Boteco: Cinco cervejarias, Dez Cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série com a primeira da badalada Trillium a passar por aqui (obrigado Bruno Capelas, que passou por Boston e se lembrou de mim), cervejaria criada em 2013 em Boston, no Massachusetts, que anda batendo ponto em listas de 10 melhores cervejarias do mundo na atualidade. A estreia deles por aqui se dá com a A Street, uma American IPA cuja receita combina os maltes American 2-Row Barley e C-15 mais trigo branco com os lúpulos Amarillo e Columbus. O resultado é uma cerveja de coloração amarela alaranjada tal um suco de laranja. O creme é branco de média formação e baixa retenção. No nariz, uma oferta intensa de frutas cítricas tropicais (tangerina em destaque, mas também toranja, abacaxi e limão) sobre uma base bastante discreta de malte (é possível perceber caramelo, mas ele é bem delicado e está longe de ser o destaque como em centenas de Caramel IPAs feitas no Brasil). Na boca, o suco de frutas cítricas (alcoólico: 7.2%) no primeiro toque que soa um mix de tangerina com toranja seguido de amargor suave, mas presente, e leve herbal. A textura é suave, ainda que levemente picante. Dai para frente, um conjunto incrivelmente equilibrado, com todas as notas no lugar, corpo gostoso e final cítrico e picante. No retrogosto, mais cítrico, picância leve e também leve herbal! Ótima!

A segunda da Trillium integra a Permutation Series, projeto experimental da casa, que produz pequenos lotes de “cervejas inovadoras”, segundo o site oficial da cervejaria. Esta é a Number Thirty-Nine, uma Double IPA com lactose, maltes 2 Row e Honey mais lúpulos Galaxy e Mosaic. Assim como a anterior, a 39 exibe uma coloração amarela alaranjada tal um suco de laranja com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, muita fruta tropical com laranja e manga predominando, mas também leve percepção de toranja, herbal e de condimentação – há, ainda, doçura trazida pela lactose, mas não uma doçura melada de malte, e sim mais puxada para calda de açúcar. Na boca, farta oferta de frutas cítricas (laranja e manga( no primeiro toque seguida de amargor suave, mas presente, com acentuação de toranja e também de doçura de açúcar. A textura é suave, mas picante (tanto de lúpulo quanto dos 8% de álcool). Dai pra frente segue-se um conjunto caprichado, um suco cítrico com álcool mais presente, mas, ainda assim, delicioso. No final, picância alcoólica e frutas cítricas. No retrogosto, manga, laranja, picância alcoólica e leve herbal. Bem boa!

De Boston para o Rio de Janeiro com duas Hocus Pocus produzidas em Matias Barbosa, MG, na fábrica da Cervejaria Antuérpia. A primeira é a Red Potion, uma Berliner Weisse que recebe adição de polpa de morango, amora e framboesa. De bela coloração avermelhada com creme branco de média formação e rápida dispersão exibindo também tons avermelhados, a Hocus Pocus Red Potion apresenta um aroma dominado completamente por frutas vermelhas, com quase nada de acidez, ainda que seja sutilmente possível percebe-la. Na boca, porém, a coisa toda inverte: uma pancada de acidez frutada predomina no primeiro toque e é seguida de leve sugestão de frutas vermelhas, com mais acidez trazendo consigo leve adstringência, bastante comum ao estilo. A textura sobre a língua, como era de se esperar, é intensamente frisante, seguida de adstringência. Dai pra frente, alterna-se na percepção tanto a acidez quanto a fruta. No final, acidez (mais da fruta do que de levedura), frutado e adstringência leve, que se emenda ao retrogosto com um rastrozinho de frutas vermelhas. Bacana.

A segunda da Hocus Pocus é a Kambô, uma Russian Imperial Stout lançada em maio de 2018 (surgida de um experimento com a Hocus Pocus Rabbit Hole e grãos frescos) que recebe adição de lactose, baunilha, coco, coco queimado, nozes negras e café. De coloração marrom extremamente escura, quase preta, com creme bege de boa formação e média alta retenção, a Hocus Pocus Kambô apresenta um aroma com notas de café verde intensas em destaque, mas ainda é possível perceber também coco e coco queimado. Na boca, maior equilíbrio entre café verde e coco já no primeiro toque, com o coco despontando e mostrando maior presença na sequencia, saborosa. A textura sobre a língua é sedosa e só aqui é possível perceber a potência dos 9.5% de álcool, maravilhosamente bem escondidos. Dai pra frente surge uma RIS caprichada, ainda que dividida entre as percepções intensas tanto de café verde quanto de coco. No final, chocolate (beeem leve), coco e, principalmente, café verde. E tudo isso retorna no retrogosto, saboroso. Gostei!

Do Rio de Janeiro para Stolberg, na Alemanha, com mais duas cervejas da Freigeist, que normalmente aposta em receitas exóticas, mas aqui abre, com a primeira, subvertendo essa história: a Skills in Pils homenageia a dupla sueca alemã de metal alternativo Lindemann (o álbum de estreia deles, de 2015, se chama “Skills in Pills”) recriando um dos estilos cervejeiros mais conhecidos da Alemanha, o German Pilsener. De coloração dourada com leve turbidez e creme branco de boa formação e retenção, a Skills in Pils apresenta um aroma com lúpulo herbal tímido e notas que remetem aos maltes sugerindo pão e cereais. Na boca, cereais e herbal (com destaque para o segundo) marcam o primeiro toque, com mais grãos surgindo na sequencia e o amargor, baixo, mas presente, delimitando a metade da experiência. A textura é cremosa com leve picância frisante sobre a língua. Dai pra frente, segue-se uma German Pilsener com jeitão artesanal, mas que não se diferencia nem sobressai aos melhores rótulos do estilo. No final, amargor leve e feno. No retrogosto, pão, herbal, feno.

A segunda da Freigeist é uma colaborativa com as alemãs Emma Biere ohne Bart e Braukollektiv e trata-se da Mexican Standoff, uma Sweet Stout inspirada na bebida mexicana Horchata (feita com leite de arroz e canela), que, por isso, recebe adição de lactose, canela e tonka beans. De coloração marrom bastante escura e creme bege de boa formação e media alta retenção, a Emma Freigeist Mexican Standoff apresenta um aroma com bastante percepção de torra, defumado médio e, ainda, pimenta, bem suave, e canela. Na boca, o defumado é mais comportado no primeiro toque tendendo a alcaçuz e doçura de lactose, mas, na sequencia, ele assumi a frente delicadamente acompanhado por alcaçuz, canela e leve adocicado defumado – não há nada de amargor. A textura é suave e, dai pra frente, surge um conjunto maluquinho que é a cara da Freigeist, com canela, defumado suave e alcaçuz leve. No final, amargor de torra. No retrogosto, café, defumado e canela. Esquistinha, mas ok.

Da Alemanha partimos para a capital paulista, direto para o tap room da Cervejaria Trilha, no bairro de Perdizes, que agora apresenta algumas de suas criações em versões em lata (antes destas duas já passaram por aqui a Foggy e a Citra-Me). Primeira cerveja divulgada pela cervejaria em dezembro de 2016, a Trilha Melonrise já havia passado por aqui em sua versão Cantaloupe, e agora retorna na versão original com os lúpulos Citra e Huel Melon. Na taça, ela apresenta coloração amarela levemente turva, juicy, e exibe um creme branco de boa formação e retenção. No nariz, cítrico encantador puxado para melão mais um apanhado de frutas cítricas além de leve doçura frutada. Na boca, doçura frutada cítrica deliciosa no primeiro toque seguida de leve harsch de cryo hops e amargor limpo e convidativo. A textura é levemente picante, com traços de cryo hops e levedura sobre a língua. Dai pra frente, tudo converge numa baita Juicy IPA, daquelas para beber sorrindo. No final, leve cítrico e um harsch discreto. No retrogosto, melão, limão e frutas cítricas com leve condimentação. Ouro.

A segunda da Cervejaria Trilha é uma Coffee Stout que utiliza café da Um Coffee, que possui fazenda na região da Mantiqueira, em Minas Gerais, duas cafeterias em São Paulo e uma na Ciudad del Este, no Paraguai. O café utilizado foi o Bourbon Amarelo e o resultado é uma cerveja de coloração marrom escura translucida e creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, café, mas não é pouco café, e sim muuuito café, absolutamente delicioso, com um toque bem leve de café verde, mas, no geral, tendendo à café gelado para o verão. Na boca, o primeiro toque recebe tudo que o aroma adiante, ou seja, café gelado extremamente saboroso. A sensação posterior mantém o padrão de café, e impressiona como os 9% de álcool praticamente inexistem no paladar, mas estão ali, muito bem escondidos. A textura é suave e, dai pra frente, o conjunto segue oferecendo café pra quem quiser. No final… café. No retrogosto, café verde bem leve. Delicinha.

Do São Paulo voltamos para os Estados Unidos, mais precisamente para Decorah, no Iowa, com a primeira cerveja da renomada Toppling Goliath, fundada em 2009 e eleita a segunda melhor cervejaria do mundo em 2014, a aparecer por aqui, a Tsunami, uma American Pale Ale de cor dourada levemente turva com creme bege clarinho de boa formação e retenção. No nariz, frutado cítrico puxado para laranja, tangerina e limão com presença suave de malte trazendo caramelo e bastante mel. Na boca, o mel e o caramelo saem na frente no primeiro toque, mas logo são superados pelo frutado cítrico, aqui tendo a toranja como norte, e pelo herbal, suave, mas também perceptível. Há, ainda, percepção floral num conjunto de amargor comportado (31 IBUs) e saboroso. A textura, por sua vez, é picante sobre a língua, e, dai pra frente, surge uma APA bem refrescante, cítrica, floral e herbal na medida, com álcool discreto (6.3%) e final seco e picante. No retrogosto, tangerina, toranja, mel e picancia. Delicinha.

A segunda Toppling Goliath da sequencia (e última deste rolê) é a Golden Nugget, uma India Pale Ale que combina o malte Golden Promise com o lúpulo Nugget. O resultado é uma cerveja de coloração dourada com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção. No nariz, frutado cítrico delicioso que remete a manga, melão e laranja além de suavidade herbal (pinho discreto) e floral sobre uma base bastante leve de caramelo e casca de pão. Na boca, mais herbal do que cítrico no primeiro toque, com o pinho ainda levando vantagem nos primeiros segundos seguintes, mas abrindo passagem para melão e manga, deliciosos, na sequencia. O amargor é caprichado honrando os 56 IBUs sem assustar o bebedor. Já a textura é medianamente picante caminhando pra cremosa. Dai pra frente, uman bela American IPA tradicional, com amargor presente, mas sem colocar medo no freguês, e muito sabor (cítrico e herbal se alternando). No final, é amarguinho e herbal. No retrogosto, pinho, manga, melão e caramelo. Delicia.

Balanço
Abrindo uma nova história com a Trillium A Street, uma American IPA saborosíssima e equilibradíssima, sensacional. O aumento de álcool na Trillium Thirty Nine prejudica levemente o conjunto, que ainda soa soberbo, mas fica atrás da anterior devido ao leve desequilíbrio que os 8% de graduação alcoólica colocam no conjunto. Dos EUA para o Brasil com duas Hocus Pocus. A primeira, Red Potion, é uma Berliner Weisse amaciada por frutas vermelhas, bacaninha e tal. Já a Hocus Pocus Kambô me soou um excesso de informação, o que é bem diferente de complexidade. Ainda assim, boa. Agora na Alemanha com uma rara cerveja básica da Freigeist, a Skills in Pills, uma German Pilsener bem normalzinha. Já a Mexican Standoff é a Freigeist saindo da casinha, como quase sempre: uma Sweet Stout com percepção de defumação, canela e torra. Maluquinha, mas interessante. De volta ao Brasil com a Trilha Melonrise, uma cerveja absolutamente deliciosa. Se quiserem instalar uma torneira dela aqui em casa, passo a beber ela e deixo de beber água. Boa também é a Coffee Time, que honra o nome com muito café! Voltando aos EUA primeiro com a Toping Goliath Tsunami, uma APA deliciosa, cítrica e refrescante, e depois com a Golden Nugget, uma IPA deliciosa, cítrica, herbal e refrescante.

Trillium A Street
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 4,02/5

Trillium A Street
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,99/5

Hocus Pocus Red Potion
– Produto: Berliner Weisse
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.3%
– Nota: 3,46/5

Hocus Pocus Kambô
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9.5%
– Nota: 3,71/5

Freigeist Skills in Pils
– Produto: German Pilsener
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,92/5

Freigeist Mexican Standoff
– Produto: Sweet Stout
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,28/5

Trilha Melonrise
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,98/5

Trilha Coffee Time (Bourboun Amarelo)
– Produto: Coffee Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,98/5

Toppling Goliath Tsunami
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3,47/5

Toppling Goliath Golden Nugget
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3,56/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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