Entrevista: Alfonsina

por Leonardo Vinhas

Um dos nomes mais comentados da cena pop recente do Uruguai, a cantora e compositora Alfonsina, passou pelo Brasil em abril em uma espécie de “anti-hype”. Se em seu país natal ela é um nome inescapável em discussões sobre o momento atual da música, por aqui ela fez cinco apresentações para pequenos públicos em lugares modestos de Campinas, São Paulo e Brasília.

Ok, um dos shows da capital federal foi exceção: na cervejaria Criolina, ela conquistou o nada desprezível público cativo do local, legando uma memória inesquecível a quem esteve presente. Ainda assim, não deixa de espantar que uma artista em ascensão e já praticamente estabelecida em sua zona de conforto se arrisque tanto em um país estrangeiro, ainda mais sem o apoio de uma gravadora que bancasse sua investida brasileira.

Esse foi o principal assunto do papo que rolou entre ela e o Scream & Yell em uma manhã atipicamente fria e chuvosa de abril. No café do Centro Cultural São Paulo, Alfonsina também aproveitou para fazer um balanço de sua carreira, citou Larissa Baq (LaBaq) e Ava Rocha como artistas nacionais com quem adoraria trabalhar, e discorreu sobre as premissas e condições que nortearam sua mudança sonora de um disco para outro.

A jovem começou sua carreira em 2010, ainda com influências do jazz e da canção popular uruguaia. Seu primeiro álbum, “El Bien Traerá el Bien y El Mal Traerá Canciones” (2015), passou por reconhecimento de público e crítica, incluindo o Prêmio Grafitti (o mais importante da indústria fonográfica uruguaia) de Melhor Artista Novo. Porém, “Pactos” (2017), seu sucessor, veio como um disco pop climático e minimalista, bem diferente da sonoridade de sua estreia. Isso não o impediu de manter – ou mesmo ampliar – o respeito conquistado, o que incluiu a presença na lista de “10 Discos do Ano” do jornal El Pais.

Alfonsina voltará ao Brasil ainda duas vezes nesse ano: está escalada para o lineup de vários festivais. Em agosto, por exemplo, sobe ao palco do Locomotiva (em Piracicaba-SP) ao lado de nomes como Boogarins e Rakta; em novembro, é a vez do MADA (Música Alimento da Alma, em Natal-RN). A presença em outros festivais deve ser anunciada em breve, e não estão descartadas outras apresentações “avulsas”. Mas antes de vê-la ao vivo nessas datas, confira a primeira entrevista já concedida pela moça a um veículo brasileiro.

No Uruguai, você é um nome conhecido, marca presença no lineup de festivais (como Flis, Contrapedal e Montevideo Rock), suas músicas tocam na rádio e entram nas playlists mais relevantes dos serviços de streaming para o país. Aí você vem para um país como o Brasil, na qual você é praticamente desconhecida. Qual é a motivação, artística e de estratégia de carreira, para investir tempo e dinheiro e ainda encarar o risco de lidar com públicos desconhecidos?
Artisticamente, é uma coisa de abrir mundos. Primeiro, com canções, que você não sabe o que vão provocar, e depois por se meter em situações nas quais você não sabe o que fazer. E tem a ver com liberdade, porque para nós está lindo poder sair de nossa cidade. Montevidéu é muito pequena, aqui (no Brasil) há uma cultura que nos interessa muito.

Mas mesmo com esse tamanho pequeno da sua terra natal, que ainda goza de certo isolamento, sua música soa bastante cosmopolita… Mais que muita coisa que se produz em uma metrópole como São Paulo, por exemplo.
O lance é que nós já somos filhos da internet, que é um terreno onde se permeiam todas as culturas. A mistura que acontece quando você entra no Youtube e salta de uma coisa para outra, de um estilo para outro, com apenas um clique de diferença… Tempo, espaço e vida são muito relativos quanto à música, quanto à cultura, então podemos tomar um pedacinho de cada coisa. Se pegarmos a música fundacional do Uruguai, como Eduardo Mateo (nota: Mateo, 1940-1990, é uma das maiores referências do cancioneiro uruguaio, criador de um estilo único de tocar violão), vemos que ele está muito influenciado pela música brasileira, sua inspiração que o levou a fazer música foi “Orfeu da Conceição” (álbum de 1956 de Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Assim, todos que fazemos música no Uruguai temos uma conexão com a música brasileira, porque a música tem esse leva-e-traz. Hoje em dia, com a internet, isso está muito mais forte. Passei muitos anos da minha vida não fazendo nada além de ir para a universidade e de lá para casa ouvir música. Essa foi minha formação. Escutei tecno, depois Charly García, depois jazz, passei depois a entender mais o pop, fui então para Bjork, Saint Vincent… Gosto de tudo, de Los Lobos a João Gilberto. E tudo isso foi responsabilidade da internet.

O mercado musical uruguaio gera uma renda inversamente proporcional à riqueza de sua música (risos). É espantosa a velocidade que se lançam discos, e mais que isso, bons discos! E há uma geração mais recente, que incluiu gente como Molina y Los Cósmicos ou Mux…
(empolgada) Sim! Que banda boa!

Enfim, é gente que está mais aberta a ir para fora, até para buscar novos mercados. Mas ainda assim, é muito difícil viver de música no Uruguai. Qual é o estímulo para continuar compondo e lançando material novo, já que mesmo lugares para tocar são poucos?
Fazem por amor. E acho que as limitações fomentam a criatividade.

Vamos voltar aos shows no Brasil. Como você sentiu a conexão com o público de São Paulo e Campinas?
Em São Paulo, as pessoas que falaram comigo comentaram bastante do som da banda. Porque o disco é, de fato, mais som e menos palavras. Há mais texturas sonoras que uma história a ser contada. Quer dizer, há essa história, mas você precisa escutar da faixa 1 a faixa 10 para sacar qual é. E parece que aqui existe uma abertura para quem faz isso. Ou talvez seja porque somos estrangeiros

Porém, Brasília foi bem diferente, não? Teve mais atenção, mais envolvimento, gerou uma comoção mesmo, especialmente na apresentação na cervejaria Criolina. O que houve de diferente?
Antes de mais nada, em Brasília havia gente (risos). Pra falar a verdade, não saberia de dizer. Ouvi falar que o público de Brasília é muito aberto aos sons de outras partes do mundo, Mas gostei muito das pessoas que encontramos em São Paulo, e eles também se entusiasmaram. Só não havia tanta gente. Mas de pouco em pouco, avançamos.

Como você gestiona essa questão de produzir discos, armar turnês e tudo o mais?
Durante muito tempo, trabalhei do-it -yourself e isso tem um limite. Fui a uma feira na Colômbia (Circulart) e aí vi quão profissional podia ser o gerenciamento e agenciamento de artistas. E aí me encontrei com ela (aponta para sua empresária, Valentina Romano), e com ele! (o produtor brasileiro, Rafael Lopes). Nas feiras, vi a importância de ter uma equipe. Para eu vir para cá, o trabalho dos dois foi imprescindível. E é muito importante que esses agentes [do meio musical] estejam profissionalizados. Já trabalhei com produtores no Uruguai que tinham outro emprego, e de hobby faziam essa outra função. Aí até fechavam uma ou outra data, mas eram datas que eu mesma poderia ter conseguido, entende? Não é o mesmo que trabalhar com uma pessoa que está em contato com instituições, gerando movimento, não sendo passivo. A profissionalização desse setor nos beneficia a todos.

Agora há pouco, você falou que seu último álbum, “Pactos”, conta uma história que só é percebida se você o escuta do começo ao fim. Ou seja, foi pensado como um álbum, que é algo que parece se desmantelar nessa mesma era internética sobre a qual falamos. Estamos voltando ao tempo dos singles, mas mesmo assim, você prefere se concentrar nos discos. O quanto o formato álbum é importante para você?
Para mim, é muito importante. O single não permite uma investigação. Creio que todo músico busca uma investigação que vá além da sua tentativa de entrar no mercado. E para desenvolver essa ideia, você precisa de mais que três minutos. Se em três minutos você conseguir fazer algo contundente, que ótimo! Mas não sei se você vai terminar de explorar uma ideia com esse tempo.

Além disso, o álbum vira uma foto que, quando você olha em retrospectiva, forma uma retrato da maturação do artista.
Claro.

Sendo assim, acho que já passou tempo suficiente para você avaliar suas duas “fotos” fonográficas com a perspectiva do presente.
Com o primeiro, eu buscava um caminho, fazia uma canção mais parecida com um estilo ou com outro… Além disso, entrava no estúdio sem saber como produzir um disco. Fui aprendendo ali. Queria colocar coisas mais polirrítmicas, influenciadas por Aphex Twin ou pelo jazz. Já em “Pactos”, fui aprendendo a ter filtros – que é algo que todos temos que ter nesse mundo atual. O filtro escolhe as melhores partes. Estamos entorpecidos de música, de informações audivisuais, de relações por redes, então é preciso reduzir. “Pactos” tenta reduzir ao mínimo essas informações, filtrar para criar algo novo e original. E tem outra diferença: no primeiro disco, eu ainda acreditava em uma noção de destino, que as coisas iam se resolver quase que sozinhas, que tudo chegaria a um bom lugar. Depois entendi que não, como se a vontade tivesse que tornar concretas as ideias mais sutis. Para ser concreto e contundente, você não pode estar vagando com as notas, não pode perder tempo com ideias que não chegam a lugar algum, tem que ser (estala os dedos). Eu tenho meu baixo, uma bateria, teclado, guitarra e vozes, e disso eu tenho que tirar o mais original que puder, complexo porém simples. A palavra é contundência, e para isso é preciso trabalhar com a vida real, com o momento presente e com o que se tem à mão, e se não filtrar as ideias, não deixar de lado as ambições distantes e difusas, você acaba fazendo arte ruim.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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