Boteco: Cinco cervejarias, Cinco Países, Dez cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série com duas cervejas por países com duas versões da Flow, uma New England IPA da Cervejaria Dádiva, de Várzea Grande, interior de São Paulo. A primeira delas é a Citrus Flow, cuja receita blenda os lúpulos Loral e Lemondrop. Na taça, como uma boa NE, ela apresenta uma coloração amarela turva, juicy como um suco de caju, mais creme branco espesso de boa formação e retenção. No nariz, uma salada de frutas amarelas deliciosa (laranja, mamão, melão) puxada para a doçura com leve percepção de levedura e, suspeito, de cryo hops. Na boca, melão no primeiro toque com presença assertiva da levedura e um leve traço de resina, mas, no geral, o amargor é controlado e delicioso, com as frutas brilhando. A textura começa bastante picante (levedura e lúpulo) e vai se tornando suave, para depois mostrar cremosidade. Dai para frente segue-se um conjunto lindo de NE, com frutado cítrico apaixonante e amargor presente, mas ainda assim suave. No final, amargor leve e cítrico. No retrogosto, mais mamão, melão e laranja. E resina leve de cryo hops. Foda!

A segunda Dádiva da linha Flow é a Tropical, uma New England Single Hop Amarillo que apresenta uma coloração amarela turva, juicy como um suco de caju, mais creme branco espesso de boa formação e retenção. No nariz, a Dádiva Tropical Flow apresenta um intenso frutado (manga, laranja e abacaxi) com levedura presente e um forte harsh derivado, provavelmente, de cryp hops. Na boca, sugestão de abacaxi nítida no primeiro toque seguida de picância de levedura e forte harsh que antecipa um amargor intenso, que não vem: no seu lugar surge um conjunto poderoso, mas aconchegante e picante. A textura é cremosa e picante. Dai pra frente segue-se um conjunto… lindo de NE, com cítrico apaixonante e melhor definido além de amargor presente, mas ainda assim suave. No final, doçura cítrica, leve harsh e amargor. No retrogosto, mais frutado cítrico (manga e, principalmente, abacaxi), mais harsh, mais amargor suave e mais refrescancia. Delicia.

De São Paulo para Nørre Aaby, cidade a duas horas de Copenhage, com a quinta (e a sexta) cerveja da Ugly Duck a passar por aqui. Primeiro a Juciy Pony, uma Sour IPA (?!) cuja receita une levedura Vermont (bastante usada em receitas de New England IPA) e dry-hopping de lúpulos norte-americanos. “Ela é basicamente uma kettle sour – ou seja, uma sour leve – com dry-hoping de IPA”, avisa o site oficial. De coloração âmbar turva alaranjada com creme bege claro de boa formação e retenção, a Ugly Duck Juicy Pony exibe um aroma intenso de frutas cítricas, quase uma salada com toranja, maracujá, damasco, abacaxi e morango. Na boca, uma pancada de frutas cítricas com azedume batendo a doçura de longe no primeiro toque. Conforme o conjunto segue, o azedume acalma e a doçura cítrica aumenta, lindamente. O amargor não é o barato, então o esqueça: o lance aqui é o azedume cítrico, delicioso. A textura é levemente acética e, dai pra frente, surge um suco de frutas cítricas (de 6% de álcool) delicioso e bastante refrescante. No final, acidez, cítrico e leve adstringência. No retrogosto, mais cítrico, mais acidez e refrescancia (e, claro, adstringência). Gostei!

A segunda da Ugly Duck é a Retro, uma Double IPA que honra o “old school hopped” do rótulo com muito malte caramelo, lúpulos Cascade, Colombus e Chinook, corpo alto, teor alcoólico elevado e tudo de uma exagerada Old American IPA. De coloração âmbar alaranjada com creme bege de boa formação e longa retenção, a Ugly Duck Retro Double IPA exibe um aroma com bastante presença de caramelo em meio a notas herbais (pinho), frutadas (pêssego, maracujá, laranja) e alcoólicas (9%), que trazem consigo leve resina. Na boca, caramelo e cítrico chegam praticamente juntos no primeiro toque, com o frutado assumindo a dianteira na sequencia acompanhado de herbal até a pancada de amargor, 100 IBUs que parecem uns 70, mas muito bem colocados. A textura é suave com picância de lúpulo e álcool. Dai pra frente surge uma belíssima American IPA Old School, com amargor marcante além de muito cítrico, muito herbal e muito caramelo (muito tudo!). No final, amargor e casca de laranja. No retrogosto, mais amargor, leve resina, casca de laranja, caramelo e pinho.

Da Dinamarca para o Brooklyn nova-iorquino com duas cervejas da Sixpoint Brewery, que já passou por aqui com a The Crispy, a Bengali e a Resin, e agora retorna primeiramente com a Jammer, uma Gose lançada em 2011 cuja receita recebe adição de coentro e sal marinho de Jacobsen, de Portland, no Oregon. De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e retenção, a Sixpoint Jammer exibe um aroma que combina notas marinhas com a doçura do malte sugerindo trigo e a presença sutil do coentro marcando presença deliciosamente. Há, ainda, leve sugestão de limão. Na boca, doçura (de malte) e salgadinho chegam juntos no primeiro toque, trazendo consigo um toque praieiro e refrescante. Na sequencia, o coentro entra na mistura aprofundando o conjunto. Não há amargor e a textura é cremosinha. Dai pra frente segue-se um conjunto altamente refrescante, com sal, coentro e uma leve sugestão de limão. No final, salgadinho marinho. No retrogosto, adstringência suave, doçura de malte, coentro e sal bem leve. Delicinha.

A segunda da Sixpoint Brewery é a Righteous Ale, uma Wood Aged Beer cuja receita blenda três tipos de maltes de centeio e matura a cerveja por meses em barris de bourbon Woodforde Reserve Rye Widow, da Widow Jane Bourbon. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar e creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, percepção rápida de Bourbon e um amadeirado suave além de baunilha e caramelo. Na boca, caramelo tostado embebido em Bourbon marca o primeiro toque, e segue adiante dando as regras num conjunto que ainda traz madeira suave, baunilha e discreto frutado que remete a cereja. O amargor é dispensável, mas preste atenção na picada alcoólica, 10.5% que não se apresentam tão facilmente (apesar do Bourbon cercear todo o passeio, a sensação de álcool é baixa, apesar de sua presença ser alta) e podem derrubar incautos. A textura é leve, quase suave, mas picante sobre a língua (quando exposta com maior duração). Dai em diante, segue-se uma Barrel Aged muito boa, com um tiquinho de Malt Liquor, mas bastante Bourbon para contornar o estilo. No final, secura, caramelo tostado e álcool, sensações que se estendem ao retrogosto, delicioso.

Dos Estados Unidos para Rotterdam, na Holanda, casa da 4 Islands Brewery, que produz suas cervejas (com frutas) na fábrica alemã da Vormann Brauerei. A primeira é Don Lazaro Melon, uma Hefeweizen que recebe adição de melão. De coloração mais para âmbar do que para dourado com leve turbidez e creme branco de baixa formação e retenção, a 4 Islands Don Lazaro Melon exibe um aroma de mofo em primeiro plano, logo seguido de cereais, feno, trigo e banana passada do tempo. Há, ainda, percepção de condimentação e de melão. Na boca, doçura cítrica suave no primeiro toque com leve picancia de condimentação na sequencia mais azedume e amargor leves (10 IBUs). A textura é efervescente sobre a língua. Dai pra frente segue-se um conjunto meio maluco e estranho, que remete bastante as Fruit Beers da Mongozo, com azedume, doçura frutada e levedura de Weizen parecendo bater cabeça. No final, melão e azedinho. No retrogosto, azedume bem baixo, melão, banana passada e leve doçura.

A segunda cerveja com fruta da 4 Islands Brewery é uma colaborativa dos holandeses com a alemã Freigeist, e trata-se de uma American IPA com muito lúpulo estadunidense e a fruta presente aqui é a goiaba. De coloração dourada translucida com creme branco espesso e de alta formação e retenção, a 4 Islands Geronimo Guava apresenta um aroma com frutado intenso destacando facilmente goiaba em primeiro plano, mas deixando perceber também mamão, manga e limão. Na boca, bela replicação do que o aroma adianta com goiaba transbordando desde o primeiro toque até o conteúdo sequente, com amargor marcante, mas não exagerado (60 IBUs que mais parecem 30). A textura é levemente picante e cremosa e, dai pra frente, segue-se um conjunto de Fruit IPA, uma junção de Fruit Beer com IPA, com a fruta bastante presente, mas não apagando o perfil de índia pale ale da receita. No final, goiaba e leve amargor seco. Non retrogosto, goiaba.

Da Holanda para a vizinha Bélgica, mais precisamente Aubel, cidadezinha de pouco mais de 4 mil habitantes próxima de Liege que abriga a Abadia de Val-Dieu, nascida no local em 1216. A igreja original foi destruída em 1287 durante a Guerra da Sucessão de Limburg. Reconstruída, ela voltou a ser destruída em 1574 durante a Guerra dos 80 Anos e em 1683 pelos exércitos de Luís XIV. Floresceu entre 1711 e 1749, sendo destruída pela Revolução Francesa. Foi reaberta em 1844, fechada em 2001, e mantida desde 2002 por leigos supervisionados pelas autoridades eclesiásticas regionais. Desde 1997, a fazenda da abadia mantém uma cervejaria, que produz essa receita Blonde, entre outras. De coloração dourada com leve turbidez, creme branco espesso de ótima formação e retenção, a Val-Dieu Blonde exibe um aroma com notas remetendo a doçura, trigo, pão e, sutilmente, banana. Na boca, doçura no primeiro toque seguida de panificação e banana, leve. A textura é cremosa, suave. Dai pra frente, mais doçura, um pouco de frutas cristalizadas, e leve álcool (6%). No final, frutas cristalizadas e doçura. No retrogosto, banana, frutas cristalizadas, cereais e doçura.

A segunda da L’Abbaye du Val-Dieu é a Belgian Tripel da casa, uma cerveja de coloração dourada com creme branco espesso e bonito de ótima formação e longa retenção. No nariz, doçura de caramelo com açúcar marcante e delicioso acompanhado de frutado (pêssego, damasco e laranja) e também de sensação de frutas cristalizadas. Há, ainda, percepção de pão, biscoito, mel (derivados do malte) e, muito suavemente, álcool (9%). Na boca, doçura frutada no primeiro toque que, na sequencia, se abre um pouco mais com damasco dominando e leve picância (não parece, mas deve ter um dedinho de álcool, muito bem escondido). O amargor é baixo, mas o álcool provoca um pouco. A textura é suave, mas picante, com um toquezinho que remete a pimenta (provavelmente derivado da levedura belga). Dai para frente segue um conjunto de Belgian Tripel delicioso, caprichado, frutado, alcoólico (e o álcool aparece mais conforme a cerveja aquece) e picante. No final, damasco e doce de laranja. No retrogosto, damasco, laranja, frutas cristalizadas, pimenta branca e caramelo. Delicinha.

Balanço
Abrindo a série com duas NE da Dádiva incríveis, que mantém o corpo, mas altera os lúpulos: a Tropical Flow me soou mais agradável por um milímetro de diferença, ou seja, as duas são sensacionais. A Ugly Duck Juicy Pony é uma Sour incrível, deliciosa, um suco de frutas cítricas alcoólico. A outra Ugly Duck, a Retro, é uma Old American IPA porrada e exagerada. E boa! Boa também é a Gose da Sixpoint, a Jammer, uma delicia refrescante. Já a Righteous Ale é uma Wood Aged que precisa de cuidado, pois é uma delicia alcoólica. As duas 4 Islands foram boas surpresas, ainda que a Geronimo Guava tenha se destacado muito mais. Fechando, a linha Val-Dieu é bastante recomendável para fã de cervejas belgas, porque mantém a tradição e o capricho da escola local. 

Dádiva Citrus Flow
– Produto: NE IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.1%
– Nota: 3.91/5

Dádiva Tropical Flow
– Produto: NE IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.1%
– Nota: 3.92/5

Ugly Duck Juicy Pony
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.75/5

Ugly Duck Retro
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.65/5

Sixpoint Jammer
– Produto: Gose
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3.51/5

Sixpoint Righteous Ale
– Produto: Wood Aged Beer
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 10.5%
– Nota: 3.57/5

4 Islands Don Lazaro Melon
– Produto: Hefeweizen
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 2.71/5

4 Islands Geronimo Guava
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.21/5

Val-Dieu Blonde
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.24/5

Val-Dieu Triple
– Produto: Belgian Triple
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.61/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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