Boteco: Cinco cervejarias nacionais, Dez Cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova sequencia de nacionais por Varzea Grande, interior de São Paulo, com mais uma cerveja da cada vez mais badalada Dádiva, aqui representada pela Golden Stout, “uma cerveja com características típicas de uma Stout, mas com uma cor dourada”, cuja receita recebe adição de Cold Brew derivado de café (extraído a frio) de cultivo orgânico da Fazenda Ambiental Fortaleza, de Mococa, também interior de São Paulo. De coloração âmbar clara e creme bege de boa formação e media retenção, a Dádiva Golden Stout exibe um aroma com predominância de café verde no aroma, que ainda traz sugestão de cacau e de doçura de caramelo maltado. Na boca, café nítido e delicioso no primeiro toque abrindo levemente para caramelo e cacau na sequencia, mas sem perder o domínio do conjunto, cujo amargor de 35 IBUs parece ainda menor (20? Talvez 15?) devido a doçura caramelada e a maciez do Cold Brew. A textura traz uma leve acidez inicial e depois se torna levemente cremosa com nenhuma percepção dos 6.7% de álcool, um mérito. Dai pra frente, uma cerveja saborosa, com Cold Brew bastante presente além de doçura de caramelo. No final, café verde bem suave e delicioso. No retrogosto, café verde mais suave ainda e caramelo. Delicinha.

A segunda da Dádiva é uma Speciality Beer, a Mint Leaves, cuja receita (preparada para a Páscoa) recebe adição de cacau e hortelã. De coloração marrom escura com creme bege claro de boa formação e média retenção, a Dádiva Mint Leaves apresenta um aroma com percepção fácil de hortelã, que se sobrepõe ao chocolate amargo, também facilmente perceptível. Além dos dois ainda é possível sentir sugestão de nozes e café. Na boca, forte herbal no primeiro toque puxado para hortelã com o cacau equilibrado na sequencia numa bela combinação com chocolate. O amargor é baixo e o álcool (7.1%) começa a dar as caras conforme a cerveja aquece e, também, sobre a língua, acrescentando picância ao perfil suave (com ela gelada, o álcool soa bem comportado). Dai pra frente, uma cerveja provocante, mas levemente enjoativa, com hortelã, chocolate e café disputando a atenção do bebedor até o finalzinho, mentolado. No retrogosto, adivinha? Chocolate, café e hortelã. Ok.

De Várzea Grande partimos para Ribeirão Preto, ainda no interior de São Paulo, com a primeira da Invicta (de duas) retornando ao site, desta vez a New Sensession, uma Session IPA com dry-hopping de lúpulo Mosaic que exibe uma coloração dourada translucida e creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, uma combinação de notas frutadas cítricas com herbal além de uma sensação de amanteigado, que vai e volta, e de pão e biscoito, suaves. Na boca, equilíbrio entre cítrico e herbal no primeiro toque, amanteigado na sequencia com presença maior de herbal logo depois até o amargor equilibrar a contenda – ainda que de maneira suave, 35 IBUs. A textura é cremosa e, dai pra frente, segue-se um conjunto bem suave e refrescante, ainda que com a sensação de manteiga atrapalhando o percurso. No final, cítrico e herbal suaves. No retrogosto, laranja, pinho discreto e refrescancia.

A segunda da Invicta é a No Grain No Gain, uma Oatmeal Stout cuja receita recebe aveia, cevada torrada e extrato aromático de café (no processo de fervura). O café escolhido é um Italian Blend, 90% arábica e 10% Robusta, oriundo da região da beira da Serra da Mantiqueira. De coloração marrom escura translucida com creme bege claro de ótima formação e longa retenção, a Invicta No Grain No Gain exibe um aroma com presença assertiva de… café. As notas de chocolates, tradicionais do estilo, não batem ponto neste conjunto, que acaba trazendo ainda leve presença de torra. Na boca, mais café no primeiro toque com leve percepção de fumaça e cigarro na sequencia e amargor bem baixo. A textura é suave, mas com corpo bem baixo (principalmente para o estilo). Dai pra frente, uma Oatmeal Stout bem leve e com café acentuado e nada de chocolate (já harmonizando com um cigarrinho na janela, deve descer beeeem). No final, café. No retrogosto, mais café e um pouco de torra.

De São Paulo para o Paraná com duas receitas caseiras do casal cervejeiro Tony Aiex e Aline Krupkoski, da Cervejaria Las Vegas. A primeira delas é a Salvação, uma Mandioca Blond Ale especialmente feita para a banda BTRX, que queria mandar um press kit diferente para a imprensa “e fez a conexão da mandioca com a temática indígena do disco deles, ‘Motirõ’” (2016). O nome da cerveja pega carona no clipe lançado para a canção “Salvação” no final de 2017. Na receita, maltes Pale Ale e Vienna e lúpulos Amarillo e Simcoe. De coloração dourada com creme branco de ótima formação e permanência, a Las Vegas Salvação exibe um aroma suave de malte sugerindo pão, biscoito e cereais como pede o figurino do estilo. Na boca, percepção maltada (mas sem doçura) com uma pegada seca no primeiro toque mais cereais e biscoito na sequencia. O amargor é baixo (24 IBUs) e a textura vai de secura a cremosa de maneira rápida. Dai pra frente, uma Blond Ale totalmente dentro do estilo, que finaliza seca e com leve adstringência. No retrogosto, mais secura, refrescancia e malte.

A segunda caseira de Tony e Aline é a Penumbra, uma Imperial Coffee Stout cuja receita combina os maltes Chocolate, Pale Ale, Maris Otter, Crystal e cevada torrada com os lúpulos Galena, Chinook e East Kent Goldings. Há, ainda, adição de açúcar mascavo e café, e também dry-hopping de café numa receita que, segundo Tony, foi inspirada em uma cerveja da escocesa Brewdog. De coloração marrom bastante escura, praticamente preta, com creme bege escuro espesso de boa formação e retenção, a Las Vegas Penumbra exibe um aroma com notas intensas de café dominando o conjunto, que ainda traz sugestão de torra e sutil presença de chocolate amargo. Na boca, bela replicação do que o aroma adianta, com café levemente adocicado no primeiro toque, seguindo-se torra, caramelo tostado e leve amargor (mas nada dos 8.5% de álcool). A textura é sedosa, cremosa. Dai pra frente, um conjunto excelente, que valoriza bastante o café e finaliza levemente defumado e amargo. No retrogosto, amargor e café. Boa, bem boa!

Do Paraná para Diadema, grande São Paulo, com mais duas numeradas da Cervejaria Votus. A primeira delas é a 007, uma Hop Session Ale Single Hop, que já havia passado por aqui em sua primeira versão, com o lúpulo Amarillo, e agora retorna com o lúpulo (também made in USA) Centennial, mantendo os 3.5% de álcool e a receita base da anterior. De coloração dourada cristalina com creme branco de excelente formação e muito boa retenção, a Votus 007 Centennial exibe um aroma delicioso com muito floral e notas frutadas cítricas bem suaves (exatamente o contrário da Amarillo, que trazia muitas notas cítricas e um floral mais discreto). Na boca, floral e cítrico no primeiro toque com leve remissão a limão e picância discreta na sequencia, que mantém a ideia de um perfil refrescante e suavemente amargo. A textura é reforça a picância, com uma leve acidez remetendo a limão. Dai pra frente, uma Session muito saborosa, que segue entre floral e cítrico até o final, seco e amarguinho. No retrogosto, mais floral, mais cítrico e mais refrescancia. Uma delícia!

A segunda da Votus é a número 017, uma Imperial Coffee Stout que recebe adição de café artesanal do tipo bourbon-amarelo (na filtragem) cultivado na região de Dom Viçoso, no sul de Minas Gerais, desde o século XIX. De coloração marrom bastante escura, praticamente preta, com creme bege escuro espesso de excelente formação e retenção, a Votus 017 exibe um aroma com café em destaque, mas também abrindo espaço para o chocolate amargo, facilmente perceptível no conjunto. Há, ainda, leve percepção dos 11.5% de álcool. Na boca, o paladar recebe o que o aroma adianta com café no primeiro toque seguido no segundo seguinte por chocolate amargo, que traz consigo leve presença de torra e mais amargor – o álcool, muito bem inserido no conjunto, quase não aparece. A textura é sedosa com leve picância alcoólica. Dai pra frente, uma cerveja que equilibra muito bem café, chocolate amargo e álcool. No final, café, chocolate e álcool, trio que se estende também ao retrogosto.

De São Paulo para Petrópolis, no Rio de Janeiro, com duas (de quatro) receitas lançadas em março de 2018 pela linha Black Princess, da Cervejaria Petrópolis. A primeira é a Let´s Hop, uma English IPA que distribui baldes de notas herbais e florais ao bebedor. De coloração dourada com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Black Princess Let’s Hop exibe um aroma bastante herbal, que traz sugestões de pinho, menta e também limão sobre uma base suave de malte de caramelo, que fica em segundo plano enquanto o lúpulo brilha – a levedura parece um pouco mais rebelde do que deveria, lembrando algo de Weiss. Na boca, perfeita replicação do aroma já no primeiro toque com bastante herbal seguido de leve anis, mentolado e limão além de leve resina e amargor caprichado (ainda mais para uma IPA inglesa: 46 IBUs honestos). A textura é seca e levemente picante. Dai pra frente, a Let’s Hop segue o perfil de IPA do Atlântico, meio inglesa, meio norte-americana. No final, herbal e anis. No retrogosto, pinho, limão, anis e menta. Bem interessante.

Fechando com a segunda da Black Princess, a Miss Blonde, uma Belgian Blond Ale de coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, primeiro leve floral e, depois, picância de levedura (que, de alguma forma, remete a mesma picância da English IPA anterior) e doçura tanto de compota de frutas cítricas quanto de malte trazendo consigo pão e biscoito. Há, ainda, discreta percepção de banana. Na boca, doçura e floral no primeiro toque seguidos de picância (de levedura), banana e um leve adocicado com anis (de novo, assim como na anterior). O amargor é baixinho (22 IBUs), mas a levedura continua brilhando na textura, picante e um tiquinho metálica, e segue dando as cartas num conjunto que traz a rebeldia comportada de uma Blond belga, mas perde em maciez e profundidade. No final, secura e picância (de levedura). Já o retrogosto traz mais levedura, leve malte e floral.

Balanço
Abrindo uma nova sequencia com a Dádiva, de São Paulo, aqui representada por sua ótima Golden Stout, uma White Stout que recebe adição de Cold Brew e é uma delicinha sabor café. Já a Mint Leaves, por sua vez, aposta na combinação de chocolate com menta (nozes e café pontuam o conjunto levemente), e funciona, mas enjoa um pouco. A Invicta New Sensession é uma Session IPA que sugere maior cuidado na produção, mas que tem momentos bons. Já a Invicta No Grain No Gain é dominada pelo café adicionado na fervura, e perde em textura, mas o conjunto, ainda assim, agrada. Melhor é a Las Vegas Salvação BRTX, uma Blond Ale saborosa e refrescante. Já a Las Vegas Penumbra é uma deliciosa cacetada de café. Em Diadema: a Votus 007 – Centennial é uma Session IPA incrível, uma das melhores do estilo no país. Ao menos essa estava fresquissima e deliciosa. Já a Votus 017 é uma Imperial Coffee Stout com bastante café, mas muito chocolate amargo. Gostei. Indo pro Rio, a Black Princess entrega uma daquelas IPAs do Atlântico, com bastante perfil britânico, mas namorando o outro lado do oceano. Gostei. Já a Miss Blonde, ainda que interessante, me pareceu menos personal, com um olho na Bélgica, mas deixando traços de Alemanha e Inglaterra na receita.

Dádiva Golden Stout
– Produto: White Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3,40/5

Dádiva Mint Leaves
– Produto: Speciality Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.1%
– Nota: 3,12/5

Invicta New Sensession
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,6%
– Nota: 3,01/5

Invicta No Grain No Gain
– Produto: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,09/5

Las Vegas Salvação BRTX
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,27/5

Las Vegas Penumbra
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3,65/5

Votus 007 – Centennial
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.5%
– Nota: 3,44/5

Votus 017
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11.5%
– Nota: 3,69/5

Black Princess Let’s Hop
– Produto: English IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,10/5

Black Princess Miss Blonde
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3,02/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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