Boteco: 10 cervejas nacionais de 10 estilos diferentes

por Marcelo Costa

Produzida no final de 2016 pela Urbana (na fábrica da Dádiva) numa parceria com o Empório Alto dos Pinheiros e colaboração (num blend de sais) do chef René Aduan Junior, da Alma Rústica Gastronomia, a Relaxe & Gose é um Gose (estilo alemão) que ganhou em 2017 uma versão Oak Aged, passando por maturação de quatro meses em barricas de carvalho onde antes foram maturados vinho Chardonnay. De coloração amarela dourada e levemente turva com creme bege clarinho de baixa formação e rápida dispersão (típica do estilo), a Urbana Relaxe & Gose Oak Aged EAP 10 anos exibe uma aroma temos sal, uva verde, mineral e prenuncio de acidez se destacando sobre uma base suave de trigo. Também é possível perceber certa aridez de levedura selvagem, um chulézinho característico (e sensacional) de Bretta. Na boca, acidez e frutado cítrico mais puxado pra uva verde do que para limão (como na tradicional) no primeiro toque seguido de um toque vinificado delicioso e acidez marcante. A textura é levemente seca (com muita madeira e uva verde surgindo sobre a língua) e, na sequencia, acidez leve, refrescancia, cítrico, uva verde, limão, mineral, salgado e amor. No final, acidez e salgado. No retrogosto, adstringência leve, sal, uva verde e limão. Que baita Gose.

Seguindo com outra colaborativa, desta vez uma Barley Wine (que surgiu na Inglaterra, e ganhou uma releitura intensa nos EUA) que nasceu do encontro dos cariocas da Quatro Graus com o holandês Menno Oliver, cervejeiro da De Molen, durante o festival Slow Brew em 2017. Na receita, favas de Cumaru (conhecida como baunilha da Amazônia) e lascas de Amburana cearensis (conhecida por Cumaru-nordestino). Produzida na fábrica da Dádiva, em Várzea Paulista, em 20 de novembro de 2017, a Cumaru & Cumaruboom âmbar clara com creme bege de boa formação e media alta retenção. No nariz, a potência dos “cumarus” é percebida com facilidade numa paleta aromática que ainda sugere própolis, coco, caramelo, melaço, maple, baunilha e canela. Na boca, esse perfil vasto traz doçura de melaço deliciosa no primeiro toque e sugestão de amburana na sequencia. Os 12% de álcool passam batido num conjunto que sugere bom drinkability (lembre-se: 12%). A textura é sedosa, mas quase nada licorosa, com o álcool suave sobre a língua. Dai pra frente, uma cerveja incrível com forte presença de cumaru e ambaruna, mas álcool aparentemente comportado. No final, canela e cumaru. No retrogosto, maple, própolis e amburana. Uou!

A terceira da sequencia é uma Summer Ale (outra estilo inglês) da carioca cigana Overhop, que produz as suas cervejas na fábrica da Mistura Clássica, em Angra dos Reis. Com o nome de Summer Time, a cerveja apresenta uma coloração dourada com leve turbidez a frio e creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, equilíbrio entre notas florais, cítricas (leve abacaxi e laranja), herbais e doces (mel e caramelo), com o malte ganhando um pouco mais de destaque, além de percepção discreta de amanteigado. Na boca, um corpo suave com leve doçura cítrica (aqui remete a manga) no primeiro toque seguida de refrescancia e amargor moderado. O off-flavour adiantado no aroma não atrapalha o paladar. A textura é inicialmente picante e um pouquinho áspera, e não chega a se tornar cremosa. Dai em diante, uma cerveja de alto drinkabilty, mas que soa necessitar de correções. No final, amargor leve e adstringência sutil, que invade o retrogosto, que ainda traz frutado cítrico e refrescancia.

A quarta cerveja da sequencia de um quarto estilo diferente é uma Imperial IPA (notadamente um estilo made in USA), a Fênix, da cervejaria carioca 2Cabeças, que produz suas receitas na fábrica da Invicta, em Ribeirão Preto, e brinca com essa receita alterando o dry-hopping a cada nova brasagem: essa da foto é a 6ª versão, que traz os lúpulos Simcoe e Mosaic (a 7ª, com os lúpulos Centennial e Amarillo, já está na praça) e exibe uma coloração dourada levemente alaranjada (no meio da garrafa, a cerveja ficou mais turva, quase juicy, quase NEIPA) com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, bastante frutado cítrico, herbal também presente além de um tiquinho de resina e doçura perceptíveis. Na boca, o primeiro toque traz frutado cítrico e doçura, mas é atropelado no segundo seguinte por um amargor bastante potente e delicioso, 100 IBUs que passam arrastando tudo e deixando um traço de resina pelo caminho. A textura é suave e levemente picante (deixando álcool e frutas cítricas sobre a língua) e, dai pra frente, o conjunto segue absolutamente delicioso, e muito mais saboroso conforme a cerveja aquece na taça. No final, frutado cítrico e amargor médio. No retrogosto, mais frutas cítricas, leve herbal, resina discreta e amargor suave. Apaixonado!

Seguindo com o quinto estilo, uma American Wheat (mais uma USA) com centeio, trigo, cevada, lúpulos australianos e açúcar mascavo numa receita desenvolvida pela Colorado, de Ribeirão Preto, sob encomenda do Outback visando tanto festejar 20 anos da marca no Brasil quanto harmonizar com o tradicional pão australiano do restaurante. De coloração dourada levemente translucida com creme branco formação boa e média alta retenção, a Colorado Outback exibe um aroma que combina notas maltadas com leve doçura sugerindo pão, pão doce, pão australiano e mel beeeem discreto. Há, ainda, leve herbal e suave percepção de tosta. Na boca, doçura maltada no primeiro toque seguida herbal, açúcar mascavo, casca de pão doce e um toque mineral efervescente interessante. A textura é levemente picante e metálica, e, dai pra frente, surge um conjunto que entrega o que promete, e finaliza com maltado, tosta e doçura. No retrogosto, açúcar mascavo, herbal e casca de pão doce. Surpreendeu.

O sexto estilo tem como base uma receita de Wheat Ale, só que é transformando em Fruit Beer (pode ser tanto alemã quanto belga e, ainda, norte americana) devido a adição de suco de maracujá na fase da maturação. Trata-se da Jon Bräu TropicAu Au, cuja receita foi vencedora do Bier Hub Festival, etapa interior de São Paulo. De coloração âmbar alaranjada com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Jon Bräu TropicAu Au exibe um aroma que combina a doçura maltada e do trigo trazendo um pouco de caramelo com o cítrico leve da fruta adicionada, mas sem soar agressivo, o que é um ponto positivo. Na boca, mais doçura maltada do que maracujá no primeiro toque (uma proporção de 80 para 20), ainda que o cítrico aumente com leveza na sequencia em um conjunto que não exibe absolutamente nada de amargor. A textura é suave com leve picância e, dai pra frente, surge um conjunto que não se aprofunda no estilo Fruit Beer nem se decide por American Wheat, ficando no meio do caminho. No final, doçura e cítrico. No retrogosto, meladinho e maracujá discreto.

Para protagonizar o sétimo estilo da sequencia, o Baltic Porter (uma versão mais potente e tostada da tradicional Brown Porter inglesa), eis uma colaborativa entre a brasileira 2Cabeças e a alemã Freigeist (produzida na fábrica da cervejaria Invicta, no interior paulistalo), a Torta Alemã, uma cerveja cuja receita recebe adição de nibs de cacau de Ilhéus, malte Munich e muita aveia. De coloração marrom intensa, quase preta, com creme espesso bege de ótima formação e longuíssima retenção, esta Torta Alemã traz no nariz aroma de cacau em destaque sugerindo chocolate amargo, café e malte torrado. Na boca, porém, o chocolate amargo é trocado por chocolate ao leite no primeiro toque seguido de suave amargor (com percepção derivada mais da torra do que dos lúpulos) de 30 IBUs. A textura é suave e vai se tornando sedosa (com leve presença de metálico no começo). Dai para frente, uma boa Baltic Porter com bastante cacau (remetendo a chocolate), álcool (7.5%) bem inserido e final levemente doce. Já o retrogosto traz chocolate e ameixa.

O próximo estilo da série, o oitavo, vem da Fazenda Santa Terezinha, em Paraisópolis, uma releitura bem mineira do estilo Belgian Dark Strong Ale (com direito a refermentação na garrafa), com doce de figo (colhido na fazenda) e sua calda no lugar do tradicional candy sugar para alimentar a levedura. De coloração âmbar meio turva com creme bege de baixa formação e média retenção, a Zalaz Figueira exibe um aroma com percepção de doçura caramelada e mel em primeiro plano além de figo e goiaba na base e também um pouco de álcool (9.4%). Na boca, bastante doçura no primeiro toque, se abrindo na sequencia tanto para caramelo quanto para figo e, também, goiaba – o álcool permanece muito bem comportado e o amargor não existe (deve ser -3 IBUs ou algo assim). A textura é sedosa com picancia bem leve de álcool. Dai pra frente, uma boa Dark Strong Ale, frutada e caramelada. No final, doçura. No retrogosto, caramelo, figo, goiaba e um pouquinho de calor. Muito boa!

O nono estilo da sequencia é o alemão Marzen (também conhecido por Festbier e Oktoberfest, devido a sua relação de ser uma cerveja produzida em março para ser consumida em outubro), reproduzido por aqui pela Baden Baden, de Campos do Jordão, com um diferencial extra: o lúpulo usado na receita (Mantiqueira) é 100% nacional. De coloração âmbar com creme branco de boa formação e retenção, a Baden Baden Marzen exibe um aroma bastante maltado sugerindo caramelo, casca de pão, pão doce e biscoito com leve presença floral e herbal. Na boca, pegada forte de malte com leve doçura no primeiro toque seguida de sugestão de pão e biscoito além de um metálico marcante que atrapalha o conjunto. A textura sobre a língua é cremosa, mas com o metálico novamente incomodando e trazendo, inclusive, acidez. Dai pra frente, um conjunto bastante maltado, com doçura acentuada, mas também com lúpulo trazendo herbal, floral e algo que remete a chá. No final, herbal puxado para chá. No retrogosto, mais chá, mas também leve presença maltada. Ok.

Fechando a série com o décimo estilo, o Russian Imperial Stout (criado na Inglaterra e reinventado com impacto nos EUA), representado aqui pela Ograner Hipnose RIS, a cerveja vencedora do 8º Concurso Estadual da Acerva Paulista, em 2017, numa receita do cervejeiro Luiz Eduardo Miziara. De coloração marrom escura (praticamente preta) com creme bege espesso de ótima formação e longa retenção, a Ograner Hipnose RIS exibe um aroma intenso, com torra de malte em primeiro plano, mas também café e chocolate amargo (assim que o nariz se acostuma surgem nuances de chocolate ao leite). Na boca, doçura leve, mas também amargor de torra, tudo junto no primeiro toque. Na sequencia, o amargor se sobressai (influenciado pela torra), o que valoriza os 75 IBUs da receita enquanto os 10% de álcool são muito bem domados num conjunto equilibrado. A textura é sedosa sobre a língua, com álcool presente e pinicando. Dai pra frente, uma bela RIS com um acentinho cítrico quase imperceptível, amargor potente, doçura presente e torra intensa. No final, doçura seguida de café e amargor. No retrogosto, cappuccino mais definido. Boa!

Balanço
Abrindo essa série de cervejas nacionais variadas com uma revisão sensacional da boa Gose da Urbana em homenagem ao EAP: a Relaxe & Gose Oak Aged EAP 10 Anos ficou sensacional com sua passagem em barril de carvalho que antes maturou vinho Chardonnay. Apaixonado. A Quatro Graus e De Molen Cumaru & Cumaruboom mantém o padrão lá em cima numa das melhores Barley Wines nacionais. Já a Overhop marca presença com sua Summer Ale que soa um tiquinho desequilibrada, com aspereza excessiva na textura e leve off-flavour de amanteigado perceptível tanto no aroma quanto no paladar. Não chega a atrapalhar de maneira grave o conjunto, mas fica aquém do potencial da cervejaria. A versão 6 da 2Cabeças Fênix é, simplesmente, exemplar, uma das melhores American IPAs nacionais no mercado, em excelente custo beneficio. Já a Colorado Outback é uma boa surpresa que entrega o que promete, uma cerveja caprichada para harmonizar com pão australiano e as carnes do restaurante. O sexto estilo, Fruit Beer, surge representado pela Jon Bräu TropicAu Au, que parece meio dividida entre o estilo base, American Wheat Ale, e o resultado da adição de maracujá: no meio do caminho, uma cerveja mediana. Seguindo com uma boa colab entre a 2Cabeças e a alemã Freigeist, a Torta Alemã, uma interessante Baltic Porter. De Minas Gerais, a Zalaz com doce de figo surpreendeu. Já a Baden Baden Marzen pode ainda melhorar. Fechando com a boa RIS da Ograner, Hipnose.

Urbana Relaxe & Gose Oak Aged EAP 10 Anos
– Produto: Gose
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.5%
– Nota: 4.02/5

Quatro Graus e De Molen Cumaru & Cumaruboom
– Produto: Barley Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4.02/5

Overhop Summer Time
– Produto: Summer Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 2.81/5

2Cabeças Fênix #6
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.1%
– Nota: 4.03/5

Colorado Outback
– Produto: American Wheat Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.27/5

Jon Bräu TropicAu Au
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2.41/5

2Cabeças Freigeist Torta Alemã
– Produto: Baltic Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.32/5

Zalaz Figueira
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9.4%
– Nota: 3.62/5

Baden Baden Marzen
– Produto: Marzen
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3.00/5

Ograner Hipnose
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3.50/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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