Boteco: Cinco cervejarias nacionais, Dez cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série de duas cervejas por cervejaria com uma dobradinha da Brassaria Ampolis, cigana carioca fundada em 2013 por Sandro Gomes em homenagem ao pai, Antônio Carlos Bernardes Gomes, intérprete do icônico trapalhão Mussum, em sociedade com Diogo Mello e Leonardo Costa, que foi incorporada pela Cervejaria Petrópolis em 2017. A primeira é a Forévis, uma Session IPA de 5% de álcool que apresenta uma coloração amarelo palha translucida com creme branco de boa formação e retenção. No nariz, notas herbais e florais bem evidentes são uma surpresa agradabilíssima, com leve sugestão de anis e ervas campestres. Na boca, a surpresa continua com herbal e cítrico puxado para limão siciliano contagiantes no primeiro toque, seguindo mais intensos e refrescantes. O amargor é baixinho (eles não entregam o número, mas chuto 30 IBUs, ou menos). A textura é cremosinha e, dai pra frente, surge uma Session IPA rigorosamente dentro do estilo, e muito caprichada. No final, leve anis, delicioso. No retrogosto, capim limão, anis, toques campestres e refrescancia. Delicinha.

A segunda da Brassaria Ampolis (aportuguesamento de “Brasserie” ou de “Brewery” na linha Mussum da casa) é a Ditriguis, uma Witbier cuja receita (que utiliza malte de aveia e de trigo) recebe adição de coentro, pimenta da Jamaica e essência natural de laranja. De coloração amarela mais palha e mais turva do que a Forévis, a DiTriguis apresenta um creme branco mais intenso de boa formação e média alta retenção. No nariz, aroma herbal remetendo a ervas silvestres, doçura de trigo, frutado básico de banana (mais Alemanha do que Bélgica) e também de mamão, condimentação sutil (a pimenta, porém, não aparece) e bastante presença da levedura. Na boca, doçura de trigo e leve cítrico no primeiro toque seguido de percepção de levedura, ervas silvestres, coentro e mais cítrico. O amargor é mais baixo do que um pale lager de boteco e a textura, cremosinha e discretamente efervescente (mas nem dá para perceber). Dai pra frente, uma Witbier muito doce, com furtado intenso de mamão e levedura presente demais. No final, leve doçura e condimentação. No retrogosto, muito mamão, efervescência suave e doçura.

Do Rio para São Paulo com mais duas da Cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista. Agora eles marcam presença primeiro com a Another Bite, uma West Coast IPA que apresenta a tradicional coloração âmbar (levemente alaranjada) com creme bege clarinho, quase branco, de boa formação e retenção. No nariz, uma festa de lúpulos norte-americanos distribuindo bastante notas herbais (pinho), muita sugestão de resina e leve frutado cítrico puxado para laranja e um pouquinho de doçura de mamão. Na boca, herbal e resina juntos no primeiro toque abrindo, na sequencia, para um perfil de amargor potente, mas não exagerado (60 IBUs bastante honestos), com reforço de pinho e resina além de leve espaço para o cítrico percebido no aroma, que soa coadjuvante. A textura é cremosa e picante (de amargor de lúpulo – aqui ele soa uma pancada). Dai pra frente, uma West Coast IPA caprichadíssima, com doçura felizmente comedida e amargor potente. No final, pinho e bastante resina. No retrogosto, o cítrico retorna junto com resina suave e pinho. Delicinha.

A segunda representante da Dádiva é uma cerveja bem especial: a Batom Vermelho é fruto do esforço de 20 confrarias e coletivos femininos cervejeiros de todo o país (encabeçados pela Confraria Maria Bonita), somando 470 mulheres, que se uniram para lançar um rótulo temático e alusivo ao Outubro Rosa, buscando conscientizar as mulheres sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. O estilo escolhido foi Catharina Sour, que recebeu adição de suco de maracujá e extrato de hibisco. O resultado é uma cerveja de coloração vermelha aroseada com creme avermelhado de baixa formação e nenhuma retenção. No nariz, frutado intenso remetendo claramente a maracujá, delicioso – o hibisco aparece de maneira bem sutil. Na boca, maracujá incrível com azedinho suave marca o primeiro toque seguido de doçura discreta, azedinho e mais maracujá com toque de hibisco. São apenas 3 IBUs, então não se preocupe com o amargor e mergulhe na refrescancia incrível. A textura é levemente efervescente e, dai pra frente, continua a sensação deliciosa de suco alcoólico (4.6%). No final, maracujá. No retrogosto, adstringência suave, doçura de hibisco, maracujá e azedinho. Uou, uma cerveja apaixonante!

Permanecendo em Várzea Paulista com a segunda Cerveja Capitu a passar por aqui. Após a Tilted Burn agora é a vez da Diadorim, uma Saison com mandioquinha em versão sem glúten que homenageia as mulheres fortes da literatura brasileira. Com coloração dourada levemente turva e creme branco de ótima formação e retenção, a Capitu Diadorim Gluten Free exibe um aroma com levedura em destaque além de presença de trigo e sugestões de banana, cravo e leve frutado – a mandioquinha aparece sutilmente. Na boca, frutado remetendo a banana com leve picância de levedura no primeiro toque seguido de trigo e sugestão de feno mais picância tradicional. O amargor é baixinho, 18 IBUs, e a textura, como se espera do estilo, é levemente picante (de levedura). Dai pra frente surge um conjunto de Belgian Saison bem caprichado e bastante agradável. No final, leve banana e condimentação. No retrogosto, mandioquinha, trigo, feno e condimentação discreta. Boa!

A segunda cigana da Capitu foi produzida no Brewcenter, em Ipeúna, interior de São Paulo, e é uma American Amber Ale cuja receita combina água, malte, maltes caramelos, lúpulo do Pacífico Norte dos Estados Unidos e levedura americana. De coloração âmbar translúcida com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção, a Capitu Amber Ale exibe um aroma com caramelo em destaque ladeado por notas cítricas (casca de laranja, toranja e maracujá) e um discreto herbal. Na boca, doçura caramelada com leve cítrico juntos no primeiro toque. Na sequencia, o cítrico se sobressai com toranja em destaque seguida de amargor moderado, 28 IBUs bastante justos e eficientes. A textura é cremosa e levemente picante. Dai pra frente, uma Amber Ale bem norte-americana, com lúpulos marcantes, muito cítrico e amargor moderado. No final, leve toranja e refrescancia. No retrogosto, mais cítrico (aqui maracujá), caramelo suave e refrescancia. Boa!

Produzida no bairro do Limão, zona norte capital paulista, em uma planta inaugurada recentemente pela Cervejaria Tarantino, a German Pils da casa nasce de uma receita que combina maltes Pilsen e Caramel Pils com os lúpulos Hallertau Mittelfrüeh, Saaz e Saphir. De coloração dourada cristalina com creme branco espesso, de boa formação e retenção, a Tarantino German Pils exibe um aroma com predomínio de notas maltadas e herbais remetendo a biscoito, pão, frutas secas e grama cortada. Na boca, doçura caramelada discreta no primeiro toque e amargor caprichado na sequencia, 40 IBUs que surpreendem. A textura é leve com picância discreta. Dai pra frente surge um conjunto leve, mas com bastante sabor, numa combinação que pode surpreender muito bebedor de Standart Lager. No final, amarguinho e chá. No retrogosto, mais herbal (pinho), leve biscoito e chá.

A segunda da Cervejaria Tarantino atende pelo nome de Miracle IPA, e é uma American IPA que traz um blend de sete variedades de lúpulos, incluindo Vic Secret, Cashmere, Ekuanot e Mosaic. De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Tarantino Miracle IPA apresenta um aroma com notas herbais no comando oferecendo pinho e grama cortada sobre uma base de mel e caramelo que ainda traz um leve off flavour de amanteigado. Na boca, a doçura melada chega antes no primeiro toque e o herbal, que parece preponderante no aroma, vem na sequencia, mas sem a mesma potência, sugerindo pinho e ervas. O amargor é médio, 44 IBUs bem comportados, e a textura leve com picância discreta – o offflavour presente no aroma desaparece no paladar. Dai para frente segue-se uma American IPA agradável e leve, para o verão (apesar dos 6.2% de álcool). No final, amargor leve e mel. No retrogosto, mel, pinho e um amargorzinho.

Retornando a Várzea Paulista com mais duas novidades da paulistana cigana Dogma, duas da nova linha Single Hop da casa, a Drop (a anterior era a Lover), cuja base é de American Pale Ale. A primeira utiliza o maravilhoso lúpulo norte-americano Citra, e exibe uma coloração amarelo palha levemente juicy, como um suco, com creme branco de média formação e retenção. No nariz, o lúpulo Citra dispara deliciosas notas tropicais, que se unem a uma paleta que ainda traz sugestão de mel, de grama cortada e de leve funky. Na boca, cremosidade, cítrico e picancia no primeiro toque. Na sequencia, mais cítrico, mas também herbal, picância de levedura, um leve floral e amargor moderado e agradável. A textura é levemente picante (de lúpulo e levedura) e, dai pra frente, segue-se um conjunto refrescante, com muito cítrico e leve herbal, finalizando com toque de abacaxi e picância. No retrogosto, refrescancia, cítrico e herbal. Delicia!

A segunda da linha Dogma Drop é a que utiliza o clássico lúpulo estadunidense Simcoe, mantendo a mesma base de American Pale Ale da anterior. Na taça, a cor já mostra ligeira diferença em relação a Drop Citra, já que mantém o amarelo palha, mas exibe pouco turbidez juicy, como a irmã (que está mais para NE enquanto a Simcoe está mais para Witbier). O creme é branco com média formação e boa retenção. No nariz, notas herbais sugerindo grama cortada, leve pinho e até ervas além de frutado (limão). Na boca, doçura rápida de malte seguida de frutado remetendo a limão, percepção de levedura e suave toque herbal. O amargor é baixo e bastante refrescante. Já a textura é levemente picante (tanto de lúpulo quanto de levedura) com forte remissão a limão. Dai para frente, a refrescância bate ponto com muito herbal, ervas e limão. No final, mais cítrico (limão) do que herbal. No retrogosto, refrescancia caprichada, limão e pinho. Delicinha.

Balanço
Abrindo a série com a Ampolis Forevis Session IPA, uma surpresa agradabilíssima, que, para se ter uma ideia, coloca no bolso a Perigosa Baby, Session IPA da renomada Bodebrown. Os cariocas mandaram muito bem nessa. Já a Ampolis Ditriguis soa meio confusa, com muita sugestão de mamão, nada de pimenta ou coentro, e muita doçura. Fraca. Não dá para dizer o mesmo da clássica West Coast IPA da Dádiva, a Another Bite, que desce tão bem que a lata de 473 ml desaparece rapidamente. Quero outra. E também quero mais uma Dádiva Batom Vermelho, que além de levantar a importante bandeira do #OutubroRosa, ainda é excelente. Isso daqui na beira de praia, uou! A Capitu Diadorim Gluten Free é uma boa oferta de cerveja saborosa para quem tem problemas com Gluten. Partindo agora para duas da Cervejaria Tarantino: a primeira é a German Pils, recriação caprichada do estilo alemão. A segunda, Tarantino Miracle IPA, é uma American IPA honesta e boa para o verão. Já a Citra Drop é a Dogma embarcando na formulazinha nada criativa das singles hops, mas é uma baita cerveja, inegavelmente. Seguindo na fórmula, a Simcoe Drop não traz o mesmo brilho da Citra, mas é uma delicinha também.

Ampolis Forevis
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,30/5

Ampolis Ditriguis
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 2,51/5

Dádiva Another Bite
– Produto: West Coast IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.90/5

Dádiva Batom Vermelho
– Produto: Catharina Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 3.90/5

Capitu Diadorim Gluten Free
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3.33/5

Capitu Amber Ale
– Produto: American Amber Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.33/5

Tarantino German Pils
– Produto: German Pils
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.02/5

Tarantino Miracle IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.25/5

Dogma Citra Drop
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3.91/5

Dogma Simcoe Drop
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3.69/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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