Música: “El Mal Querer”, Rosalía

Texto por Renan Guerra

A jovem espanhola Rosalía é um dos acontecimentos pops mais fortes de 2018. Nesses últimos meses ela ganhou dois Grammys Latinos, uma indicação ao BBC Sound of 2019 e está presente em quase todas as listas de melhores do ano, indo de Stereogum a New Yorker, sendo 6º melhor disco e clipe do ano na Pitchfork. Pra completar, Rosalía é um dos grandes headliners do Primavera Sound 2019, com seu nominho em fontes garrafais no mesmo nível de gente como Janelle Monáe, Erikah Badu e Solange.

Rosalía lançou “Los Ángeles”, seu primeiro disco, em 2017: acústico, o trabalho é basicamente calcado no flamenco. Delicada e cuidadosa, a estreia foi produzida ao lado de Raül Refree (que já trabalhou com gente como Lee Ranaldo, Silvia Pérez Cruz e Mala Rodriguez) e foi bem quista pela crítica espanhola. Porém foi seu segundo disco, “El Mal Querer” que transformou a cantora em um furacão: produzido ao lado de El Guincho (dos excelentes discos “Allegranza!”, de 2008, e “Pop Negro”, de 2010), o novo trabalho é uma mescla complexa entre flamenco, música eletrônica e música pop, tudo amalgamado pelo conceito dramático da novela “Flamenca”, um texto do século XIII, de autoria anônima, que inspirou Rosalía em suas canções sobre uma relação de amor que paira entre o devotado e o tóxico.

“El Mal Querer” caminha entre dois universos: o tradicional e o moderno; coabitam nas canções a influência global do pop e do hip-hop e a confluência regionalista do flamenco e de outros ritmos espanhóis, tudo casado de forma tão certeira que transformou Rosalía em uma representação muito forte da cultura espanhola atual – isso para o bem e para o mal: se seu primeiro disco lhe legou o epíteto de “a millenial que revolucionou o flamenco”, seu segundo disco causou a ira de muitos puristas, que acusam a artista de apropriação cultural.

Vamos aos fatos: o flamenco, enquanto música, canto e dança, são de origens andaluzas, isto é, da Andaluzia, uma das comunidades autônomas da Espanha. Já Rosalía nasceu em Barcelona, que fica na Catalunha, outra comunidade autônoma. Em suas canções, Rosalía utiliza acentos fonéticos típicos da Andaluzia, que remetem ao castelhano, porém em sua fala seu sotaque segue um padrão mais próximo do catalão. Para além da cultura andaluza, a cantora também é acusada de se aproveitar de forma errônea dos signos da cultura cigana. Os detratores falam que Rosalía embranqueceria a cultura cigana, levando ao grande público apenas o exotismo e deixando de lado todo o histórico de preconceito e silenciamento desse povo. A questão é complexa e gera diferentes debates na Espanha, já que os diferentes signos que constroem a obra de Rosalía vem de diferentes cantos do país, por isso, enquanto brasileiros, nos atemos apenas a apresentar esses vieses distintos.

Apesar das questões político-teóricas que têm movimentado a figura de Rosalía na Espanha, é inegável o seu caráter fundamental para que o mundo volte seus olhos de forma diferente para a cultura espanhola: o flamenco clássico surge em “El Mal Querer” comungado ao lado de gêneros como o hip-hop e a música eletrônica, dando ao ritmo uma lufada de ar das ruas, uma reapropriação e uma ressignificação de um gênero que parecia estagnado. Pneus cantando e facas sendo afiadas formam camadas sonoras para a voz intensa de Rosalía a cantar canções de amores dolorosas, sobre entrega, medo e solidão, no maior estilo espanhol. “Pienso Em Tu Mirá – Cap.3: Celos” e “Maldición – Cap.10: Cordura” são exemplos certeiros dessa união entre os signos do amor clássico espanhol com uma sonoridade e uma tensão das ruas.

Todos esses signos são explicitados nos videoclipes que acompanham o disco. “Pienso Em Tu Mirá” traz as referências ciganas modernas, com suas joias e suas danças, mas há ainda os caminhões estilizados, as referências à tourada e as danças coreografadas que remetem ao hip-hop. O figurino de Rosalía já é uma mescla confusa aos olhos dos puristas: agasalhos esportivos, por exemplo, são utilizados ao lado de calças flare com babados; e sua profusão de joias pode tanto remeter à cultura cigana quanto aos exageros hedonistas de muitos rappers.

“Malamente”, o grande hit desse disco, é que possui o clipe mais icônico: as touradas são revistas de forma pós-moderna, como que equiparadas aos rachas de rua e as motos tunadas (conversando aqui com referências fílmicas como “Eu Sou Juani” filme de 2006 de Bigas Lunas ou mesmo o sucesso teen espanhol “Paixão Sem Limites”, de 2010, de Fernando González Molina). Apropriação indevida ou não, a tourada motorizada do clipe é uma das coisas visualmente mais fortes e interessantes desse ano.

Um dos momentos curiosos e interessantes de “El Mal Querer” é a curta vinheta “Preso – Cap.6: Clausura”, com participação da atriz Rossy de Palma, a declamar um doloroso texto sobre entrega amorosa. Rossy é conhecida como uma das “atrizes fetiche” de Pedro Almodóvar, diretor fundamental do moderno cinema espanhol e que é amigo de Rosalía – tanto que um vídeo em que ela o ignora, por estar de fones de ouvido, se tornou um viral este ano na Espanha. Essa amizade será selada com a participação de Rosalía em “Dolor y Gloria”, nome provisório do próximo filme de Almodóvar, estrelado por Antonio Banderas e Penélope Cruz. Até o momento não se tem mais informações se a participação da cantora será como uma personagem do filme ou apenas em forma de musical – assim como Buika aparecia em “A Pele Que Habito” (2011) e Caetano Veloso em “Fale Com Ela” (2003).

No final das contas, “El Mal Querer” tem apenas crescido e tornado a figura de Rosalía num dos nomes mais comentados de 2018. É preciso louvar o fato de que ela tornou símbolos tão caros ao flamenco, como as palmas e o forte canto acústico, em um produto pop universal, se comunicando com diferentes audiências. Sua universalidade reside em trazer suas raízes locais para o global, cantando em espanhol sobre tensões e dores que são latentes em diferentes ritmos e sonoridades. De todo modo, é sua mão forte que consegue organizar toda a pompa e o conceito do disco para entregar um produto bem acabado, que funciona de forma tanto conceitual quanto pop, nas pistas de dança. Aparentemente, este é apenas o começo de uma carreira que só tende a crescer. Sigamos ouvindo Rosalía com atenção.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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