandei a primeira mix para os meninos. É interessante o som ir acontecendo em estúdio e ser um dos que a gente mais gosta.

Como disse Victor Assis, sobre “Mente”: “riffs que remetem diretamente ao stoner, timbres clássicos do indie rock e texturas reverberantes da neopsicodelia à la Boogarins.” Quais são as principais influências da banda?
Galego: Referências muito bem-vindas (risos). Interessante essa visão, porque tudo o que soar um pouco mais viajado pode remeter a eles (Boogarins), são referência disso no momento, aqui e lá fora. Assim como eles, quando começaram a fazer barulho, foram comparados com Tame Impala; como com a gente em “Outros Verões”, a comparação era mais com as brisas do Floyd. Acho na real que é um monte de gente que gosta de viajar, fazendo arte, se divertindo, por isso pode soar assim. Mil ideias na cabeça, mil angústias quanto à maneira de viver e nos portar socialmente; esse vômito artístico somado a como levamos vida/lazer/trabalho pode fazer com que soe assim e numa dessas essas outras bandas passavam por coisas parecidas. É inegável que temos influências do indie, até do “neopsicodélico”, apesar de não gostar muito do termo (risos). Mas o que cada um da banda escuta é bem diferente. Tem um mano que ouve jazz, hardcore, o outro neosoul, trip hop, enfim, onde podemos afirmar que todo mundo se encontra de coração, sonoridade, é na música brasileira. E pra citar um artista específico, de uns anos pra cá nosso nó perfeito de influência é o Lenine, ídolo, mestre, monge da música! Mas quanto às texturas reverberantes, ambiências mais especificamente, Victor tem razão, era uma busca nossa desde sempre, apenas estávamos tentando manipular melhor os efeitos, as camadas, e como cada linha poderia conversar com elas.

As músicas falam muito das relações das pessoas, entre vocês da banda, do ser humano com a internet, com a natureza. Como surgem as letras?
Lucas: Quase sempre, do nada (risos). A inspiração geralmente tem algum gatilho: algo que penso, vejo, escuto, leio, lembro. A partir disso, começo a escrever mentalmente. Se surgem dois versos, já é o suficiente pra eu correr pro bloco de notas e começar a escrever. Mas não tem um padrão, não. Elas vêm quando querem.

Como nasceu a banda e qual o caminho percorrido até agora?
Lucas: Começou em 2009, em Ponta Grossa (PR), de uma maneira bem despretensiosa. DFDC nunca foi feito para ser “publicado”, eram músicas que eu tinha na gaveta e quis gravá-las para registrar essas composições. Aconteceu que algumas pessoas encontraram isso na net, gostaram muito e começaram a divulgar por conta. Essa resposta foi tão positiva que resolvi gravar outro EP, em 2013, em Irati (PR). Um tempo depois desse lançamento, um produtor de Brasília (DF) me convidou pra gravar uma coletânea dos EPs com ele lá, e foi aí que convidei o (baixista) Guilherme (Nascimento). Gravamos o “Simplicidade” (2014) juntos e, a partir daí, a história da banda começou. Passamos por duas formações diferentes e, no meio disso, gravamos nosso primeiro disco cheio em 2016, “Outros Verões”. Com ele, começamos a rodar, agora como banda, cada um cuidando da sua linha e construindo, juntos, a identidade desse novo DFDC que se formava. Depois de todas as mudanças e a bagagem da estrada, acredito que encontramos nossa maneira de fazer música e entender nosso trabalho. Sem dúvidas, é o De um Filho, De um Cego em sua melhor fase.

E o nome De um Filho, De um Cego?
Lucas: “De um Filho” e “De um Cego” são duas músicas do primeiro EP da fase solo. Depois de gravadas, mostrei pra um amigo meu que, coincidentemente, é web designer. Ele gostou tanto que quis fazer uma página no Myspace, mas faltava um nome. Olhei a lista de músicas do EP e bati o olho em “De um Filho” e “De um Cego”. Ficou assim.

Além dessa mudança de um projeto do Lucas Waricoda para uma banda, o que poderia dizer que mudou de 2009 para cá?
Lucas: Quase tudo. A gente considera esses seis anos de estrada com a banda como uma nova fase do projeto, e essa virada mudou muita coisa. Mudou a forma como a gente vê a nossa música e a maneira como a gente se vê nela. Antes eram impressões particulares de um Lucas de 19 anos que tentava entender a vida e experimentar no folk. Hoje, 10 anos depois, são quatro cabeças pensando juntas em um som com muitas influências, mas sem rótulos. Tanto que nem tocamos as músicas dos primeiros EPs; estão um tanto distantes de quem somos agora. Nossa vida mudou, e é natural que a gente carregue nossa música nesse processo. Mas existe algo que sempre esteve e sempre vai estar alí, que é o jeitão De um Filho, De um Cego de cantar a vida.

Mesmo depois de virarem banda, até hoje o Lucas é o compositor, todas as letras são dele. Já aconteceu ou está acontecendo composições dos outros integrantes ou trocas de ideias em relação a isso?
Galego e Guilherme: Ahhh Donadio, como tiozão que somos, vale ressaltar a máxima de tiozão: “em time que tá ganhando, não se mexe.” (risos)

Galego: Brincadeiras à parte, letra, música e melodia vem quase sempre prontas do Lucas, porém todas são reestruturadas e arranjadas pela banda toda, geralmente em jam no estúdio, inclusive com um dando pitaco no instrumento do outro. Acreditamos que até por essa constante no processo temos recebido tanta resposta boa do público em relação à unidade, à homogeneidade que chegamos nesse trabalho. Ainda em relação a composição em si, vejo no Lucas um dos melhores compositores da nossa cena: consegue falar com poucas palavras o que precisa ou não ser dito, ou entendido. Soa simples e poético ao mesmo tempo.

Você, Lucas, comentou sobre as composições sempre flertarem com a natureza, mesmo não sendo esse o tema. Você trabalha como revisor, dentro de uma sala fechada praticamente o dia todo. Como surgiu essa sua relação com a natureza?
Lucas: Vem desde sempre. A gente é tudo moleque do interior, né. Mato, rio, terra são lugares comuns pra gente. A cultura caipira também sempre falou alto com a gente e de certa maneira é um jeito que a gente encontra de reafirmar as origens. Também sou um cara bem ligado à espiritualidade e, pra mim, a natureza é um dos canais de conexão com esse meu divino. Parar na beira de um rio, poder gastar um tempo com o pé no mato, mergulhar no mar – isso me inspira muito. Impossível não colocar esse sentimento na hora de compor.

Quais os planos de shows, clipes e lançamentos daqui para frente?
Estamos fechando algumas datas de shows mais pontuais ao longo desses meses e começando a preparar a turnê de lançamento do disco pra quando os dois EPs forem lançados. Ainda nesse semestre, vamos lançar mais um clipe do EP “Mente” e, provavelmente, um clipe do próximo EP no comecinho do segundo semestre. A ideia é ter, pelo menos, dois clipes por EP até o lançamento do disco físico, que talvez seja lançado não só em CD, mas também em vinil. Só que como o rolê do independente é sempre uma loucura, vamos acompanhando os próximos capítulos.

FAIXA A FAIXA
Céu de Domingo
“Céu de Domingo” fala sobre um fim de semana especial, que marcou um período onde as coisas começaram a “dar certo” pra gente. Tínhamos acabado de tocar com o Sugar Kane na noite anterior, uma banda que foi referência pra gente na adolescência, e pela primeira vez, todo mundo da banda estava reunido em casa, em Maringá (PR). Domingo de tarde, os caras se preparando pra pegar estrada, a gente fumando um último cigarro e conversando sobre a vida. Foi isso.

Mente Andorinha
Fiz uns versos quando estava doentão e ela surgiu. Queria levantar da cama e viver, mas meu corpo não deixava. Na real, era pra ser um poema, mas acabou saindo a música. Tudo foi meio que inspirado no “Poeminho do Contra”, do Mário Quintana: “Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão… Eu passarinho!”. É a mesma ideia libertadora, que vai além das limitações físicas, que voa.

Todos os Outros
“Todos os Outros” fala sobre a solidão de estar conectado. Ao mesmo tempo que você tem “todos os outros aos toques das mãos”, você pode estar sozinho. E por estarmos sempre conectados, também surge essa urgência de se desligar, de abstrair, “até que o vibra me sacode outra vez”.

Braço de Ferro
“Braço de Ferro” fala sobre relacionamentos e concessões. Ao mesmo tempo em que existe o conflito, existe o amor e a vontade de fazer dar certo. Às vezes, alguém precisa ceder, e essa música fala sobre isso.

Transe
“Transe” fala basicamente de mar e saudade. Foi escrita na Ilha do Mel, naqueles momentos que você senta de frente pro mar e fica filosofando sobre as coisas, sabe? rs

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista maringaense…

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