Balanço: a 5ª edição do Coala Festival

texto por Marcelo Costa
fotos por Liliane Callegari

A indústria musical no Brasil parece muitas vezes dominada por pessoas que estão muito mais focadas no dinheiro do que em… música. Não que dinheiro não tenha a sua relevância, mas a área do showbusiness é repleta de histórias de pessoas que entraram no mercado da música visando nada mais do que lucro e deram com os burros n’agua. Não à toa, o cemitério de grandes festivais no Brasil está lotado de cadáveres que mereciam uma vida mais longa, mas tropeçaram na falta de conhecimento e paixão de uma área que necessita de… amor.

Sim, amor. A maioria dos festivais mainstream no Brasil começam enormes e tropeçam em sua grandiosidade. O brasileiro vê um Primavera Sound vender 215 mil entradas e se espanta, mas desconhece que a primeira edição, em 2001, teve 8 mil pessoas. O primeiro Coachella estreou em 1999 e, amargando prejuízo, não realizou a edição de 2000, retornando em 2001 ajustado ao mercado e às suas próprias necessidades. No Brasil, alguns dos mais duradouros festivais de música são (conduzidos por heróis) independentes, feitos sim com dinheiro, mas principalmente com amor à música (numa lista que junta Goiânia Noise, Porão do Rock, Mada, DoSol, Bananada, Se Rasgum e muitos outros).

 

Produzido por apaixonados por música, o Coala Festival chegou a sua quinta edição com a necessidade de crescer, mas com o cuidado de manter a qualidade das edições anteriores. Antes realizado em apenas um dia (desde sempre no Memorial da América Latina, o jardim de concreto de Oscar Niemeyer), o festival ganhou dia extra em 2018, mas soube manter todos os pontos positivos que o transformaram em um dos eventos mais good vibe de uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes “se amando com todo ódio, se odiando com todo amor”.

Francisco, El Hombre

No sábado, o Coala observou uma Francisco, El Hombre ligada no 220 volts debaixo de um solarão de mais de 30 graus abrir o evento diante de um público enorme clamando por ouvir o calor da rua e alertando para o cuidado na hora de escolher seu candidato para as próximas eleições (criticando ainda o mais escroto dos candidatos numa versão poderosa de “Bolso Nada”). Rolou abraçaço, citação de Sidney Magal, “Tá Com Deus, Tá Com Dólar” e “Triste, Louca ou Má”, com a vocalista Juliana chamando todas as mulheres para frente do palco, e dizendo: “O feminismo é necessário até que nenhuma mulher seja discriminada, assassinada”. Showzaço! Um dos melhores no país na atualidade!

Francisco, El Hombre

Na sequencia, com o sol a pino, a Attooxxa chegou intimando: “Vamos levar o groovão da Bahia para a pista”. Promessa feita, promessa cumprida. E que groovão! O combo baiano, uma versão brega indie poperô do Ê o Tchan, junta arrocha e pagode baiano com música eletrônica entoando “letras” (idiotas, mas que servem totalmente ao intuito carnavalesco: pular, dançar, suar e paquerar) como “A polpa da bunda / Olha a polpa da bunda / (Polpa da bunda / Olha a polpa da bunda)”. A ideia é dançar, dançar e não pensar. E é difícil permanecer imune a eles. O publico se entregou loucamente  de corpo, alma e bunda ralando no chão num show que soaria muito melhor fechando o dia (como no Festival CoMa, em Brasília).

Attooxxa

E soaria muito melhor porque a carga de graves e grooves despejadas no público pela Attooxxa durante 50 minutos matou toda a sutileza, ginga e suingue do show seguinte, da recifense Academia da Berlinda. Foi como se o público chegasse no 10 e precisasse, em 20 minutos debaixo do sol, voltar pro 5. O que soou um tremendo pecado com uma banda cativante, de repertório dançante e show acolhedor, mas que precisou se desdobrar para conseguir a atenção da plateia após o descarrego do show anterior. Ainda assim, boa parte da galera se entregou à Olindance de peito aberto. Mas eles mereciam mais.

Academia da Berlinda

Na sequencia, a equipe técnica de Xênia França parece não ter conseguido equalizar o som da banda a contento, e o show ficou bastante prejudicado, com a musa baiana visivelmente incomodada com os desacertos sonoros enquanto números fortes como “Pra Que Me Chamas?” e a belíssima versão de “Tereza Guerreira”, de Antonio Carlos & Jocafi, intensas e quentes no registro de estúdio do álbum “Xênia” (2017), soavam distantes e incompletas. Uma pena, mas, ainda assim, e apesar dos problemas técnicos, foi um show bem gostoso de ver.

Xênia França

Elevado à categoria de rap star por um dos hits de 2017, Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo, o Baco Exu do Blues, fez um show meia boca. Levar a estrutura de casa de show (DJ mais MC) para um palco de festival tende a deixar buracos no espaço (tanto físico quanto musical) que precisam ser ocupados, mas enquanto muitas bases se alongavam, Baco e seu MC pareciam perdidos no ambiente. Estava impossível entender sua voz nas cinco primeiras músicas, e quando o som melhorou, ele passou a cantar menos. O vídeo do hit “Te Amo Disgraça” (com a voz pré-gravada da backing mais presente do que a dele) no fim do post diz tudo. Decepção, mas é uma carreira que está começando, e logo encontra seu caminho. No Coala, porém, deixou a desejar (tudo bem: as camisetas do Sabbath e do Slayer = bola dentro)

Baco Exu do Blues (de camiseta do Sabbath)

Fechando o sábado, e notadamente recuperado da doença que fez com que uma médica arrancasse “quatro pedacinhos do seu coração” no ano passado (como ele conta em uma das músicas de seu ótimo disco novo, “Ok, Ok, Ok”), Gilberto Gil fez um show de hits para todo mundo dormir sonhando e cantando. Há quem diga que festival não é lá lugar para testar material “novo”, mas as canções novas poderiam ter tornado ainda mais bonito uma noite preenchida com hinos do quilate de “Tempo Rei”, “A Novidade”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Palco”, “Realce” e, a pedido dos organizadores do Coala, “Back in Bahia”. Viva Gil!

Gilberto Gil

Repetindo o sucesso de público do mesmo horário do dia anterior (e também o mesmo sol e calor de mais de 30 graus), o Coala Festival abriu o domingo com um grande show de Johnny Hooker, que teve várias de suas canções cantadas em coro pelo público, e aproveitou o espaço para, assim como a Francisco, El Hombre, pedir atenção nas urnas, sendo até mais direto: “Vamos votar em candidatos LGBT nessas eleições! Vamos votar em candidatos que se preocupem com as pessoas, que se preocupem conosco e com a nossa causa”, pediu. O show terminou em ritmo de frevo e ainda teve bis, com o hit “Flutua” entoando por todos.

Johnny Hooker

Na sequencia, o garoto carioca Rubel surgiu de camiseta amarela, violão e banda para mostrar as canções folks de seu novo álbum, “Casa” (2018), tanto quanto os hits do primeiro disco, “Pearl” (2013) e uma cover da clássica “Tocando em Frente”, hino de Almir Sater e Renato Teixeira, uma das músicas mais belas do cancioneiro brasileiro. Com público fiel em vários cantos do Brasil, e também no Coala, Rubel fez um show correto e simplório, mas que ainda soa preso numa sala pequena que tem, sentando em um sofá, Marcelo Camelo, e no outro, Cícero. Os fãs não se importam (ou, muito provavelmente, estão ali exatamente por essa sala) e o show foi bastante aplaudido.

Rubel

Com alguns minutos de atraso (aceitáveis diante da complexidade de montar o som para os 16 músicos que o acompanham), o grande Mano Brown subiu de bengala em punho bradando “que calor, hein” para fazer um dos shows mais dançantes do final de semana. “Posso dizer que agora faço parte da Dinastia Simonal?”, perguntou ao chamar Max de Castro para o palco, que encorpou ainda mais a sonoridade funk da banda comandada pelo multi-instrumentista Duani na guitarra. O repertório do ótimo disco “Boogie Naipe” fez a festa da audiência no final de tarde ensolarada paulistana.

Mano Brown

Uma das mais agradáveis revelações da música baiana recente, a cantora Luedji Luna trouxe as canções do álbum “Um Corpo no Mundo” (2017) para a “tribo Coala” (como apelidou Gil na noite anterior) colocando a percussão à frente, mas sem esconder a bela melodia de números como “Dentro Ali” e “Banho de Folhas”, cantada e dançada por toda a turma do gargarejo do festival, numa belíssima ode à Bahia (num momento em que os artistas baianos mais se destacam no cenário nacional). Se não ouviu o disco de Luedji, ouça. Preste atenção nela!

Luedji Luna

Na sequencia, o Bloco Afro paulistano Ilú Obá de Min, composto por mulheres, fez um dos shows mais emblemáticos das cinco edições do Coala Festival, uma apresentação que, nesses dias de museu pegando fogo e história sendo deixada de lado, soa ainda mais emblemática por trabalhar ritmos (e culturas) do candomblé, afoxé, jongo, maracatu, boi e ciranda numa quase aula de música e cultura. As participações de Juçara Marçal (que, entre outras, cantou a imponente “São Jorge”, do Metá Metá) e Elza Soares (foi bonito ver o público entoando o refrão de “Exu nas Escolas”) abrilhantaram ainda mais um show absolutamente incrível.

Ilú Obá de Min e Elza Soares

Fechando a edição 2018 do festival, Milton Nascimento trouxe um trem de hits mineiros que foram cantados em coro, um a um, por uma plateia devota. Do começo, com “Para Lennon e McCartney”, aparentemente escolhida a dedo para abrir o show, pois nada mais simbólico que cantar “Eu sou da América do Sul” no Memorial da América Latina (em tempos de Ursal – risos), passando por “Encontros e Despedidas”, “O Cio da Terra”, “Fê Cega, Faca Amolada”, “Os Bailes da Vida”, “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Clube da Esquina 2” e “Nada Será Como Antes”.

Milton Nascimento e Criolo

A participação do rapper sambista paulistano dividiu o show de Milton em dois. Assim que entrou, Criolo foi fortemente saudado pelo publico. “Não Existe Amor em SP”, com Milton cantando junto, foi de arrepiar, assim como foram “Meninos Mimados” (que rendeu um forte coro de #LulaLivre) e “Cálice” (a música de Chico e Gil “calada” pela Censura da Ditadura nos anos 70 adaptada por Criolo magistralmente). “Caçador de Mim”, “Coração de Estudante” e Canção da América” vieram depois e o público ainda teve voz para cantar “Maria, Maria” numa espécie de “Hey Jude” infinita, que ainda trouxe Maria Gadú (de boné do MST) ao palco para abraçar e cantar com Milton e Criolo. Dos grandes shows do festival (e do ano!).

Milton Nascimento

Em sua quinta edição, o Coala Festival bateu no peito recusando-se a aumentar a quantidade de pessoas no mesmo ambiente do que o ano passado (um ato de coragem que vai na contramão de um mundo cada vez mais capitalista que valoriza a maior quantidade de dinheiro no bolso em detrimento do menor custo), mas abriu um novo dia de shows no calendário e, crescendo de forma natural e controlada, manteve a mesma proposta de curadoria esperta, serviços cuidadosos (durante os dois dias foi possível se alimentar na área de alimentação do festival, consumir bebidas e utilizar banheiros sem preocupação com filas) e grandes shows em consonância com o discurso de um país livre e inteligente, um exemplo que merece ser replicado. Que venha a sexta (a sétima, a oitava, a vigésima) edição!

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa e arquiteta. Site oficial: http://lilianecallegari.com.br

Leia também:
– Saiba como foram as edições do Coala Festival em 2015 – 2016 – 2017

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