Boteco: Cervejas da Argentina, Bélgica, Dinamarca, EUA e Inglaterra

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova sequencia com dez cervejas de cinco cervejarias de cinco países diferentes pela Bélgica, mais precisamente por Lembeek, vila com pouco mais de 7 mil habitantes nos arredores de Bruxelas que a famosa Brouwerij F. Boon, que passou por aqui com essa Kriek Boon na safra 2007, mas resenhada em 2009, e agora retorna com a safra 2016 em 2018. É uma receita feita com o blend de Lambics jovens e envelhecidas ao qual é acrescido cerejas (cada litro de cerveja recebe ao menos 250 gramas de cereja). De coloração vermelha com creme branco e avermelhado clarinho de boa formação e rápida dispersão, a Kriek Boon apresenta um aroma intensamente frutado e adocicado, remetendo a cereja, claro. Na boca, doçura de cereja intensa no primeiro toque, que permanece marcante na sequencia e vai abrindo caminho com doçura e frutado. A textura é suave e, dai pra frente, segue um conjunto com bastante presença de doçura de cereja, e nada de funky. No final, cereja. No retrogosto, cereja.

A segunda da Boon é um ícone belga, a Oude Geuze Mariage Parfait, uma Geuze fruto da blendagem de uma Geuze maturada em barris de carvalho por três anos com uma Geuze jovem, ainda arisca. Ela ainda envelhece um pouco na garrafa antes de ir ao público. Esse exemplar, 2013, exibe coloração meio amarelada, meio alaranjada, com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção. No nariz, a tradicional sugestão campestre do estilo que reúne couro, pelo de cavalo, celeiro, fazenda mais sugestão de azedume, doçura baixa e leve remissão a uva verde (e vinho branco). Na boca, doçura leve no primeiro (algo de laranja) atropelada por deliciosa aridez acompanhada de azedume e sugestões campestres (couro, celeiro) suaves. A textura é picante, marcante, levemente azeda. Dai pra frente, uma Geuze popular deliciosa, que não amacia nas características básicas do estilo, e leva o bebedor para uma fazenda belga. No final, azedume e rancho. No retrogosto, leve doçura, laranja, fazenda, celeiro, uma delícia.

Da Bélgica atravessamos o Atlântico para pousar na América e chegar ao Pacifico, mais precisamente a São Francisco, casa da cervejaria californiana Cellarmaker, aqui presente primeiramente com a DDH Pale Ale 5 Year Anniversary, uma pancada de lúpulo cujo blend une Strata, Galaxy, Nelson Sauvin, Citra e Mosaic. De coloração amarela, juicy como um suco de laranja, e creme branco de baixa formação e média retenção, a Cellarmaker DDH Pale Ale 5 Year Anniversary apresenta um aroma danadamente cítrico com sugestão de laranja, abacaxi e lima além de percepção tanto de potência da levedura quanto de antecipação de amargor. Na boca, o primeiro toque traz frutas tropicais logo esmigalhadas pela potência de amargor (a lata fala em 36 IBUs, mas dá pra cravar uns 50 fácil) e, principalmente, pela aridez da levedura, que bate no céu da boca e deixa um rastro da laranja ácida para traz. A textura é suave e picante (tanto de levedura quanto de lúpulo) e, dai pra frente, o tradicional exagero made in USA continua, sem, no entanto, construir algo. É só amargor e levedura com cítrico torneando. No final, adstringência e picância de levedura. No retrogosto, adstringência, cítrico, mineral.

A segunda californiana da Cellarmaker e trata-se de uma Double IPA, a Dank Williams, lançada em agosto de 2014 e desde então um hit da casa. Na receita, uma pancada de lúpulos: Mosaic, Simcoe e CTZ na fervura e double dry hopping com Nelson, Motueka e Centennial. De coloração dourada e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Cellarmaker Dank Williams exibe um aroma com muito cítrico e também muito herbal: há maracujá e abacaxi como também pinho, resina leve e suave percepção de álcool (8.2%). Na boca, herbal e cítrico se abraçam deliciosamente no primeiro toque seguidos de sugetão de pinho, abacaxi, pêssego e laranja além de amargor, que não chega aos 95 IBUs que a lata antecipa, mas é mais do que 70 (o que já está de bom tamanho). A textura é suave com leve picância. Dai pra frente segue-se um conjunto tradicionalmente estadunidense (e californiano), mas com uma pegada bem bacana. No final, cítrico e leve resina, suave. No retrogosto, maracujá, abacaxi e herbal. Gostei.

Dos Estados Unidos retornamos à Europa para a quarta e quinta cervejas da dinamarquesa Amager Bryghus a passarem por aqui. Começando pela The Viking Oatmeal Stout, que traz uma bandeira do Brasil (?) no rótulo e uma historinha tola sobre vickings que se perderam no mar e foram parar na Escócia (??), onde acabaram numa discussão acalorada sobre qual a melhor cervejaria: Brewdog ou Mikkeller? (???). Bem, a Amager The Viking exibe uma coloração marrom escura quase preta e creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, uma combinação de notas doces (achocolato leve) com derivados de torra (café bem discreto) além de leve percepção de defumação. Na boca, doçura achocolatada com leve láctico no primeiro toque seguida de suave presença de café e de torra. O amargor é baixinho e a textura leve. Dai pra frente segue-se um conjunto bastante suave de Sweet Stout, com chocolate, torra e defumado discreto chamando a atenção. No final, doçura e leve café. No retrogosto, chocolate, café e leve torra.

A outra Amager presente na sequencia é a The Clansman, uma Wee Heavy produzida especialmente para o clube brasileiro Beer (a anterior também, por isso a bandeira do Brasil no rótulo) por Mariana Schneider, brasileira que é das mestres-cervejeira da Amager. Na receita, blend com os maltes Pale Crystal, cevada torrada, centeio e trigo, lúpulos Centennial e Lemondrop e levedeura Ale inglesa. Na taça, a The Clansman exibe uma coloração marrom translucida com creme bege de baixa formação e média retenção. No nariz, doçura caramelada, leve tosta mais toffee e café bem suave. Na boca, doçura de caramelo e leve chocolate no primeiro toque seguido de mais doçura achocolatada e amargor bem baixinho, quase inexistente. A textura é suave com leve picância alcoólica. Dai pra frente, uma cerveja com bastante doçura, e que soa interessante, ainda que não surpreenda. No final, leve achocolatado. No retrogosto, chocolate, toffee e caramelo. Esperava mais (das duas).

Da Dinamarca partimos para a Inglaterra com duas cervejas da linha Vintage Ale da mítica Fuller’s. Trata-se de uma Old Ale safrada que começou a ser produzida anualmente em 1997 (a Vintage Ale deste ano custa hoje, no site da cervejaria, apenas R$ 2.500,00!) com o que o mestre cervejeiro da casa considera os melhores ingredientes do ano. No caso desta versão 2014 (apenas R$ 200 no site oficial), os maltes escolhidos foram Pale, Crystal e Barley. Já os lúpulos foram Goldings, Liberty e Cascade. O resultado é uma cerveja âmbar com creme bege espesso de ótima formação e média alta retenção. No nariz, caramelo, toffee, grapefruit e suave percepção de álcool (8.5%). Na boca, toffee no primeiro toque seguido de herbal, caramelo, frutado (figo), amargor baixo e álcool médio. A textura é suave e levemente picante (de álcool). Dai pra frente bastante caramelo, toffee além de presença de álcool. No final, caramelo e toffee e álcool, as mesmas sugestões que marcam presença no retrogosto.

A segunda da série Vintage Ale da Fuller’s é a da safra 2016, que traz os maltes Maris Otter e Barley além dos lúpulos Target, Northdown, Challenger e Goldings (uma alteração e tanto se comparado com a versão 2014). De coloração âmbar com creme bege espesso de ótima formação e média alta retenção, a Fuller’s Vintage Ale 2016 exibe um aroma que junta sugestão de doçura caramelada, alcaçuz, madeira, toffee, biscoito e conhaque. Há, ainda, um discreto toque herbal. Na boca, doçura e conhaque no primeiro toque, delicioso, abrindo-se com mais presença de caramelo, sugestão de biscoito, calor alcoólico (os mesmos 8.5% da anterior) e nada de amargor. A textura é suave e bastante picante (de álcool). Dai pra frente segue-se um conjunto delicioso, com sugestão de madeira, caramelo, toffee e conhaque. No final, caramelo e conhaque. No retrogosto, biscoito, caramelo, conhaque, madeira e álcool. Gostei bem mais do que da anterior!

Da Inglaterra para a Argentina, com duas receitas especiais da Juguetes Perdidos, que diferem da linha tradicional em lata que apareceu meses atrás por aqui, e se aproxima da sensacional linha de cervejas selvagens Los Bichos Mandam, anterior a Juguetes. A primeira é a Brett’a Porter, uma Strong Baltic Porter (de 11.2% de álcool) maturada com levedura Brettanomyces Clausenii e Lambicus) em barricas que antes maturaram vinho Malbec. De coloração marrom escura, quase preta, e creme bege escuro de boa formação e média alta retenção, a Brett’a Porter exibe um aroma puxado para o vinho e para frutas vermelhas (tanto casca de uva quanto cereja) com leve percepção de álcool, de tosta (mas não puxado para caramelo, como normalmente), de alcaçuz e ameixa suave. Na boca, doçura de frutas vermelhas com leve tosta no primeiro toque seguida de percepção vinilica e de álcool. A textura é suave e picante (de álcool, bastante perceptível sobre a língua). Dai pra frente, segue-se um conjunto que remete a vinho com frutas vermelhas. No final, picância alcoólica. No retrogosto, calor alcoólico, tosta, alcaçuz e frutas vermelhas.

Fechando o passeio com outra cerveja especial da Juguetes Perdidos: em 2016, Pete Slosberg, pioneiro da revolução da cerveja artesanal nos EUA, esteve no júri da 1º La Copa Argentina de Cervezas, e no embalo fez uma colaborativa com a Juguetes, uma Imperial Porter Whisky Barrel Sour Cherries, com cerejas Montmorency maturadas por 12 meses numa barrica que antes maturara uísque. O resultado é uma cerveja de coloração marrom escura com creme bege de baixa formação e nenhuma retenção. No nariz, doçura de caramelo tostado, de cerejas e de chocolate amargo. Há, ainda, leve percepção de café, de coco e de uísque. Na boca, bastante percepção de cereja no primeiro toque seguida de leve chocolate amargo, coco e uísque além de um toque sutil dos 10% de álcool. A textura é sedosa, com discreta picancia alcoólica. Dai pra frente segue-se um conjunto elegante, com percepção suave da cereja e do uísque, além de chocolate amargo e caramelo tostado. No final, doçura e leve álcool. No retrogosto, calor alcoólico, chocolate, uísque e cereja. Delicia!

Balanço
Abrindo a série com a Kriek Boon, uma delicinha… para quem gosta de doçura e cereja… intensas. Já a Boon Geuze Mariage Parfait é tudo que o estilo Geuze promete, e é uma delícia. Se passar pela sua frente, não perca (e não desista no primeiro gole). Já a Cellarmaker 5 Year Anniversay Pale Ale me parece o típico exagero norte-americano a troco de nada. Tudo demais e a cerveja fica de menos. A Cellarmaker Dank Williams me pareceu mais caprichada e deliciosa, curti. Após três ótimas Amagers passando por aqui, a quarta, a The Viking Oatmeal Stout, deixou a desejar. Boazinha e tal, mas nada demais. A quinta Amager, The Clansman, também não impressionou, uma pena. A Fuller’s Vintage Ale 2014 é uma baita Old Ale, mas a 2016 é ainda melhor na composição de maltes e lúpulos. Adorei. Da Argentina, a Juguetes Perdidos segue o padrão selvagem da Los Bichos Mandam com uma Strong Baltic Porter com reminiscências de vinho Malbec. Sensacional. Para fechar com chave de ouro, Juguetes Perdidos Imperial Porter Whisky Barrel Sour Cherries, uma delícia que combina cereja, caramelo, chocolate e uísque!

Kriek Boon
– Produto: Kriek
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3.10/5

Boon Geuze Mariage Parfait
– Produto: Geuze
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4.12/5

Cellarmaker 5 Year Anniversay Pale Ale
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5.7%
– Nota: 3.39/5

Cellarmaker Dank Williams
– Produto: Double IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8.2%
– Nota: 3.70/5

Amager The Viking
– Produto: Sweet Stout
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5.7%
– Nota: 3.07/5

Amager The Clansman
– Produto: Wee Heavy
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.16/5

Fuller’s Vintage Ale 2014
– Produto: Old Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.50/5

Fuller’s Vintage Ale 2016
– Produto: Old Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.82/5

Juguetes Perdidos Brett’a Porter
– Produto: Strong Baltic Porter
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 11.5%
– Nota: 4.10/5

Juguetes Perdidos Imperial Porter Whisky Barrel Sour Cherries
– Produto: Imperial Porter
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 4.10/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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