O imprevisível Christian Fennesz

entrevista por Marco Antonio Barbosa

“É um compositor e músico austríaco que utiliza elementos de ruído branco”, garante uma das apresentações distribuídas á imprensa a respeito dos dois shows que Christian Fennesz fará no Brasil no primeiro fim de semana de dezembro. Outra definição, mais poética (e mais vaga), vem do segundo release: “É conhecido a partir de seu próprio mundo musical”. Tá certo, tá certo. É difícil mesmo traduzir em palavras o transe sinestésico provocado pelos sons que saem da guitarra e dos computadores empregados por Fennesz como ferramentas preferenciais no estúdio e no palco. É shoegaze eletrônico? Ambient techno? Glitch sinfônico?

Desde meados da década de 1990, o músico se especializou em borrar as fronteiras entre o eletrônico e o acústico, o plangente e o agressivo, a dissonância e a serenidade – em temas impressionistas que revelam infinitas e inesperadas filigranas a cada nova audição. Seja solo, em discos consagrados pela crítica como “Endless Summer” (2001) e “Venice” (2004), seja em parcerias com nomes como Ryuichi Sakamoto, Jim O’Rourke ou Sparklehorse, os sons produzidos pelo austríaco escapam de classificações previsíveis.

Tanto é assim que nem mesmo o próprio Fennesz – que conversou com o Scream & Yell sobre suas apresentações em São Paulo (Sesc Pompeia, 6 de dezembro) e no Rio de Janeiro (Festival Novas Frequências, 7 de dezembro) – sabe antecipar com certeza qual será o repertório dos shows. “Nunca chego a montar um setlist de verdade. Vou mais ou menos improvisando sobre trechos e partes do meu catálogo”, anuncia o músico, que estará sozinho no palco. Seu arsenal resume-se a uma guitarra (uma Fender Jaguar, não por acaso o modelo favorito de guitarristas como Kevin Shields e Thurston Moore) e dois laptops, além de “um monte de pedais de efeitos”, complementa o austríaco de 55 anos. “Definitivamente vou tocar algumas partes de meu novo álbum, “Agora”, que acabei de gravar há apenas algumas semanas. Espero encontrar um público com a mente aberta.”

Em seus trabalhos mais conhecidos, Fennesz interpola ambiências eletrônicas dissonantes e densas camada de drones com ricas texturas de guitarra que já renderam comparações com o My Bloody Valentine e Manuel Gottsching. De um panorama sonoro aparentemente denso e impenetrável, surgem do nada momentos de beleza hipnótica, como “Circassian” (de “Venice”) ou a faixa-título de “Endless Summer”. Sobre o próximo disco, o músico afirma que será “mais sinfônico” que “Bécs”, o último trabalho solo, de 2014. “Usei mais sintetizadores desta vez. Até mesmo um Synclavier”, conta, referindo-se ao synth/sampler digital que revolucionou a produção de música eletrônica nos anos 1980 (até o RPM usou um na época…)

Por conta do vindouro lançamento de “Agora”, Fennesz diz não ter planos de embarcar tão cedo em um novo projeto coletivo. “Tive sorte de ser chamado para colaborar com todos esses grandes músicos. Aprendo coisas novas a cada colaboração”, diz ele sobre a longa lista de discos gravados em parceria com outros nomes. O mais recente foi “It’s Hard for me to Say I’m Sorry” (2016), junto a Jim O’Rourke. “É um privilégio. Gosto de trabalhar sozinho, mas às vezes, como músico, sinto falta da interação humana.”

Christian Fennesz se apresentou no Brasil em maio de 2005, quando o país vivia em um clima político bem diferente do atual. O músico é conhecido por suas posturas progressistas: em março último, cancelou sua participação em um festival na Alemanha por causa dos comentários misóginos de um dos produtores do evento. “Não sou um ativista. Mas mulheres se sentiram insultadas por aqueles comentários. Sou contra boicotes, mas não poderia me apresentar em um evento no qual as mulheres poderiam se sentir desconfortáveis”, pondera.

“Toco para meus fãs, onde quer que seja, e meus fãs são pessoas progressistas e têm meu apoio”. Sobre a conturbada atmosfera política do Brasil, Fennesz acredita que não tem o direito de se manifestar. “Especialmente porque meu país natal hoje vive sob um governo de extrema direita também. Estou ciente da situação no Brasil e sei que não é muito diferente do que se passa em muitos outros países hoje. Mas, como austríaco, não é o momento de apontar o dedo para ninguém.”

– Marco Antonio Bart (@bartbarbosa) é jornalista e músico. Conheça o projeto Borealis e também seu canal no Medium: https://medium.com/telhado-de-vidro

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