Arnaldo Baptista na Caixa Cultural SP

Texto por Cainan Willy
Fotos por Adriana Aranha
Vídeos por Donnie Darko 73

A importância e influencia de Arnaldo Dias Baptista já não pode mais ser mensurada, chega a ser impossível resumir seu trabalho em uma década, uma banda ou um disco. Não é à toa que, certa vez, o maestro Rogério Duprat definiu o cantor e compositor como responsável por tudo que aconteceu na música nacional após 1967, justamente o ano em que Os Mutantes surgiram, abalando as estruturas da recém-nascida Tropicália.

Na época, Arnaldo dividia suas criativas composições com o irmão Sérgio Dias, que se mantem como único integrante original na versão renascida dos Mutantes hoje em dia, e a amada Rita Lee. Não seria tolice dizer que Os Mutantes talvez tenham sido a maior banda brasileira de todos os tempos, tanto criativamente quanto em questões de público, já que apesar de pequeno na época, seu fã-clube sempre aparece renovado e, de geração em geração, ‘o povo entendido de música’ (de Caetano e Gil a Kurt Cobain e Sean Lennon) jamais deixará um legado tão importante cair no esquecimento novamente.

Prestes a completar 70 anos de idade, Arnaldo Baptista vive uma vida que muitos artista almejam: passa a maior parte do tempo em casa, com a esposa, seus discos e instrumentos. Ver uma de suas raras apresentações ao vivo são oportunidades únicas e não devemos deixa-las passar. Assim, no final de semana da Virada Cultural em São Paulo, no Edifício Sé, que hoje abriga a Caixa Cultural, Arnaldo esteva em cartaz com o show “Sarau o Benedito?”.

Durante três noites, Arnaldo apresentou clássicos de sua carreira. O publico teve o privilégio de assistir ao vivo canções de um repertório que já pertencem ao imaginário coletivo, como por exemplo “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?” e “Balada do Louco”, além de “Jesus Come Back to Earth”, “The Cowboy” e “Não Estou Nem Aí” e uma (tradicional) versão para “Rocket Man”, de Elton John, e “As Time Goes By”, da trilha sonora clássica do filme “Casablanca” (1942).

Ao fundo do palco, algumas obras de arte criadas por Arnaldo foram projetadas, os traços abstratos e as cores vivas contribuíram muito com o espetáculo, sugerindo ambientes diferentes, instigando a imaginação e criando ambientes singulares para cada um dos momentos do show, afinal cada música carrega uma história peculiar. Desta maneira, a psicodelia característica intensamente associada ao músico se faz presente.

Tocando e cantando ao piano, Arnaldo Baptista apresenta sua mais singela simpatia. Ele se mostra também tímido e como uma criança festeja a alegria do público que o recebe com uma salva de palmas e coração aberto a versões flutuantes de seus clássicos. Uma apresentação indispensável para amantes da música nacional. É como estar diante de um fundador do rock brasileiro, vê-lo atingir 70 anos e continuar persistindo em suas convicções, seguro de suas composições e extremamente atualizado.

Após a sessão de três noites ao vivo na Caixa Cultural São Paulo, Arnaldo Baptista recebeu uma homenagem capitaneada por Rodolfo Krieger (Cachorro Grande), que prepara seu primeiro trabalho solo, antecipado pelo single “Louvado Seja Deus”, que conta com sample participação de Arnaldo Baptista. O disco tem previsão de lançamento para os segundo semestre de 2018.

Krieger surgiu acompanhado, no mesmo palco, por Eduardo Barreto, Pedro Leo e Charly Coombes e apresentou no domingo versões de álbuns clássicos de Arnaldo, como “Singin’ Alone” (1982), “Elo Perdido” (1987) e “Let it Bed” (2004) – a noite contou ainda com os convidados China, Hélio Flanders, Karina Buhr e Lulina fechando com chave de ouro uma grande homenagem a Arnaldo Baptista.

– Cainan Willy (www.facebook.com/CainanWily) e editor chefe do site Pacovios.

6 thoughts on “Arnaldo Baptista na Caixa Cultural SP

  1. Com todo respeito aquele que é considerado por muitos como nosso Syd Barret, me pergunto “Jesus Come Back to Earth”, “The Cowboy” e “Não Estou Nem Aí” no imaginário coletivo de quem? Se eu caminhar pelas ruas de qualquer cidade brasileira cantarolando essas músicas elas serão plenamente reconhecidas? Elas são tão conhecidas como Chega de Saudade, Quero que vá tudo pro inferno, tempo perdido, eu sei que vou te amar, detalhes, ouro de tolo etc?, ou seja, canções que realmente fazem parte de um imaginário coletivo brasileiro? Acho difícil. Da mesma forma, apesar do respeito ao que disse o Rogério Duprat (suspeito pra falar), dizer que Mutantes foi responsável por tudo o que veio depois…sinceramente, não vejo a existência do Clube da Esquina ou do chamado ‘pessoal do Ceará’, vinculados a uma existência ou não dos Mutantes, que, geralmente se esquecem disso, fez discos muito fracos nos anos 70, não mantendo uma carreira consistente. “Não seria tolice dizer que Os Mutantes talvez tenham sido a maior banda brasileira de todos os tempos, tanto criativamente quanto em questões de público, já que apesar de pequeno na época, seu fã-clube sempre aparece renovado e, de geração em geração, ‘o povo entendido de música’ (de Caetano e Gil a Kurt Cobain e Sean Lennon) jamais deixará um legado tão importante cair no esquecimento novamente”. Não, não seria tolice, mas seria sim uma espécie de hype influenciado por ‘influenciadores’.

    1. Tudo depende de ponto de vista. Creio que o imaginário coletivo que o Cainan se refere é o de quem conhece música. Em um país cada vez mais enormemente pobre culturalmente, uma ressalva dessas é necessária. Porém concordo que o Mutantes não foi responsável por “tudo” o que veio depois, como os exemples citados, ainda que muitos ai tenham bebido na mesma fonte. Mesmo assim eu teria cravado com mais facilidade o Mutantes como a maior banda brasileira de todos os tempos, porque a concorrência é uma piada. Legião? Uma cópia ridicula de Smiths que só se salvou pq tinha um frontman genial? Pare, né. 50 anos depois, quase ninguém que faz rock no Brasil alcançou a genialidade dos Mutantes, e nem mais vai alcançar pq o mundo moderno não permite isso. “Ah, é hype de influenciador”. Cada um escolhe a venda que quer para colocar nos olhos. Sinta-se à vontade.

      1. O trabalho dos mutantes até o bauretz (que nem é tão bom como os antecessores, pelo contrário) é SENSACIONAL, porém não tenho certeza em assegurar como a maior banda brasileira de todos os tempos, até pq tem novos baianos, que realmente misturou rock com tudo que tinha. Mais ainda, nem dá pra comparar os próprios mutantes com Rita Lee, seja com Tutti Frutti, seja com Roberto de Carvalho.

  2. Concordo com o Ismael de que dizer que músicas como “Jesus Come back to earth” e “The cowboy” fazem parte do imaginário coletivo é forçar a barra demais. Acho que nem que é fã dos Mutantes conhece essas músicas aí. Me lembrou um tópico de um fórum de contrabaixistas que dizia que “todo” baixista que se preze foi influenciado por Victor Wooten sendo que na real a maioria dos baixistas nem sabe quem ele é e na verdade a maioria se influenciou por Steve Harris, Flea e Champignon.

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