Balanço: Festival Paraíso do Rock 2018

por Leonardo Vinhas

11 edições. Se o feito já é notável para qualquer festival, o que dizer de um que ocorre em uma cidade de cerca de 13 mil habitantes que, apesar do elevado IDH, está restrita a um quase monopólio de consumo de cultura de massa. Esse é o Paraíso do Rock, que desde 2008 acontece no mês de julho em Paraíso do Norte, município paranaense a cerca de 100 km de Maringá.

“Quando era mais novo, ouvia Black Sabbath, Led Zeppelin, essas coisas todas. Mas já faz muito tempo que gosto mesmo é de ouvir o que se faz aqui em nossa região”, conta Beto Vizzotto, organizador do festival. Por “nossa região”, entenda-se não só o Brasil, mas toda a América Latina. Esse apreço faz com que pesquisa e gosto pessoal se unam para criar uma mistura que, é de se supor, não funcionaria em todos os lugares. Mas ali, entre erros e acertos, a equação costuma chegar a um resultado bastante apreciável, atraindo um público variável, mas nunca irrisório, a cada edição. Nessa edição, o número oficial foi o de 910 espectadores.

A jornada de 2018 começou na sexta-feira 13, e qualquer piadinha com a fama lazarenta da data ficaria inviável já a partir do primeiro show. As Cigarras, de Curitiba, quebram de cara o estereótipo machista e burrinho de “banda de minas”. É uma banda e pronto – com influência, sim, das riot grrrls norte-americanas dos anos 90, mas também de bubblegum, pós-punk, Cramps e brega brasileiro. O começo aos tropeços, por conta de um problema na bateria, não tirou o foco nem o ânimo das moças, que justificaram seu rótulo auto imposto de “rock de rua” – é um rock safado (no bom sentido) e vagabundo (idem), que consegue escapar do banal mesmo sem se propor inovador.

O que falta à banda em técnica é compensado com cara-de-pau e entrega – ainda que a pegada firme da baterista Babi Age mereça destaque. Canções como “Gato Vagal” e “Fritando na Trajano” brilham como trasheiras sujas e redondinhas que são, e o repertório todo tem ares de festa punk, terminando com uma desencanada versão de “Tô de Saco Cheio”, dos Garotos da Rua. Antes de deixar o palco, a baixista Rubia Oliveira avisa ao microfone: “Quem quiser falar com a gente, procura no Tinder que a gente tá lá”. Russ Meyer aprovaria.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes, cearenses radicados em São Paulo, vieram a seguir. Quem já os viu em um palco sabe que é preciso ser muito chato para não apreciar seu show, já que a combinação de androginia, glam rock, letras ácidas, pop oitentista e provocações punk vem embalada em um instrumental encorpado e cheio de riffs. O guitarrista Leo Breedlove comanda com categoria a banda (que contou com o pernambucano Juvenil Silva como convidado especial), mas o foco é inegavelmente Jonnata Doll.

Mistura de Buster Poindexter (New York Dolls) com Charly Garcia (e um quê de Coalhada, o personagem de Chico Anysio), Jonnata, o vocalista, usa sua figura exótica a favor da performance, que seduz ao mesmo tempo que causa estranheza. Passando por temas como pedofilia, cocaína e abandono, suas letras são espertas o suficiente para escaparem da tentação do choque fácil. “Rua de Trás”, “Esqueleto”, “Swing de Fogo” e “Táxi” se sobressaíram num show pesado e pervertido. OK, não tão pervertido: a organização recomendara a Doll que evitasse “excessos” como os que costuma cometer ao se apresentar em locais menores, como ficar nu ou simular enforcamento. A restrição não acanhou o moço, que mesmo contido conseguiu deixar muita mocinha bem-arrumada e “de família” com olhos arregalados – para não falar da turma da “classic-rock-jaqueta-de-couro”, que ficou tentando entender como aquilo tudo se encaixava na sua definição jurássica de rock.

Porém, choque mesmo viria com Siba Veloso. Ter o pernambucano em seu palco era um sonho antigo da organização, ao qual ele e sua ótima banda se esforçaram para corresponder. Sua reinvenção da música tradicional pernambucana, com arranjos roqueiros e ritmos “quebrados”, causou estranheza em boa parte do público, que não tinha qualquer referência daquela sonoridade. Macaco velho, Siba soube reverter a situação rapidamente, e antes da metade do show já tinha portenho se arriscando no xaxado e polaco puxando trenzinho, em um verdadeiro Carnaval fora de época. Para o encerramento, improvisou repentes sobre o festival e, com a adição o saxofonista Mauricio Habib, da banda argentina El Zombie, puxou um frevo que arrancou até os mais letárgicos da apatia. “Parece que a gente está rumando para um futuro cada vez mais violento”, disse Siba, minutos antes de descer do palco. “Por isso, a gente tem que celebrar os momentos em que estamos assim, todos juntos e compartilhando uma alegria de viver. Isso é até um ato político, mesmo sem falar de política”. Isso aí.

A “buena onda” já havia atingido níveis altos, a madrugada avançava, e o corpo pedia prudência para aguentar o dia seguinte, de modo que muitos dispensaram ficar para ver e ouvir os headbangers do Retaliação, de Paranavaí. Seu cruzamento de metal e hardcore novaiorquino é imaturo, para dizer o mínimo: o quinteto tocou diversos covers, tropeçando na execução de vários deles. Como resultado, tocaram para poucos, sem empolgar nem com o repertório próprio nem com as versões.

A noite de sábado trazia um pouco mais de público, consequência de um dia de clima agradável e da presença do Ultramen no lineup. Abrindo os trabalhos, a maringaense Stolen Byrds não negou peso em seus riffs inspirados pela ressaca pós-grunge dos anos 90: Helmet, Rollins Band, 311… você conhece o esquema (ou não?). Tampouco negou alto-astral (o vocalista Edwardes Neto não parava de sorrir), e mostravam confiança em seu próprio taco.

Nada disso, porém, foi suficiente para justificar o hype que se formou localmente ao redor deles – o site A Escotilha chegou a chamá-los de Melhor Banda de Rock do Paraná. Menos, menos: são ótimos músicos, mas as canções de estruturas repetitivas (e repetidas, já que mimetizam harmonias e arranjos muito comuns na última década do século passado), as letras em inglês, os vocais dramáticos e o tecladão proeminente logo começam a cansar o ouvinte. Tivessem tocado por 20 minutos – ou fossem melhor orientados na construção de seus temas –, a sensação final teria deixado uma memória mais instigante. Mas ficaram no palco pelo dobro dessa duração, dividindo a plateia – enquanto alguns aplaudiam efusivamente, outros se dirigiam ao bar e por lá ficavam (e um espectador mais angustiado repetia “tortura, tortura”… mas também não era para tanto).

Já o sexteto argentino El Zombie veio sem hype algum e garantiu seu espaço entre os melhores do festival com sua mistura de ska, swing, rockabilly e reggae. Paraíso do Norte foi a primeira das seis datas de sua turnê brasileira, e o apetite pela estreia em terra brasilis era evidente. A vocalista Agus Palpebra exibia uma especial combinação de predicados: não bastasse seu canto potente, treinado em conservatório, dançou e interagiu com o público durante todo o show, e sua figura – ruiva, esguia e trajada em uma matadora combinação de vestidinho de verão e meias três quartos – hipnotizou boa parte da plateia. Mas ninguém estava mais à vontade que o guitarrista (e também vocalista e principal compositor) Guillermo Vega. Ele arriscou mensagens em português, saltou pelo palco e ainda desceu em meio à plateia para tocar sua guitarra. O público foi se aproximando do palco, e no final do show, essa proximidade criou condições para que a área virasse uma verdadeira pista de dança.

Veio então a Ultramen. É difícil não pensar neles como uma banda gaúcha que deseja ser carioca – bem dizia Luis Fernando Veríssimo, pela boca do Analista de Bagé, que o Rio de Janeiro é onde o gaúcho mais se sente em casa. Brincadeiras à parte, só a surdez impede comparações da banda com O Rappa – com a diferença que Tonho Crocco sabe usar a voz ao vivo, e Falcão já esqueceu de como fazê-lo há muito, muito tempo. Acredito que vou morrer sem entender o encanto que a banda exerce no Sul do país – na prática, eles eram a atração principal da noite, ainda que não estivessem como headliners (o Forgotten Boys viria em seguida).

O sexteto se recusa a apenas cumprir tabela e ficar no feijão com arroz populista. Apesar de alguns corinhos clichês, dá para ver que tocam com vontade, e que fazem tudo que está ao seu alcance para que sua mistura de samba rock, hip hop e heavy rock dê liga. Para os convertidos, rendeu bem mais que isso: foi o show mais catártico em termos de resposta do público, com pogo, muita gente cantando junto, Tonho Crocco (surpreendentemente mais magro e rejuvenescido) cantando e saltando entre os fãs. Mas para quem não era adepto, não foi ali que a conversão aconteceu.

Podia ter acabado aí, mas tinha os Forgotten Boys, essa banda especializada em oferecer mais do mesmo. Eles têm aquela pose de “roqueiros de verdade” que fica bem em comercial de veículo off-road, e o som segue na mesma linha. Digamos que eles estão para o rock como a série Sons of Anarchy está para o universo dos motoclubes: tem a aparência certa e algumas coisas a ver, mas é só uma fantasia povoada de clichês que não resiste a uma examinada mais cuidadosa. É rock farofa travestido de rock de garagem, com direito a uma cover “visceral” (tosse, tosse) de “Kick Out the Jams” para fechar o show. Como uma boa farofa, desce. Só não dá para esperar muito mais que isso. E o bar ainda estava aberto, tinha cinco cervejas da local Araucária a preço justo, então passou rápido.

Vale mencionar que, como em todos os anos, há um “pré-Paraíso do Rock” uma semana antes. Trata-se de shows menores em Maringá a cargo de bandas que não entram no lineup “oficial” do festival. Em 2018, esses shows ficaram a cargo dos maringaenses Fernando Duran e Brian Olivion & Seus Raios Catódicos, além dos veteranos Pelebrói Não Sei?, de Curitiba. Na quinta-feira seguinte, um evento na Casa de Cultura de Paraíso do Norte abria oficialmente o festival – neste ano, foi um debate sobre Circulação e Cena Autoral na América Latina do qual participaram Beto Vizzotto, Rogério BigBross (veterano de muitos festivais na Bahia e proprietário do selo BigBross Records), Jotabê Medeiros (escritor e jornalista de cultura da revista Carta Capital), Guillermo Vaga (guitarrista da banda argentina El Zombie) e este que vos escreve. Houve, ainda, uma breve apresentação de Juvenil Silva tocando canções de Belchior ao violão, para acompanhar a sessão de autógrafos do referido Jotabê, autor da biografia “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.

O Scream & Yell cobriu as edições de 2015, 2016 e 2017 do festival. As visitas repetidas permitem constatar a maturação lenta, mas constante, da organização e curadoria a cargo de Beto Vizzotto, tarefas que desempenha com o auxílio de Cíntia e Arthur Vizzotto, respectivamente esposa e sobrinho. A paixão empregada no festival colhe seus frutos, e em medida menor, semeia seus erros. Na edição deste ano, o festival manteve sua curadoria plural e a proposta de integração latino-americana. Mesmo que Stolen Byrds e Forgotten Boys (curiosamente, as duas bandas que cantam em inglês) tivessem deixado a desejar para alguns, sua presença foi coerente com a proposta do festival. Siba e El Zombie, por sua vez, comprovaram que propostas mais dançantes sempre ganham a adesão do público – como foi o caso de Seu Pereira e Coletivo 401 e de Maciel Salú em edições anteriores. Já o metal, apesar de estar contemplado na escalação a partir de 2017, parece não emplacar: Retaliação (2018) e Corpsia (2017) mais afastaram que atraíram a audiência. O Retaliação, em especial, mostrou um amadorismo indigno de um festival com essa tradição.

Enfim, o Paraíso do Rock ainda é simultaneamente um mistério e um refresco na cada vez maior lista de festivais de médio porte do Brasil. Afinal, é raro que um festival chegue a 11 anos mantendo certa dose de “inocência”, sem se contaminar pelo espírito corporativo que transformou outros festivais em desfile publicitário. Além disso, é um festival focado na música, não na “experiência” – essa falácia marqueteira que vem transformando a música em acessório em ambientes onde ela deveria ser protagonista. Como se escreveu aqui desde a primeira cobertura do festival: vida longa ao Paraíso do Rock!

Top 3 – Melhores Shows

Leonardo Vinhas (Scream & Yell / Zona de Obras)
1 – El Zombie
2 – Jonnata Doll e Os Garotos Solventes
3 – Siba

Jotabê Medeiros (escritor / Carta Capital)
1 – Jonnata Doll e Os Garotos Solventes
2 – Siba
3 – Forgotten Boys

Rogério BigBross (BigBross Records)
1 – Cigarras
2 – Jonnata Doll e Os Garotos Solventes
3 – Stolen Byrds

Andye Iore (Zombilly)
1 – Jonnata Doll e Os Garotos Solventes
2 – El Zombie
3 – Cigarras

Marcelo Domingues (Festival Demosul)
1 – Cigarras
2 – Siba
3 – El Zombie

Rafael Pinto Donadio (Diário do Norte do Paraná)
1 – Siba
2 – Jonnata Doll e Os Garotos Solventes
3 – Forgotten Boys

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. Fotos de Andye Iore

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