Cinema: “Rasga Coração”, de Jorge Furtado

por Renan Guerra

Desde o seminal e obrigatório “Ilha das Flores” (1989) até o genialmente divertido “Saneamento Básico, o Filme” (2007), o gaúcho Jorge Furtado construiu uma forma muito própria de olhar a sociedade e o Brasil, sempre através de um humor irônico, que conseguia ser questionador e ainda assim extremamente comunicável com diferentes públicos. Nesse sentido, seu antepenúltimo filme, “Real Beleza” (2015), era uma curva fora da rota, uma espécie de romance pequeno burguês que parecia falhar em suas tratativas, tanto que escrevemos à época: “Colocado ao lado da filmografia pregressa de Jorge Furtado, ‘Real Beleza’ é mais do que ruim, é uma enorme decepção”.

De 2015 para cá, Furtado seguiu trabalhando de forma ampla na televisão, com presença nas séries “Mister Brau” (de sua criação), “Sob Pressão” e “Nada Será Como Antes”, todas exibidas pela Rede Globo e recebidas de forma extremamente positiva por público e crítica. Já no final de 2018 chegou aos cinemas seu nono longa-metragem, “Rasga Coração”, uma adaptação da peça de mesmo nome de Oduvaldo Vianna Filho e agora podemos dizer sem dúvida que Jorge Furtado retornou a sua melhor forma enquanto criador questionador e instigante.

A história não é nova, a peça de Vianninha é dos anos 70, porém o roteiro de Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Amorim consegue atualizá-lo de forma plena para o Brasil atual, de uma forma que nem Furtado poderia prever. O diretor há anos queria adaptar a peça para as telas, porém sentia que o texto estava defasado em meio a um governo de esquerda do PT, porém é a partir da virada das manifestações de 2013 que a peça começa a fazer mais sentido em nosso tempo e ganha ares fundamentais na virada de 2018 para 2019, quando uma direita fascista chega ao poder.

“Rasga Coração” acompanha o conflito geracional de uma família claramente linkada com questões políticas: Custódio (Marco Ricca) é um pai de família de classe média da zona sul carioca, funcionário público bem estabelecido que leva uma vida comezinha ao lado de sua esposa Nena (Drica Moraes), porém seu filho adolescente Luca (Chay Suede) enfrenta uma fase de questionamentos identitários; vegano, sem celular e ligado em ideias diferentes da família, o jovem se envolve em um embate sobre as questões de gênero dentro de sua escola, quando sua namorada Mil (Luisa Arraes) é proibida de entrar no espaço por causa de suas vestes masculinizadas. Nesse cenário, o pai relembra os seus tempos de ativista de esquerda na época da ditadura, quando atendia pela alcunha de Manguari Pistolão (João Pedro Zappa), ao lado de seu amigo Bundinha (George Sauma).

Nesse cenário, as questões políticas e sociais afloram de forma complexa, criando um painel amplo sobre a sociedade brasileira atual. Os personagens jovens são a representação clara de uma geração pós-2013 que busca constantemente atenção para suas lutas independente de quaisquer outras coisas, isso para o bem e para o mal. Além disso, a tensão entre pai e filho no filme explora o desgaste que a esquerda possui com uma parcela da juventude e como o tempo de poder do PT gerou rachaduras complexas no cenário nacional. Mais que isso, o filme debate sobre o amadurecimento de uma geração que chega cheia de privilégios e parece não compreender a realidade em que vive parecendo desconhecer o passado do país.

Essa tensão é exposta com a presença do personagem Talita (Cinândrea Guterres), jovem negra e estudante de escola pública que cria uma dicotomia com o olhar dos jovens brancos da zona sul. Na cena mais simbólica, os jovens participam de um debate na escola particular onde Luca estuda, Talita então apresenta questões latentes para uma parcela da juventude brasileira: “precisamos de infraestrutura, de professores qualificados”, entre outros, mas ela é constantemente silenciada por Mil, a jovem branca de classe média, que afirma que o mais importante naquele momento é discutir gênero e deixar que os alunos entrem na escola de saia.

O interessante de “Rasga Coração” é que o filme pontua essas dicotomias de forma sensata: as questões de gênero, o veganismo, as dúvidas de Luca são apresentadas de forma séria e complexa, porém o filme não deixa de expor as incongruências desses discursos, que parecem ignorar ou silenciar diferentes universos. Nesse mesmo sentido, o filme esmiúça as questões do passado de Custódio (Ricca) e busca uma tentativa de autocrítica (palavra inclusive usada de forma irônica no filme) sobre a escalada da esquerda no poder e todos os prós e contras que isso acarretou para o Brasil de hoje.

Os apontamentos políticos de “Rasga Coração” são muitos: a atualidade política brasileira, as tensões geracionais, a importância de diferentes pautas e a análise crítica das nossas ações são questões que surgem de forma múltipla, mesmo assim o filme não se torna panfletário ou moroso em nenhum momento, pois mais que tudo isso trata-se de um filme sobre afetos, sobre família, sobre amizade e amor. É sobre como a política atravessa todas essas questões, desde a relação entre pais e filhos até as nossas micro relações cotidianas, isto é, nossas perspectivas perante tudo que nos cerca no dia a dia. O exemplo mais claro disso é a cena inicial do filme: um corpo estendido na calçada, bem na vista da janela da casa de Custódio é tema de conversa, de forma frugal, enquanto eles fazem a lista de compras e discutem os preços dos produtos. As questões da classe média estão expostas no filme de forma perspicaz, formando uma moldura para esses personagens, que querem realizar sonhos banais como trocar os tacos do apartamento ou pintar as paredes.

Uma das forças do filme de Furtado está nas atuações: Marco Ricca é excepcional em seu protagonista; já os jovens Chay Suede e Luisa Arraes preenchem de complexidade os seus jovens privilegiados & revolucionários; George Sauma traz um humor e uma naturalidade a porra-louquice de seu personagem Bundinha, já João Pedro Zappa consegue construir um bom prelúdio frente a maturidade de Ricca. De todo modo, é Drica Moraes a grande estrela do filme. Sua personagem poderia ser histriônica na mão de outras atrizes, mas assume um caráter extremamente real em sua atuação: nós conhecemos aquela personagem, ela pode ser nossa mãe, nossa amiga, nossa vizinha. Ela tem certa amargura que se sobrepuja em humor, em ironia e isso traz leveza ao filme, uma identificação engraçada, que remete ao típico humor de Furtado – mesmo que curiosamente muitas das sacadas da personagem já estivessem presentes no texto original de Vianninha.

Além disso tudo, a trilha sonora é um deleite a parte: construída apenas daquela MPB dita maldita, ela parece nova, mesmo que construída com faixas já conhecidas. “Qualquer bobagem”, de Tom Zé, “Gotham City”, de Os Brazões, “Movimento dos barcos”, de Jards Macalé e “Dois Navegantes”, do Ave Sangria compõem o cenário ao lado da canção clássica que dá título ao filme. Surpresa dessa trilha é a faixa “A Corda Ré”, música inédita de Sergio Sampaio, que apenas havia sido gravada em um vídeo caseiro disponibilizado no Youtube; para o filme ela ganha acabamento do filho de Sérgio, João Sampaio.

Com isso tudo, “Rasga Coração” define-se como um importante filme dentro da múltipla filmografia de Jorge Furtado. Expondo a tensão das discussões ideológicas nos diferentes tempos, o longa é um complexo olhar sobre o nosso tempo e deixa um amargor na boca ao mirar o futuro que parece não muito acolhedor. O ponto é que precisamos ver este filme, conversar sobre ele, refleti-lo de diferentes formas e, mais que tudo, nos deixarmos levar pela emotividade e complexidade dessa história. Veja de coração aberto e deixe-se rasgar.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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