Boteco: Cinco países, dez cervejarias

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de países por Donaueschingen, cidade alemã do distrito de Schwarzwald-Baar que desde 1283 abriga a Fürstlich Fürstenbergische Brauerei, que, apesar dos séculos, não deixa de lançar novidades. A mais recente é a Fürstenberg Black Forest Pils, uma German Pilsner com carga mais elevada dos lúpulos alemães Hallertau e Tettnang na receita. De coloração dourada com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Fürstlich Fürstenbergische Brauerei exibe um aroma intenso de notas herbais com presença maltada também assertiva sugerindo biscoito e pão fresco além de um chulezinho bem distinto a lá Heineken. Na boca, o chulezinho surge mais intenso e traz consigo herbal e amargor suave no primeiro toque, que pode até surpreender neófitos e alemães tradicionais, mas é algo que quem conhece a nova (nem tão nova assim, afinal lá se vão 40 anos) escola made in USA já está pra lá de acostumado. A textura é picantezinha e, dai pra frente, surge um conjunto turbinado por lúpulos alemães e que sugere uma Heineken mais amarguinha. No final, amarguinho refrescante. No retrogosto, doçura maltada suave e uma leve presença herbal.

Ainda na Alemanha, mas saindo de Donaueschingen em direção a Stolberg, cidade do distrito alemão de Aachen na fronteira com a Bélgica, casa da Freigeist Bierkultur, que marca presença com sua 15ª cerveja a passar por aqui (confira as anteriores): Hoppeditz, Doppelsticke que mantém a mesma base do tracional estilo Altbier, de Dusseldorf, porém com mais presença de álcool (7.5%), amargor e notas de malte, intensificando a experiência no aroma e no paladar. De coloração marrom escura com leve avermelhado e creme bege espesso de boa formação e longa retenção, a Freigeist Hoppeditz exibe um aroma com notas adocicadas e frutadas que remetem a ameixa, uva passa e figo com leve sugestão de madeira, melaço e um defumadinho bem discreto, mas agradável. Na boca, uma reprise caprichado do que o aroma adianta, com equilíbrio e intensidade de frutas (ameixa e figo) e melaço já no primeiro toque, e se abrindo delicadamente na sequencia. A textura sobre a língua é suave com leve picância. Dai pra frente, uma cerveja deliciosa para se degustar percebendo suas nuances delicadas. No final, ameixa, vinho do Porto e figo. No retrogosto, frutas, melaço, madeira suave e defumadinho. Amor.

Da Alemanha para os Estados Unidos com uma novidade de Chico, na Califórnia, casa da Sierra Nevada, que surge com a Tropical Torpedo, versão tropical da pancada Torpedo, uma American IPA com lúpulos Amarillo, Citra, Mosaic e ElDorado adicionados em duas etapas diferentes do processo de produção mais Citra e Comet no dry-hopping. O resultado é uma cerveja de coloração dourada com creme bege bem clarinho de excelente formação e eterna retenção. No nariz, um bom equilíbrio entre derivados da lupulagem – com tanto notas cítricas sugerindo tangerina quanto herbais trazendo algo de pinho – e dos maltes (mel e caramelo bem presentes) além de leve percepção de resina (tradicional das Old IPAs dos Estados Unidos). Na boca, doçura maltada no primeiro toque com leve percepção herbal, que traz pinho e aumenta na sequencia até ser barrada pelo amargor, 55 IBUs longos, que se arrastam na boca deixando um traço resinoso pelo caminho. A textura é cremosa e picante (aparentemente dos 6.7% de álcool e também dos 55 IBUs) e, dai pra frente, o conjunto tende mais ao herbal do que ao cítrico até o final, levemente resinoso e loooongo. No retrogosto, manga aparece sutil ao lado de tangerina e pinho.

A segunda estadunidense na área é a famosa Brooklyn Brewery, que retorna ao site com sua Summer Ale, uma cerveja para o verão (“churrascos e praias”, indica o site oficial) cuja receita blenda os maltes British Pale e German Pilsner com os lúpulos Ahtanum, Willamette, Cascade e Amarillo. De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e retenção, a Brooklyn Summer Ale apresenta um aroma bastante sútil sugerindo pão, biscoito, palha e cereais em primeiro plano, com leve cítrico e herbal, bem discretos, mas, ainda assim, perceptíveis. Na boca, um pouco mais equilíbrio entre malte e lúpulo no primeiro toque, ainda que o resultado não sugira nenhum grande destaque além de cereais, palha e herbal sutis. A textura é leve e, dai pra frente, surge um cerveja bem simples que atende ao que a cervejaria buscava, refrescancia e discrição sem tomar a atenção do principal (o churrasco, a praia, o sol). No final, doçura maltada bem leve. No retrogosto, refrescancia.

Dos Estados Unidos para Araquari, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes a meia hora de Joinville e uma hora e meia de Blumenau, em Santa Catarina, que abriga a cervejaria Dom Haus, que retorna ao site, após passar por aqui com sua Dom Casmurro IPA, agora com a Dom Brás Witbier, cuja receita recebe adição de cascas de laranja e folhas de limoeiro. O resultado é uma cerveja de coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, frutado cítrico com destaque para a sugestão de limão e também de capim-limão, que dominam a percepção do bebedor. Na boca, cítrico (limão) e condimentado (capim-limão) chegam juntos ao primeiro toque não deixando muito espaço para a doçura do malte de trigo. A textura é levemente frisante e metálica no início, mas acalma e fica um tiquinho cremosa. Dai pra frente, surge um conjunto que não lembra Witbier, mas sim uma Blond Ale (interessante) com condimentos. No final, condimentação. No retrogosto, cítrico, banana e condimentação.

De Araquari, em Santa Catarina, para Campo Bom, no Rio Grande do Sul, cidade logo depois de Novo Hamburgo, a uma hora da capital Porto Alegre, casa da Cervejaria Imigração 1824, responsável pela linha Roleta Russa (que já passou por aqui com outros cinco rótulos). A sexta Roleta Russa é a Easy IPA, uma Session IPA de coloração dourada levemente turva e creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, o blend de lúpulos estadunidenses e australianos sugere frutado cítrico suave com remissão a laranja lima e melão além de um discreto toque herbal. Na boca, cítrico, herbal e picância leve chegam juntos ao primeiro toque. Na sequencia, amargor interessante, 30 IBUs bem presentes. A textura começa frisante e picante e vai ficando cremosa. Dai pra frente, uma boa Session IPA cítrica e herbal, que promove refrescancia e oferece sabor. No final, um amarguinho discreto. No retrogosto, laranja lima, condimentação suave e refrescancia.

Do Rio Grande do Sul para a Dinamarca, ainda que boa parte das cervejas da Eviltwin sejam produzidas em Stratford, no estado norte-americano de Connecticut, essa Sanguinem Aurantiaco inclusa, uma Sour que recebe adição de Blood Orange, uma laranja com a polpa vermelha cujo sabor se aproxima do da framboesa, mantendo suas características cítricas. No caso desta Eviltwin, a Sanguinem Aurantiaco exibe uma coloração amarela (querendo ser dourada) levemente turva com creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, percepção de cítrico e de azedume se destacam suavemente, com remissão a casca de laranja e minerais. Há, ainda, uma doçura discreta remetendo a pêssego. Na boca, doçura frutada cítrica e leve azedume no primeiro toque, que mostra mais força na sequencia, agradavelmente, causando leve adstringência. A textura é, como seria de esperar, efervescente. Dai pra frente, uma Sour saborosa com a fruta acrescentando cítrico e doçura em meio ao azedume do estilo. No final, azedinho e leve adstringência. No retrogosto, mais adstringência, laranja e minerais. Boa!

Ainda na Dinamarca, mas desta vez na Dinamarca mesmo, mais precisamente em Nr. Aaby, cidade de cerca de 5 mil habitantes no condado de Fiónia, a cerca de duas horas de trem da capital Copenhague, casa da Ugly Duck Brewing Co., cervejaria que retorna com a Kinky Cowboy Texan IPA, que homenageia o cantor, compositor, romancista e político Robert “Kinky” Friedman e brinca com o “estilo” Texan IPA porque fica no meio do caminho entre as IPAs da Costa Oeste e as New England na ponta Nordeste dos Estados Unidos. Na receita, os lúpulos El Dorado, Amarillo e Citra encontram os maltes Pilsner, Caramel, aveia e trigo. De coloração amarela com toques alaranjados, turva e juicy, mais creme bege clarinho praticamente branco e espesso de ótima formação e média alta retenção, a Ugly Duck Kinky Cowboy Texan IPA exibe um aroma com notas que sugerem frutas tropicais cítricas (abacaxi, toranja, maracujá) além de suave herbal e doçura de trigo. Na boca, laranja, limão e toranja caprichadas no primeiro toque seguidas de herbal e amargor suaves (por volta dos 50 IBUs aconchegantes). A textura é suave e picante (de lúpulo e, aparentemente, levedura – Nottingham). Dai pra frente surge uma baita cerveja, mais West Coast do que New England, ainda que dê para pinçar algo da nova escola IPA, principalmente no final, com leveza cítrica e suave condimentação. No retrogosto, toranja suave, maracujá marcante e leve condimentação. Delicinha!

Da Dinamarca para Ingelmunster, cidadezinha belga que abriga a cervejaria Van Honsebrouck, fundada em 1865 e responsável por, entre outras, a linha Kasteel, que já passou por aqui com alguns de seus principais rótulos. Desta vez, quem chega é a Kasteel Barista Chocolate Quad, que surgiu com o nome de Kasteel Winter, mas teve sua denominação alterada para esta que sugere café e chocolate, que não utilizados na receita, mas são sugeridos intensamente no conjunto. De coloração marrom bastante escura com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção, a Kasteel Barista Chocolate Quad exibe um aroma intenso de chocolate amargo, tipo cacau 70%, o que também traz sugestão de café e, ainda, avelã, amêndoas, nozes e baunilha além de leve percepção dos 11% de álcool. Na boca, chocolate amargo (mas não tão amargo) no primeiro toque acrescido de avelã e nozes. Na sequencia, o álcool coloca suas asinhas de fora e caramela chocolate, avelã e baunilha. A textura é sedosa e licorosa com o álcool facilmente perceptível (e até agressivo), o que não acontece no trajeto normal. Dai pra frente, uma bela Belgian Strong Ale com a doçura do malte chocolate conseguindo amaciar o álcool em boa parte do tempo. No final, chocolate, calor alcoólico e picância. No retrogosto, avelã, baunilha, álcool e picância. Gostei e parece ótima para o inverno.

A segunda belga é de Harelbeke, pequena cidade de 26 mil habitantes que abriga a Brouwerij De Brabandere, cervejaria responsável pela elogiada linha Petrus e também pela boa witbier Wittekerke, que ressurge aqui na versão Wild, que nada mais é do que a versão tradicional da Wittekerke acrescida das leveduras selvagens que ficam no interior dos barris onde são produzidas as Petrus Aged Pale, uma Flanders Ale que é o destaque da casa. De coloração amarelo palha (como a versão base, que segue a escola Hoegaarden) com creme branco de boa formação e média alta permanência, a Wittekerke Wild exibe um aroma bastante cítrico puxado para o limão, mas com uma pegada levemente funky, com azedume suave e percepção de acidez. Remete a um Gatorade Limão com um fedorzinho delicioso e característico de levedura selvagem. Há, ainda, condimentação (semente de coentro). Na boca, doçura cítrica no primeiro toque se abre delicadamente e rapidamente wild, logo depois encoberta pelo cítrico (limão). A textura é suave com leve picância (e muita levedura selvagem) sobre a língua! Dai pra frente, segue-se um conjunto caprichado que une refrescancia com uma provocação apaixonante, levemente acética. No final, um azedinho. No retrogosto, adstringência suave, limão, coentro, azedinho e acidez. <3

Da Bélgica para a Sérvia, primeiro com a Kabinet, que já esteve presente por aqui com a Melissa e com a Olga on Cardamomo, e agora retorna com a Mozaik, uma American Pale Ale com os lúpulos Magnum, Columbus, Amarillo e Mosaic. De coloração âmbar e creme bege de ótima formação e longa retenção, a Kabinet Mozaic apresenta um aroma com notas herbais em destaque (a cervejaria define como um “passeio num bosque de pinheiros”) acompanhadas de leve cítrico e também de doçura de caramelo. Na boca, herbal muito mais macio do que no aroma acompanhado de caramelo no primeiro toque. Depois, amargor bem suave, 35 IBUs comportados que vão se adequando ao paladar. A textura sobre a língua é cremosa e um tiquinho picante (o que acentua o amargor na sequencia). Dai pra frente, uma APA sérvia bastante digna, com pinho e um tiquinho de toranja em destaque. No final, amargozinho suave. No retrogosto, cítrico macio, caramelo e pinho. Boa.

A segunda cerveja da ex-Iugoslávia é produzida na fábrica da servia Kabinet, mas a receita é da cigana croata Visibaba Brew Co, de Zagrebe, que inclusive produziu suas seis receitas (até o momento) no país vizinho (muitas inspiradas na música como Bob Barley Porter, Janis Hoplin IPA e John Lemon Witbier). Aqui temos a Oat Dirty Bastard, Oatmeal Pale Ale que foi a quarta receita dos croatas, e exibe uma coloração âmbar alaranjada e creme bege clarinho de boa formação e retenção. No nariz, malte e aveia marcam presença junto a sugestão tropical de frutas cítricas e um herbal sutil que remete a capim limão. Ainda é possível perceber doçura que remete a bubblegum. Na boca, doçura intensa e frutado cítrico no primeiro toque seguido de amargor bem suave para os 45 IBUs adiantados pelo rótulo (30 estaria bom, e olhe lá). A textura é cremosa e picante (e doce). Dai pra frente, uma cerveja refrescante, bastante caramelada e levemente tropical. No final, amarguinho e cítrico, que se estendem também ao retrogosto, suave. Boa.

Balanço
Começando pela alemã Fürstenberg com um lançamento da cervejaria que ostenta 8 séculos no rótulo, a Black Forest Pils é uma German Pilsner que tem potencial para surpreender alemães e fãs da escola alemã, ainda que, no geral, soe uma Heineken com lúpulo um tiquinho mais pegado. Da Alemanha para os Estados Unidos com a Sierra Nevada Tropical Torpedo, uma versão mais leve da Torpedo Extra IPA, e com pegada mais cítrica, ainda que, na taça, o herbal e a resina continuem com bastante destaque. Bem bacana. Já a Brooklyn Summer Ale é uma English Pale Ale discretíssima, que vale muito num dia de calor se o preço estiver convidativo. A nacional Dom Brás é uma boa Belgian Blond travestida de Witbier. Já a Roleta Russa Easy IPA é uma Session interessante, saborosa e refrescante. Agora Dinamarca e mais Eviltwin na área: a Sanguinem Aurantiaco é uma Sour cuja fruta adicionada, a Orange Blood, acrescenta camadas de cítrico e doçura sem tentar domar o azedume. Gostei. Mas gostei ainda mais da Ugly Duck Kinky Cowboy Texan IPA, uma New England meio West Coast simplesmente deliciosa. A primeira belga é da linha da Kasteel e trata-se de uma Barista Chocolate Quad que não tem nem café e nem cacau, ainda que emule caprichadamente os dois ingredientes, que acabam cumprindo a função de encobrir os 11% de álcool… com louvor. Boa! A outra belga, a Wittekerke Wild, é uma Witbier com levedura selvagem. E é incrível. Um Gatorate Limão Flanders Ale (risos). Que delicia. A servia Kabinet Mozaic é uma APA que honra o estilo. Fechando com uma croata feita na Sérvia: Visibaba Pivo Oat Dirty Bastard, uma APA doce demais, mas interessante.

Fürstenberg Black Forest Pils
– Estilo: German Pilsner
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.00/5

Freigeist Hoppeditz
– Estilo: Doppelsticke Altbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.80/5

Sierra Nevada Tropical Torpedo
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3.45/5

Brooklyn Summer Ale
– Estilo: English Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2.92/5

Dom Haus Dom Brás
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.00/5

Roleta Russa Easy IPA
– Estilo: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.19/5

Eviltwin Sanguinem Aurantiaco
– Estilo: Sour
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 3.8%
– Nota: 3,34/5

Ugly Duck Kinky Cowboy Texan IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,78/5

Kasteel Barista Chocolate Quad
– Estilo: Belgian Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,50/5

Wittekerke Wild
– Estilo: Speciality Beer
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,65/5

Kabinet Mozaic
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Servia
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3,42/5

Visibaba Pivo Oat Dirty Bastard
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Croácia
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,10/5

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