Três discos: Malli, Musa Híbrida e Qinho

por Renan Guerra

“Malli”, Malli (Independente)
Malli lançou seu primeiro single no início de 2017, a ótima “La Nave Va”, produzida por Rafael Castro. Depois disso vieram outros singles e a expectativa parecia crescer, porém o disco de Malli chega ao mercado só agora, de mansinho e de forma independente. Para os desavisados, a voz de Malli pode soar estranha, distinta, mas é o seu charme e um dos pontos que fazem o seu disco de estreia cativante. Extremamente pop, brincando com gêneros nacionais como o axé e o brega, Malli faz um álbum de amor, que soa divertido para quem se aventurar por seu universo. Destacam-se as já conhecidas “La Nave Va” e “Não Perturbe” e as novas “Mais de Um Mês Longe de Casa” e “Em Cartaz”, ao lado de Luísa Maita. O disco auto-intitulado foi inteiramente produzido por Rafael Castro, um veterano do mundo independente, que consegue dar unidade a esse universo tão diverso de Malli. Com ecos de jazz, synthpop, MPB e outras tantas coisas, “Malli” é um disco criativo, que mostra a versatilidade de uma cantora em ebulição. Para ser ouvido por quem não teme o pop e está aberto aos agudos da cantora.

Nota: 6 (ouça o disco no Youtube)

“Piscinas Vazias Iluminadas em Pé”, Musa Híbrida (PWR, Escápula, Natura)
Terceiro disco dos gaúchos da Musa Híbrida, “Piscinas Vazias Iluminadas em Pé” parece um passo muito natural em sua trajetória: soa como um novo ponto que alinhava com os já costurados até aqui. Lançado com apoio da Natura Musical com distribuição de PWR Records e Escápula Records, esse novo disco se torna cativamente por sua forma tortuosa de fazer pop. Alércio Pereira, Vini Albernaz e Camila Cuqui conseguem passear do português ao inglês com facilidade, conduzindo uma espécie de viagem sem rumo em menos de 40 minutos – “Piscinas Vazias Iluminadas em Pé” foi construído enquanto a banda fazia turnê pelo país e essa vida de estrada se reflete em canções múltiplas, que habitam quase um não-lugar. O sotaque gaúcho carregado deles também ajuda a trazer novas sonoridades: a forma de cantar de Camila, por exemplo, é tão única que cria um clima distinto. Destacam-se no disco o pop de “Pirata”, a homenagem a São Paulo em “Indiemainstrem” e a viagem romântica de “Piscinas Vazias”. O grande destaque do disco é “Como é Bom Ser Lésbica”, uma celebração ao lesbianismo e às lésbicas que inspiram Camila, citadas nominalmente na canção e com participação de muitas delas em áudios gravados pelo whatsapp. No final das contas, “Piscinas Vazias Iluminadas em Pé” não é um disco acessível de cara, é do tipo que pede nossa atenção para as descobertas, para cada verso e para cada delicada batida, porém a viagem vale a pena.

Nota: 7 (ouça o disco no Youtube)

“Qinho canta Marina”, Qinho (Biscoito Fino)
O carioca Qinho já havia se aventurado pela obra de Marina Lima no EP “Fullgás”, lançado em 2017. Nesse novo disco – o quarto de sua carreira –, Qinho debruça-se sobre 10 canções que foram sucessos na voz de Marina, desde composições próprias da artista, algumas parcerias com seu irmão Antonio Cícero e composições de outros. O mote principal do disco é que todas as faixas escolhidas são grandes sucessos e extremamente icônicas em suas versões originais, por isso mesmo a releitura eletrônica de Qinho soa tão atrativa, pois ele não se prende inteiramente aos arranjos originais, mas também não se propõe a fazer invencionices apenas para soar diferente. O músico consegue entender a força pop de cada uma das canções, que seguem extremamente acessíveis e ganham apenas ares contemporâneos. O repertório vai das fundamentais “À Francesa” (Claudio Zoli / Antônio Cícero) e “Fullgás” (Marina / Antônio Cícero) até a dançante “Criança” (Marina) e a triste “Acontecimentos” (Marina / Cícero), que ganha uma levada mais swingada. É curioso que ele tenha escolhido regravar “Me Chama”, de autoria de Lobão – persona non grata pela maioria dos artistas na atualidade –, mesmo assim, essa é uma grata surpresa, pela delicadeza da versão. No final das contas, Qinho fez um disco que se conecta muito com a atual fase de Marina, que já reside em São Paulo há alguns anos: o disco não tem cara de praia, de sol, mas tem ares de noite, de ruas estreitas, essa melancolia e liberdade que São Paulo propicia. Lançado pela Biscoito Fino, “Qinho canta Marina” é uma grata surpresa pelo fato de ser simples, despretensioso e, por isso, envolvente.

Nota: 8

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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