Boteco: 10 países, 10 cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova série de países cervejeiros por País de Gales com a Tiny Rebel Fubar, uma American Pale Ale de coloração dourada levemente turva e creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, notas florais se destacam em um conjunto que ainda permite perceber frutas cítricas, leve herbal, resina, doçura maltada e biscoito. Na boca, doçura cítrica bem suave no primeiro toque seguida de herbal, resina leve e um amargor pontual, mas bastante interessante (em seus 30 IBUs). A textura sobre a língua é levemente picante no começo e vai se tornando cremosa conforme a língua se acostuma com a frisância. Dai pra frente segue-se uma American Pale Ale galesa bem caprichada, com notas florais, herbais e cítricas bem equilibrados, amargor e doçura notadamente moderados, mas perceptíveis, e um final levemente amargo e herbal. No retrogosto, leve herbal, um pouco de secura e adstringência leve numa cerveja que mantém o padrão percebido na Full Nelson e na Hadouken.

Do País de Gales nós atravessamos o Atlântico em direção a Grand Rapids, no Michigan, casa da mítica Founders Brewery, que retorna a este espaço com a Sumatra Mountain, uma Imperial Brown Ale que recebe adição de café da ilha de Sumatra, na Indonésia, numa receita que ainda traz maltes Munich e um blend de lúpulos alemães com o norte-americano Perle. De coloração marrom translucida com creme bege de boa formação e média alta retenção, a Founders Sumatra Mountain exibe forte aroma de… café (risos). Forte e delicioso. Assim que o nariz se acostuma começam a surgir nuances de tosta e, também, chocolate amargo, ameixa e pão preto. Na boca, café no primeiro toque e ainda mais incrível na sequencia, com a potência sendo acrescida de sugestão de baunilha, caramelo tostado e delicioso chocolate meio amargo. A textura é suave, quase sedosa, com os 9% de álcool pinicando a língua, mas se mantendo lindamente escondidos. No final, …café. O retrogosto reforça ainda a presença do café, mas acrescenta chocolate ao leite (interessante como vai a percepção de chocolate vai mudando) e leve caramelo tostado. Excelente.

De Michigan para Salvador, casa da cigana Bold Brewing, que produziu essa Dark Neon na fábrica da Dádiva, em Várzea Paulista, uma Sour com polpa de amora e polpa de framboesa. Na taça, a Dark Neon exibe uma belíssima coloração vermelha bastante escura com creme avermelhado de baixa formação e rápida permanência. No nariz, a paleta aromática é provocante trazendo tanto café, chocolate e leve sugestão de torra quanto as frutas vermelhas adicionadas na receita, mas sem tender a bolo Floresta Negra – há mais aridez sour no conjunto do que a doçura marcante no bolo. E isso pode ser percebido logo no primeiro toque, com acidez e fruta muito mais presente do que derivados da torra – a sugestão de café e chocolate aparecem logo na sequencia, complexando o conjunto provocante, que capricha na acidez (amargor zero, característica do estilo). A textura é frisante com acidez a frutado dançando sobre a língua. Dai pra frente, um conjunto bem maluquinho, mas que entrega o que promete (sour, torra e frutas vermelhas), com maestria. No final, acidez, um leve salgado e frutas vermelhas. No retrogosto, mais acidez, mas baixa adstringência. Há, ainda, frutas vermelhas e leve derivação de torra.

Do Brasil para o Japão com a Asahy Super Dry, carro chefe da mega cervejaria baseada em Tóquio, a Asahi Breweries Ltda, que não só possui 38% do mercado local (estando à frente da Kirin, por exemplo) como comprou da poderosa Inbev cervejarias como Grolsch, Peroni, Meantime e SABMiller (que tem em seu portfólio a mítica Pilsner Urquell). Ou seja, não é pouca coisa. No caso desta Japanese Rice Lager (isso mesmo, com arroz, cevada, amido de milho, lúpulo, levedura e água), trata-se de uma cerveja de coloração dourada com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, aroma herbal discreto além de doçura de malte e pão bem leves, tudo muito sutil, para não incomodar o paladar padrão. Na boca, a mesma leveza antecipada pelo aroma bate ponto no primeiro toque com malte e lúpulo herbal bem discretos apostando em seu maior diferencial: a refrescancia. O amargor é baixo (16 IBU, mas soa ainda menos) e a textura, seca, característica que retorna no final, seco. No retrogosto, refrescancia. Uma boa Standart Lager popular no nível de algumas das melhores do estilo.

Do Japão para Tilburg, na Holanda, casa da Swinkels Family Brewers (ex-Bavaria Brewery), cervejaria comandada pela mesma família a 7 gerações e especializada em Malt Liquors, já presente aqui muito tempo atrás com a 8.6 Red Lager e retornando agora com a 8.6 Gold, uma Strong Pale Lager que exibe uma coloração mais para o âmbar do que para o dourado com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, doçura caramelada e de mel intensa (uma característica da linha 8.6) permitindo ainda percepção de frutado (puxado para manga e pêssego beeem discretos) e floral. Na boca, pancada de doçura no primeiro toque com caramelo e mel escorrendo por todos os lados. Na sequencia, um tiquinho de pêssego e absolutamente nada de amargor (mas presença leve de álcool, 6.5%). A textura é cremosa, quase melada, e picante (de álcool, que aqui aparece de maneira excessiva). Dai pra frente, uma Malt Liquor potente, mas dentro da linha da 8.6, mais aceitável, ainda que possa prejudicar o drinkability. O final é… doce, bem doce. No retrogosto, pêssego e caramelo.

De trem ou ônibus partimos (numa viagem de cerca de 10 horas) de Tilburg a Edimburgo, na Escócia, casa da cervejaria Innis & Gunn, que retorna ao site com sua quarta cerveja (as outras três aqui), uma Session IPA com lúpulos made in USA (o trio Citra, Simcoe e Centennial) e graduação alcoólica de 4.6%. De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e media alta retenção, a Innis & Gunn Session IPA apresenta um aroma bem suave com notas cítricas e herbais tímidas, mas presentes, sobre uma base suave de biscoito. Na boca, maior presença de lúpulo no primeiro toque, puxado para herbal, mas com um leve cítrico surgindo na sequencia e um amargor baixo e comportado além de leve anis. A textura é cremosa e levemente picante, mas bem leve mesmo. Dai pra frente, uma Session IPA refrescante, como tem que ser, mas com lúpulo tímido perto de uma boa Session made in USA. No final, leve cítrico, leve herbal, leve biscoito, leveza.

E de trem ou ônibus voltamos (numa viagem de cerca de 10 horas) de Edimburgo para Breendonk, na Bélgica, casa da toda poderosa cervejaria Moortgat, responsável por, entre outras, as cervejas Duvel e Maredsous, além da linha Vedett, que já passou por aqui em sua bela versão Extra White, na mediana Extra (English) IPA e, agora, é representada pela Extra Session IPA, uma cerveja de coloração dourada e creme branco de boa formação e permanência. No aroma, notas herbais suaves sugerindo ervas, pinho e camomila além de um discreto cítrico (limão) sobre uma base de pão e biscoito. Na boca, leve herbal no primeiro toque (ervas) acrescido de leve cítrico na sequencia com leve amargor acompanhando (os 45 IBUs declarados devem ser de brincadeira, porque ela não chega nem a 20). A textura traz leve cremosidade e, dai pra frente, segue-se um conjunto bem tímido, leve e refrescante, que finaliza de maneira seca. No retrogosto, limão, camomila, ervas, pinho e refrescancia, tudo beeeem levezinho.

Mantendo-se na estrada, de trem ou ônibus, numa viagem de cerca de 9 horas de Breendonk para Faxe, na Dinamarca, cidade que denomina essa grande cervejaria local, uma das principais do país no quesito exportação. Após a passagem da Faxe Witbier agora é a vez da Faxe Mosaic IPA, receita lançada pela casa (especializada em questionáveis Malt Liquors alcoólicas) no primeiro semestre de 2017. De coloração âmbar translucida e creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção, a Faxe Mosaic IPA exibe um aroma com a doçura de caramelo e a sugestão de biscoito derivadas do malte lutando por espaço com cítrico (maracujá e laranja) e floral derivados da lupulagem num conjunto meio IPA do Atlântico, mas mais para a Europa. Na boca, caramelo no primeiro toque seguido de laranja e maracujá e mais doçura, porém, tudo suave como uma English IPA deve ser. A textura é suave com um tiquinho de sedosidade e picância. Dai pra frente, segue-se o perfil de Caramel IPA, com cítrico, floral e doçura até o final, cítrico e amarguinho. No retrogosto, laranja e caramelo.

Da Dinamarca, pegamos a estrada novamente e seis horas depois chegaremos a Nyköping, na Suécia, casa da Nils Oscar, que retorna ao site com sua RökPorter, uma Smoked Porter que tem 80% do malte defumado em madeira de faia (na maltaria da própria família) e o blend restante feito de três tipos de malte caramelo com a tosta feita em diferentes fases do processo (uma mais tostada, uma média e outra menos). De coloração marrom escura translucida com creme bege de baixa formação, mas boa retenção, a Nils Oscar RökPorter apresenta um aroma com delicado defumado facilmente perceptível, mas permitindo espaço tanto para toffee quando caramelo e até um toque láctico. Na boca, uma doçura caramelada discreta marca o primeiro toque e é atropelada na sequencia por um defumado contagiante, que traz consigo leve amargor, café e toffee. A textura é mais leve do que se espera e, dai pra frente, surge uma Smoked Porter deliciosa, que entrega o que promete, e muito mais (caramelo, toffee, café). No final, defumadinho e láctico. No retrogosto, cappuccino, leite, café, toffee e defumado. Delicia.

Encerrando o passeio por 10 países em São Petersburgo, na Rússia, com uma cerveja da série especial Brew Collection da cervejaria Baltika, que aqui marca presença com sua Russian Imperial Stout, que busca recriar a magia da famosa RIS britânica Courage. De coloração marrom escura translucida com creme bege espesso de ótima formação e média alta retenção, a Baltika Brew Collection RIS exibe um aroma com bastante caramelo tostado, calda de ameixa, passas e álcool, este último em 10% muito bem perceptíveis. Na boca, doçura achocolatada no primeiro toque seguida de calda de ameixa, café bem suave e álcool, muito mais sútil quando a cerveja alcança temperatura mais elevada. A textura é suave, vai se tornando sedosa e bastante picante (de álcool). Dai pra frente surge uma cerveja que soa um meio do caminho entre uma RIS e uma Barley Wine, com doçura e álcool bem presentes. No final, doçura e calor. No retrogosto, caramelo tostado e leve café.

Balanço
Mantendo o padrão estabelecido pelas Tiny Rebel Full Nelson e Hadouken, a Fubar é uma APA bem corretinha e saborosa. Ainda mais saborosa é a sensacional Founders Sumatra Mountain, que não economiza no café. Boa e um tanta maluca, a baiana Bold Dark Sour provoca com a junção de torra, sour e frutas vermelhas, que fica excelente. A Asahy Super Dry é uma Standart Lager bem ok para o estilo. A 8.6 Gold Blond Beer é uma Malt Liquor tradicional da casa, beeem doce, mas menos enjoativa que outras do catálogo da 8.6. Já a Innis & Gunn Session IPA utiliza timidamente lúpulos made in USA, e o que pra eles pode parecer uma grande mudança, pra nós é mais do mesmo. Básica e interessante, ainda assim. A Vedett Extra Session IPA deixa a sensação de que belgas não deveriam entrar nessa de IPA, porque não manjam. Fraquinha. Já a Faxe Mosaic IPA é corretinha, mas nada demais. Melhor, aliás, muito melhor é a Nils Oscar Rökporter, uma Smoked caprichadíssima na turfa. Fechando, uma mediana RIS russa da Baltika;

Tiny Rebel Fubar
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: País de Gales
– Graduação alcoólica: 4.4%
– Nota: 3,34/5

Founders Sumatra Mountain
– Produto: American Brown Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 4/5

Bold Dark Neon
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.91/5

Asahi Super Dry
– Produto: Japanese Rice Lager
– Nacionalidade: Japão
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 2.75/5

8.6 Gold Blond Beer
– Produto: Euro Pale Lager
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 2.40/5

Innis & Gunn Session IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Escócia
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 3.00/5

Vedett Extra Session IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 2.7%
– Nota: 2.70/5

Faxe Mosaic IPA
– Produto: English IPA
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5.7%
– Nota: 3.02/5

Nils Oscar Rökporter
– Produto: Smoked Porter
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5.9%
– Nota: 3.40/5

Baltika Brew Collection Russian Imperial Stout
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Rússia
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3.15/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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