HQs: “Todos Os Santos”, “Sem Volta” e “A Propriedade”

Resenhas por Adriano Mello Costa

“Todos os Santos”, de Marcello Quintanilha (Editora Veneta)
“Talco de Vidro” (2015), “Hinário Nacional” (2016) e principalmente “Tungstênio” (de 2014, e que virou filme esse ano) fazem do carioca (nascido em Niterói) Marcello Quintanilha um dos quadrinistas mais relevantes e importantes do cenário nacional com obras publicadas com sucesso em vários países. Mesmo morando em Barcelona, na Espanha, desde 2002, Marcelo continua versando como poucos sobre as coisas da vida nacional, principalmente do estado natal. “Todos Os Santos” (2018), publicação da editora Veneta com 114 páginas, capa dura e zeloso trabalho editorial é um compêndio bem amplo das coisas que o autor já fez desde que começou em 1988 desenhando histórias de terror e artes marciais para a Bloch Editores. Temos alguns textos, partes de entrevistas, páginas dos primeiros trabalhos, ilustrações em revistas e tiras publicadas no Estado de São Paulo, onde já ele mostrava a toada que estaria presente nas suas obras mais conhecidas e respeitadas. Além disso, “Todos os Santos” apresenta impressa pela primeira vez a história “Acomodados!! Acomodados!!”, que ganhou a primeira Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro lá no já longínquo ano de 1991. “Todos Os Santos” é um preciso atestado de versatilidade e construção de uma carreira, contudo se faz interessante somente para aqueles que já conhecem o autor e querem ir mais além.

Nota: 7

“Sem Volta”, de Charles Burns (Quadrinhos e Cia)
Se fosse só por “Black Hole”, Charles Burns já teria um merecido lugar no panteão dos grandes autores de quadrinhos de todos os tempos. Mas o norte-americano não se contentou com isso e criou outro trabalho intenso e perturbador em “Sem Volta” que ganha edição nacional pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras, com 176 páginas, formato grande (20.8x27cm) e tradução do quadrinista Diego Gerlach. A edição nacional compila as três edições lançadas lá fora em 2010 (X’ed Out), 2012 (The Hive) e 2014 (Sugar Skul) que trazem o jovem Doug como o confuso e imperfeito personagem central. Ambientada na segunda metade dos anos 70, com a efervescência do punk em segundo plano, Charles Burns traz uma história sobre amadurecimento, primeiros amores, inquietude, decisões erradas e muita culpa. Como de costume, ele embala os temas usando bichos e criaturas estranhas, delírios e devaneios complexos e situações incomuns. O protagonista inicia a obra jogado em uma cama, com curativos na cabeça e sem se lembrar de quase nada dos motivos de estar ali. Na busca de lembrar e entender o que aconteceu, temos um desfile do que o autor sabe fazer de melhor (dessa vez em cores) e de onde o leitor nunca sairá ileso.

Nota: 8,5 (Leia um trecho gratuitamente).

“A Propriedade”, de Rutu Modan (WMF Martins Fontes)
Mica Segal é uma israelense que decide acompanhar a avó em uma viagem para a Polônia com o objetivo principal de recuperar um imóvel perdido durante a segunda guerra mundial, quando as tropas de Hitler tomavam conta do país. A avó, chamada Regina, conseguiu fugir e se salvar, enquanto pessoas da família e conhecidos sucumbiram ao terror imposto pelo nazismo. No contato não muito fácil com a avó, Mica descobre aos poucos que a questão do imóvel pode ser apenas um falso pretexto para essa viagem encoberta por mais segredos que ela ousaria pensar. “A Propriedade”, da quadrinista israelense Rutu Modan, ganhou o prêmio Eisner de melhor novela gráfica original em 2014, tendo edição nacional no ano seguinte pela editora WMF Martins Fontes com tradução de Marcelo Brandão Cipolla e 224 páginas. A autora de “Exit Wounds” (ainda inédito no Brasil), que também lhe rendeu um Eisner, elabora uma história que consegue não somente ser sobre família, como também envolve um amor antigo e a ambição desmesurada das pessoas, sem esquecer-se de algum humor para aliviar o quadro geral pesado e destrutivo em que é construído. Uma bela obra com ótimo uso das cores e carregada de sutilezas e emoções.

Nota: 9

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop: http://coisapop.blogspot.com.br

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