Boteco: 10 cervejas do Sul brasileiro

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de cervejas do Sul do Brasil por Porto Alegre, casa da cervejaria Seasons, com a Senssons, uma Farmhouse Ale com pomelo e adição tardia de lúpulos made in USA. De coloração meio dourada, mas com leve âmbar e alaranjado além de creme branco de ótima formação e longa retenção, a Seasons Senssons exibe um aroma com muita fruta amarela (laranja lima, limão siciliano, toranja) e condimentação derivada da levedura além de leve frescor de fazenda. Na boca, capim limão e limão siciliano no primeiro toque seguidos de leve condimentação (que remete a witbier) e, novamente, frescor de fazenda. A textura é levemente picante e, dai pra frente, segue-se um conjunto com levedura brilhando, muitas frutas amarelas e o delicioso frescor da fazenda (belga e gaúcha). No final, cítrico e leve condimentadozinho. No retrogosto, limão, toranja, laranja e condimentação. Delicinha.

A segunda da Seasons é a Hop Venture, uma Session IPA de coloração amarela, juicy como um suco de caju, e creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção. No nariz, notas cítricas suaves sugerem frutas amarelas, mas nada muito exposto, e sim delicado: abacaxi, lima e melão. Na boca, doçura cítrica (tal qual um suco) de melão no primeiro toque acrescida de refrescancia, picância suave e amargor bem baixo, honrando os 25 IBUs adiantados pelo rótulo. A textura é suave com leve picância (mais de levedura do que de álcool, que são apenas 4.3%, mantendo-se dentro do estilo Session com bastante propriedade). Dai pra frente segue-se um conjunto bastante refrescante, com notas cítricas evidentes e levedura atuante. No final, leve secura cítrica. No retrogosto, mais cítrico suave e refrescancia.

Agora em Curitiba com duas Bodebrown, e duas da série Brut IPA Single Hop, que foi aberta pela versão com lúpulo Galaxy (que passou pelo Scream & Yell aqui), e agora retorna com outras duas. A primeira delas é a versão com o lúpulo Mosaic (a mais recente lançada por eles), uma cerveja de coloração dourada, sparkling, com creme branco de média formação e retenção mais resistente que a versão Galaxy, ainda assim não tão presente. No aroma, delicioso, bastante frutado cítrico (abacaxi, pêssego, maçã verde), doçura, picancia e frescor. Na boca, doçura cítrica no primeiro toque seguida de leve frisante e amargor baixo. A textura, como era de esperar, é levemente frisante, sparkling dançando sobre a língua. Dai pra frente segue-se um conjunto delicioso, bastante cítrico, seco e refrescante. No final, secura e cítrico. No retrogosto, mineral, cítrico, secura e refrescancia. Melhor que a primeira, mas, ainda assim, um estilo a ser explorado e melhor definido.

Seguindo com a terceira Bodebrown Brut IPA Single Hop (a segunda lançada pelos curitibanos), que aqui utiliza o lúpulo estadunidense El Dorado. Na taça, a cerveja apresenta uma coloração dourada, sparkling, com creme branco de média formação e baixa retenção. No nariz, um aroma deliciosamente cítrico brilha remetendo tanto a abacaxi quanto lichia e uva verde (o que a aproxima de vinho branco). A secura do estilo brut também é perceptível desde o aroma. Na boca, doçura cítrica no primeiro toque (aqui mais uva verde e lichia do que abacaxi) seguida de frisância, algo de limão (ou lima) e leve frescor cítrico. O amargor é baixinho, e nem pense nele porque ele não chega a compor com destaque a paleta do paladar. A textura é levemente frisante, sparkling dançando sobre a língua, com adstringência e leve acidez. Dai pra frente segue-se um conjunto delicioso, bastante cítrico, seco e refrescante. No final, leve cítrico e bastante secura. No retrogosto, lichia, pêssego, abacaxi e uva verde… frisante. Delicia.

Retornando a Porto Alegre, mas agora com duas cervejas da Tupiniquim! A primeira delas é da série Efeito American IPA, da qual já passaram por aqui a Efeito Galaxy e a Efeito Simcoe, e agora chega a Efeito Mosaic, uma cerveja de coloração amarelo turva, meio âmbar alaranjado, creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, bastante herbal lembrando bala de hortelã, sugestão de domina a percepção e brilha tanto que ofusca toda o resto. Na boca, bala de hortelã, intensa e liquida, desde o primeiro toque seguida de herbal e um amargor rustico, de 50 IBUs, que combina bem com o perfil (English) West Coast da linha Efeito. A textura é suave e levemente picante. Dai pra frente, o efeito de balinha de hortelã segue em frente e não abandona o bebedor até o final, amarguinho e herbal. No retrogosto… risos… balinha de hortelã, aquele finalzinho.


A segunda da Tupiniquim é a Blond Ale, outra no formato de lata de 350 ml alta e fina. Neste caso, trata-se de uma cerveja (da escola belga) de coloração dourada levemente âmbar com creme branco de média formação e retenção. No nariz, doçura suave de caramelo, condimentação discreta (derivada da levedura belga), leve toque de panificação (e um discreto off-flavour amanteigado). Na boca, doçura levemente frutada (puxado para frutas amarelas) no primeiro toque seguida de suave caramelado, panificação, condimentação discreta e amargor bem suave. A textura começa suavemente picante e vai se tornando cremosa. Dai para frente, a percepção de panificação aumenta acompanhada de doçura caramelada, frutas amarelas indistinguíveis e condimentação suave. No final, caramelo e amarguinho bem leve. No retrogosto, panificação, frutas amarelas leves, caramelo.


Voltando com duas cervejas curitibanas, e duas receitas especiais da linha Rebellion da Cervejaria Maniacs. A primeira delas é a Moscow, uma Russian Imperial Stout cuja receita combina maltes Pilsen, Swaen Aroma, Swaen Chocolate B, Swaen Coffee Light e Swaen Black com os lúpulos Magnum e Cascade. Há, ainda, adição espirais de carvalho americano envelhecidas em Bourbon na maturação. O resultado é uma cerveja de coloração marrom clara (ao contrário do marrom enegrecido tradicional do estilo) com creme bege de boa formação e retenção. No nariz, caramelo, baunilha, café verde suave e, claro, Bourbon, madeira e álcool (são 12.7%!). Na boca, doçura caramelada com leve baunilha no primeiro toque seguida de café e, principalmente, de álcool, que entrega seu caráter russo aquecendo o bebedor. A textura é mais suave do que sedosa e, em poucos segundos, o álcool (trazendo consigo madeira e Bourbon) fazem a festa sobre a língua. Dai pra frente, uma receita extrema, com álcool evidente, mas deliciosos detalhes de baunilha, café, madeira e Borubon. No final, álcool e Bourbon, sugestões que também dominam o retrogosto.

A segunda Maniacs Rebellion também é uma Russian Imperial Stout e atende pelo nome de… Kofe. Matou a charada, certo? Quase. A Kofe recebe adição de grãos de café sim, porém, os grãos ainda maduros de café, antes da torra, são maturados em barricas de segundo uso que antes maturaram Bourbon. Só depois dessa maturação é que eles são torrados e inclusos na maturação de uma cerveja com a mesmíssima receita da Moskow. O resultado é uma cerveja de coloração marrom clara com creme bege de boa formação e retenção. No nariz, um café verde ganha maior destaque parecendo até amaciar e equilibrar as notas de caramelo, baunilha e álcool com a madeira e o Bourbon, suaves, bem suaves. Na boca, café suave no primeiro toque, mas que aumenta suavemente de intensidade na sequencia, dominando o paladar. Ainda é possível perceber os 13% de álcool, algo de caramelo e de baunilha, mas o café domina. A textura segue mais suave do que sedosa e, em poucos segundos, o álcool (trazendo consigo madeira, café e Bourbon) fazem a festa sobre a língua. Dai pra frente, mais café, que torna a receita base muito mais saborosa, ainda que o álcool esteja bem presente. No final, café e calor alcoólico. No retrogosto, Bourbon suave, café, caramelo e álcool.

Para fechar essa série sulista, duas cervejas da série YeastLab, da porto-alegrense Perro Libre (feitas na Brew Center, em Ipeuna, interior de São Paulo). Aqui a brincadeira é a seguinte: uma mesma base de IPA com lúpulos Citra e Mosaic mais maltes Pale, 2-Row e Carapils além de aveia e trigo em flocos, mas fermentadas com duas leveduras diferentes (a Brewdog fez algo assim anos atrás). Os dois rótulos trazem informações de ambas as leveduras, mas o bebedor só saberá qual delas é olhando o fundo da lata. Neste caso, a primeira foi a American Ale, e o resultado é uma cerveja de coloração amarela turva e densa como um suco (de laranja). O creme branco é de boa formação e retenção. No nariz, uma incrível pancada cítrica (laranja, maracujá e mamão) com leve condimentação derivada da levedura. Na boca, doçura de frutas (mamão no comando) no primeiro toque seguido de leve aridez da levedura e um amargor limpo. A textura é aveludada e picante e, dai pra frente, segue-se uma NE deliciosa, frutadissima. No final, adstringência, cítrico e leve mineral. No retrogosto, mamão, mineral, picância e refrescância. Delicia.

A segunda Perro Libre YeastLab (e a última desta série gaúcha) é a versão com a levedura London Ale e absolutamente a mesma receita da anterior (a ideia é comparar o que a levedura traz para a receita). De coloração amarela turva e densa como um suco (de laranja) além de creme branco de boa formação e ótima retenção (com direito a rendas ao redor da taça), a Perro Libre YeastLab London Ale apresenta um aroma intensamente cítrico, mas aqui puxado para laranja (ainda que seja possível perceber tanto o maracujá quanto o mamão em segundo plano) – a presença da levedura é muito mais sútil no conjunto. Na boca, predomínio novamente de laranja, mas aqui acompanhada de um leve harsch de cryo hops desde o primeiro toque, com acréscimo de condimentação, mamão e maracujá. O amargor parece um pouco mais sutil (nas duas, o IBU está na casa dos 45 IBUs), a textura segue aveludada e picante e, dai pra frente, o caráter NE IPA segue tão caprichado quanto na versão American Ale, mas, gosto pessoal, a versão London Ale me pareceu mais redondinha. No final, cítrico e leve harsch. No retrogosto, laranja, picância, harsch suave e refrescância. Delicia (parte 2).

Balanço
Abrindo essa sequencia sulista com duas Seasons: a primeira, Senssons, é uma Farmhouse Ale deliciosa. Já a Seasons Hop Venture é uma boa Session IPA, que fresca deveria estar tinindo, mais seis meses depois já perdeu um pouco de brilho. Ainda assim delicinha. Ainda no Rio Grande, mas agora com a Tupiniquim, a Efeito Mosaic não me surpreendeu tanto quanto as duas Efeito anteriores, e a sensação de balinha de hortelã é divertida, mas não permanece. Ainda assim, uma boa American IPA. Mais fraquinha ainda é a Blond Ale da casa, que não é de toda ruim, só soa menor diante de tanta coisa boa que a Tupiniquim já fez. Da série Rebellion, da Maniacs, a Moscow é uma cacetada alcoólica bem interessante, com várias nuances que a Kophe melhora ainda mais. Duas boas RIS. Fechando com duas Perro Libre YeastLab: a primeira, American Ale, se revelou uma NE incrível, frutadissima. Já a versão London Ale me pareceu com menos arestas, mais suave e saborosa.

Seasons Senssons
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.6%
– Nota: 3.49/5

Seasons Hop Venture
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.3%
– Nota: 3.15/5

Bodebrown Sparkling Hop Single Hop Mosaic
– Produto: Brut IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,56/5

Bodebrown Sparkling Hop Single Hop El Dorado
– Produto: Brut IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,58/5

Tupiniquim Efeito Mosaic
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3.31/5

Tupiniquim Blond Ale
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2.73/5

Maniacs Rebellion Moscow
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12.7%
– Nota: 3,46/5

Maniacs Rebellion Kofe
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 13%
– Nota: 3,61/5

Perro Libre YeastLab American Ale
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,90/5

Perro Libre YeastLab London Ale
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,93/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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