Entrevista: 10 dias com Juvenil Silva

 por Rafael Donadio

Sempre fazendo a curva ao contrário, Juvenil Silva segue reinventando, longe das sombras do manguebeat. Hiperativo, escreve a própria história, movimentando a capital de Pernambuco sem fincar as antenas no mangue, mas muito atento ao que o circunda.

E foi em uma viagem, no começo de maio, que eu tive o prazer de dividir o apartamento com ele, durante 10 dias. Entre conversas e cervejas das noites loucas de Olinda e Recife, conheci melhor Fabio Alves da Silva, vulgo Juvenil, e me aprofundei no álbum mais coracional desse rapaz hiperativo, “Suspenso” (lançando em 02 de março de 2018). E tudo que os envolve.

Mas para falar do disco é preciso conhecer a faixa bônus “Pulgas no Planeta”. Voz e violão de Juvenil, trompete de Marcio Oliveira e programações de Jalu Maranhão dão um ar de suspense à canção de três minutos e meio. O trio refaz a sonoridade de uma orquestra (de câmara, para não dizerem que exagero) que celebra o amor. Não o amor único, mas o seu, o nosso, deles, de cada um. “Amores, amores, amores…”

E não poderia ser em outra data, se não o hoje, Dia dos Namorados, o lançamento desta canção: “O amor não existe. Não assim, como é colocado, de forma singular, congelada e fechada no sentido de ser. O que existe é plural e subjetivo. Amores, um para cada pessoa na face da terra! O Dia dos Namorados é uma data ridícula, onde esse amor é propagado de forma comercial e babaca. Aquela coisa normativa e boazinha no outdoor, na TV. Não é isso que me interessa, o que me interessa é reivindicar, abrir os olhinhos para nós mesmos e para essa particularidade agredida. Zezinho gosta de Juquinha, mas papai diz que ele precisa fazer judô e ser feroz. Toda essa ladainha propagada por gerações, pela cultura, a religião, a família… Todas essas células ultrapassadas, que perpetuam, intactas, travando nossas evoluções naturais.”

Desta forma, explicando uma música que não estava no disco, Juvenil explica “Suspenso”. Uma obra sobre o amor, o amar e o desamar. O amor primitivo, particular, subjetivo, plural, liberto e louco. Aquele sem razão, sem sentido e até infantil, que, infelizmente, perdemos por regras e imposições. O “Amor Primo”, como ele mesmo canta. “Pulgas no Planeta” surpreende também na produção, realizada por Jalu Maranhão, no Estúdio El Toboso (Recife). Diferentemente da tradicional afinação em Lá 440 Hz (convencionada pelos alemães, pré Segunda Guerra Mundial), a canção de Juvenil foi produzida em Lá 432 Hz. Segundo Jalu, existe um movimento mundial de retorno dessa afinação, que é a referência do A1 Oriental, aproximando-se da música natural. Porque, se é para falar de amor da forma mais crua e desnuda possível, que a sonoridade a acompanhe.

SUSPENSO
Além da tríade folk, rock e psicodelia, que acompanha os dois primeiros discos, “Desapego” (2013) e “Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum” (2014), as novas composições recebem, em “Suspenso”, a mistura de um Juvenil mais maduro. Com 13 faixas (até hoje), o trabalho aflora sentimentos num cruzamento musical. Uma confusão de ódio, agonia, carinho, prazer, tesão… “sentimento onipresente na possibilidade”. Mas independente de como aflore, será sempre “transante e dançante, porque é assim que é melhor para se viver”.

Juvenil canta sem medo da cafonice de amar. Pelo contrário, mostrando a cafonice de toda e qualquer barreira imposta a esse sentimento. Tudo em uma confusão de gêneros harmonicamente organizados: Vanguarda Paulista, “refrão meio Tim Maia”, “The Kinks, garagem anos 1970”, “rock’n’roll doido, jovem”, T. Rex, Stevie Wonder, brega da década de 1970 e 1980 – “meio Reginaldo Rossi ou banda Labaredas” –, progressivo, “músicas latinas, Academia da Berlinda, coisas bem de Olinda”, Hyldon, Cassiano etc. Música onipresente na possibilidade.

E foi vivendo amores, desamores, solidão, solitude e putaria que Juvenil juntou músicas suficientes para tratar de um tema tão complexo, mas, que no desapego coracional do pernambucano, torna-se simples, como um dia há de ser. Sem amarras, sem certo ou errado. “Quando eu falo de amor no disco, eu falo do meu (rs). Não posso falar dos outros não. Mas eu sugiro que as pessoas entrem no próprio sentimento, não no massificado. Então, eu falo sempre tentando aprimorar e amadurecer”, explica.

“Suspenso” foi mixado por Arthur Dossa e Bruno Freire, gravado no Estúdio Casa do Kaos (Recife/PE), Casa da Pompeia (São Paulo/SP) e em home studios de amigos. Captado por Homero Basilio, Arthur Dossa, Adriano Leão, Gilvandro R, Diego Firmino, D Mingus, Bruno Freire e Rama Om. O disco foi finalizado e masterizado por Adriano Leão, no Estúdio Casa do Kaos (em Joao Pessoa/PB).

DEPENDURADO
No meio do percurso, as canções e todo o conceito do disco esbarraram nas cartas do Tarot, que chegou a Juvenil por meio de uma “amiga mística, toda bruxa”, como definiu, carinhosamente, o músico. Mais especificamente, a carta d’O Dependurado. Foi, então, que Juvenil se descobriu suspenso no planeta.

“A energia do Dependurada fala de aceitarmos a natureza das coisas, elevando-nos acima da frustração pelo que não corre de acordo com o que possamos ter sonhado. As coisas são o que são e o Dependurada escolhe não as modificar, ao ter consciência de que isso não surtiria efeito. Então, afasta-se e espera, procurando ver todos os ângulos dos problemas que tem pela frente, mas vê-los de cima, de um patamar onde o envolvimento emocional é atenuado ou mesmo suprimido. Transcende.” Texto do arcano A Dependurada, clássico relido e retratado pela artista maringaense Elisa Riemer, em Nosotras.

E foi num domingo, antes do meu voo de volta para casa, aproveitando as últimas cervejas, depois de uma tarde inenarrável no Bar Iraq, que emergimos. Saíram das incontáveis conversas, e algumas mensagens a mais – para lembrar exatamente o que havíamos dito – todas essas informações, inclusive o faixa a faixa abaixo:

DEGOLADO
“Degolado” vem dessa brincadeira de falta de consciência no sentimento. Sem cabeça. Eu tinha a impressão que o sentimento do amor era um sentimento onipresente nas possibilidades, mas acaba sendo posto, por muitos, como uma coisa negativa, e se perpetuando assim. Eu pergunto, então, onde que estava isso que eu sinto agora, em relação a dor? Quando eu estava com a pessoa eu não sentia isso. Por que a gente está sofrendo se a gente está junto na consciência, no coração?

HOMENS PARDAIS
Essa música veio de uma época que eu não tinha onde morar. Então, Jalu Maranhão (autor da música) me chamou para morar na casa dele e me mostrou essa música. Ela chamava “A Terra é Pequena Pra Mim”, mas eu mudei para “Homens Pardais”, que é uma música que fala sobre transcender a dor e a diversão. Muita coisa em relação a coragem, libertação e voo livre, que eu me identifiquei.

Jalu Maranhão: Eu fiz a música há uns 15 anos. Ela fala sobre liberdade, de como um homem deve ser um cidadão do mundo.

AS COISAS NÃO SE AJEITAM SOZINHAS
É uma canção que passa mais ou menos a ideia: “A ficha caiu”. De olhar em volta e ver que está tudo muito troncho e, de certa forma, aceitar uma parte disso, para poder resolver e encarar. E por outro lado de duvidar de muita coisa em torno daquilo que estava acontecendo. Quando eu voltei para Recife, depois de uma viagem ao Sul, e não tinha lugar para ir, eu fui para casa de minha família. Quando eu voltei, primeira coisa que minha tia me disse foi: “Menino, tu tais perdido, né?” Aí eu ri, brinquei. Sentei na cama e fiz a música.

GAIOLA
Ela veio de uma reflexão do que é liberdade. Veio como uma coisa contestadora, sobre liberdade, amor livre e essas coisas. E ela veio depois de eu sair da casa da minha família, quando eu passei por uma rua, por um vizinho que sempre teve um passarinho. Ele fez da garagem dele uma gaiola enorme. Então, ele meio que forjava uma liberdade dos passarinhos dele. E talvez para ele mesmo também. E, no total, a liberdade é uma grande utopia. É o que eu acho.

OSCILANDO
Quando morei de favor na casa de Jalu Maranhão, em troca, eu ficava ajudando ele a gravar as músicas dele. Ficava todo dia gravando, arranjando, discutindo pesquisas e estudos. Lá eu tive romances, histórias, e Oscilando eu criei lá. Fiz bem rápido, no meio das reflexões, das discussões de relacionamento e dos pensamentos em torno desses romances. Fala sobre o amor que vai e vem, dos altos e baixos. Que vai às vezes tão longe e se perde, que não tem mais volta. É uma música que fala de amor mesmo, de desencontros no amor.

SE O MEU LEGAL TE FAZ MAL
Era uma música da Canivetes. É engraçado, porque é como se fosse uma semente desse disco. Eu fiz essa música quando tinha uns 18 ou 20 anos de idade, era muito jovem, e não entendia muito bem o que eu estava falando ali e nem o que significava direito. Então eu resolvi gravar de novo, porque tinha pouco conhecimento e não tinha um registro. É uma homenagem a minha infância e a minha adolescência. É uma música meio cruel, com uma letra que fala um pouco da minha infância, da solidão, da solitude da minha infância. A música é um tipo de alerta, dizendo para ficar longe, caso não ache legal as coisas que eu penso e falo.

SOLITUDE ESPONTÂNEA
É uma música instrumental, que se comunica apenas com o título. Deixa a reflexão do que seria a solitude espontânea. Essa questão da solitude espontânea é algo que eu sempre busquei e fui fascinado. É a arte de ser só, estar só, e estar bem. É uma coisa que eu confesso que eu busco, mas não domino muito. Mas quando eu fiz eu estava solteiro e estava bem. Estava sentindo essa solitude espontânea. Primeira coisa antes de estar com alguém é poder estar bem sozinho, porque você vai dar coisa boa para essa pessoa. E ela também, estando legal, vai retribuir coisa boa, então vai ser um casal foda.

CABEÇA CORAÇÃO
Depois da casa de Jalu, fui morar em um atelier, também em Olinda, de Flavio Emanoel. Amigo, artista plástico, coroa muito louco que deixa Jim Morrison parecendo um bebezinho careta. De vez em quando ele me alfinetava: “Você ainda é muito jovem, tem muito o que aprender, muito o que errar.” Eu lembro que o mote dessa música surgiu com isso, “não há idade de errar”, porque eles também erravam, assim como eu e todo mundo. E essa coisa de confundirem meu corpo, minha alma, meu coração, minha cabeça. Querem botar tudo como uma coisa só, mas não é! Nós somos muitos.

ZANZA
A música é a que mais mostra a rotina de que como eu estava na época. Eu andando por aí, sentindo aquelas coisas todas, sofrendo mesmo, agoniado. Uma letra forte, densa e tensa. Porém, são instigadas. São as coisas que boto de maneira tensa, mas transante e dançante, porque é assim que é melhor para se viver.

VACAS MAGRAS
Em Vacas Magras a gente dá um salto para trás no tempo. O disco tem toda uma ordem cronológica e lógica, mas essa é uma fenda. Não sei porque eu escolhi fazer isso, mas eu escolhi. É sobre a pessoa saciar o desejo de expansão, de liberdade, de experimentação, que é o que eu falo muito no disco. É uma música que eu fiz depois de uma separação de um relacionamento. O disco também tem muito a ver com esse período pós ruptura, de lugar, pessoas, amizade, romance, relacionamentos, ruptura até de si mesmo. Mas ela poderia ser a primeira música, porque ela fala de um período antes desse afastamento todo.

AMOR PRIMO
Talvez o amor primo seja um dos amores idealizados nessa ânsia do disco. Esse disco anseia muito por um amor diferente, por essa expansão da palavra amor, dessa postura de relacionamentos e relações, em que a gente quer uma coisa nova, revolucionária e forte. Jean Santos pediu para eu fazer essa música para um dos filmes dele, “Superpina”. Não é bem o amor livre, é um amor primitivo, liberto e louco, sem razão. Sem sentido, até infantil. Coisa que só as crianças têm.

DE QUE ADIANTOU
Uma canção que quase não entrou no disco, pelo fato de eu achar ela um tanto cruel, uma canção dura. Diz as coisas na cara, de uma maneira até cínica. Porém, não estou falando de uma pessoa específica, eu falo de diversos personagens, fictícios e reais. Então, acabo formando um personagem só, potencializado. Fala em suicídio e sobre fugas e mais fugas para superar a dor. No final, a letra da uma suavizada, até uma brincada com aquela dureza do começo.

DE UMA FORMA OU DE OUTRA
O meu amigo que produziu o disco, Arthur Dossa, brincou que era muito difícil a galera fazer rock’n’roll no tom de Fá. Então eu resolvi fazer a “De Uma Forma ou de Outra”, que é a minha primeira música feita em Fá. E é só isso: “Meu bem/no fim/de uma forma/ou de outra/nós vamos/dançar.” É o que eu falei antes, mesmo que seja mal, as músicas vão ser dançantes, para cima, harmonicamente, melodicamente e ritmicamente falando. E no sentido da palavra mesmo: de uma forma ou de outra, a gente se fode ou vai dançar. Para mim, é o grand finale.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista maringaense que está sentindo na pele a  dificuldade de fazer produção cultural nos feudos paranaenses (mas não vai desistir).

 

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