Boteco: Cinco cervejarias, Onze cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo muito bem uma série de cervejarias pela Bélgica com a sexta Saison da mítica Brasserie Fantôme a passar por aqui (confira as anteriores): Brise-Bonbons!, uma receita desenvolvida por Dany Prignon para os chatos, com muito mais lúpulo (e amargor) do que as Fantômes tradicionais. De coloração alaranjada levemente turva com creme bege clarinho, quase branco, de ótima formação e média alta retenção, a Fantôme Brise-Bonbons! exibe um aroma que combina frutas cítricas (casca de limão em destaque mais pêssego), condimentação (semente de cravo e ervas), funky derivado da levedura, cereais e percepção de álcool (são 8%). Na boca, caramelo, limão, funky e pêssego formam um conjunto interessante no primeiro toque seguido de calor alcoólico, amargor moderado e condimentação. A textura é sedosa num primeiro momento, mas vai se tornando picante. Dai pra frente, um belo conjunto que se mantém entre o frutado cítrico, o condimentado e a suavidade doce do candy sugar, com amargor e álcool moderados. No final, doçura condimentada. Já o retrogosto acrescenta limão, pêssego, condimentação e calor alcoólico. Delicinha.

A sétima Fantôme a passar por aqui é um experimento de Dany Prignon, que resolveu produzir uma receita com… café. A Fantôme The Coffee Ruby exibe uma coloração marrom alaranjada com creme bege claro de média formação e rápida dispersão. No nariz, café verde, chocolate (mais para amargo do que para doce), cacau, leve amadeirado e especiarias (pimenta e canela, bem sutis). Na boca, o primeiro toque traz doçura de caramelo tostado, levemente queimado, acompanhado de café passado três ou mais vezes no coador. Na sequencia, um meladinho, algo de cappuccino, mais especiarias e amargor moderado. A textura é picante, provocante. Dai pra frente, um conjunto arisco que permanece na aposta da junção do café verde com as especiarias e um leve caramelado tostado, como se fosse um cappuccino temperado. No final, cappuccino com o verde do café bem presente e especiarias. No retrogosto, caramelo queimado, café e especiarias. Interessante.

Da Bélgica para Ribeirão Preto, interior de São Paulo, casa da Invicta, que retorna ao site com seu nono rótulo diferente (veja os demais aqui), a Conan, uma das primeiras New England IPA nacionais, que chegou ao mercado no primeiro trimestre de 2017. Na receita, uma carga de lúpulo de três a quatro vezes mais do que uma IPA bem lupulada, porém a adição da maior carga do lúpulo (Columbus, Mosaic e Citra) é feita no processo de Dry-hopping. A levedura clássica do estilo dá o nome à cerveja, que exibe uma coloração amarela turva, juicy como um suco, com creme branco espesso de excelente formação e média alta retenção. No nariz, notas cítricas intensas sugerindo abacaxi, maracujá e casca de laranja além de percepção herbal (grama cortada) e um leve funky da levedura. Na boca, potencia cítrica desde o primeiro toque, mas na sequencia acrescida de condimentação, doçura e maior percepção herbal. A textura é levemente condimentada e cremosa. Dai pra frente, surge um suco (alcoólico) beeem cítrico, com condimentação leve, doçura média, herbal e amargor suave. O final é doce e picante. No retrogosto, cítrico, herbal, condimentação e doçura numa bela NE.

A segunda da Invicta na sequencia (a 10ª no site) é a Pump King, uma Pumpkin Ale com canela de Java, coentro em grãos, noz moscada, cravo em flor e cardamomo verde além, claro, de abóbora. Na taça, a cerveja apresenta uma coloração âmbar translucida com creme bege de ótima formação e média alta retenção. No nariz, sugestão de doce de abóbora em destaque com cardamomo bastante presente. Ainda é possível perceber o cravo, a noz e a canela numa paleta aromática condimentada, mas que deixa escorrer mel de leve. Na boca, condimentação intensa, doçura de mel e abóbora, tudo junto no primeiro toque. Na sequencia, a condimentação decola e a abóbora arrefece levando consigo a doçura. A textura é sedosa e picante. Dai pra frente, uma Pumpkin Ale bem interessante no equilíbrio que consegue entre os condimentos e a abóbora. Final inicialmente doce, depois condimentado (bem leve). No retrogosto, mais condimentação (suave), abóbora e doçura numa belíssima Pumpkin nacional.

Do interior de São Paulo para Paraisópolis, interior de Minas Gerais, cidade que abriga a Fazenda Santa Teresinha, casa da ZalaZ, que retorna ao site com duas receitas. A primeira delas é a Áurea, estreia da ZalaZ no estilo India Pale Ale, até então inédito no cardápio da casa – o primeiro lote data de novembro de 2017. Na receita, destaque para os lúpulos Mosaic, Citra e Simcoe além da adição de chá da cereja do café recém-colhido na fazenda. De coloração amarela, turva, com creme branco de ótima formação e longa retenção, a ZalaZ Áurea exibe um aroma delicioso, com frutado cítrico em destaque sugerindo tangerina, pêssego e laranja. Na boca, o frutado cítrico continua ditando o ritmo, mas já no primeiro toque sente-se algo diferente, que remete ao chá da cereja do café, ainda que a gente nem imagine o sabor disso. O cítrico segue delicioso, num drinkability fantástico (7.3% de álcool e 50 IBUs). A textura é levemente picante e, dai pra frente, segue-se o ritmo frutado cítrico apaixonante até o final, amarguinho. No retrogosto, percepção sutil de levedura e frutas cítricas. Baita cerveja!

Segunda latão da mineira ZalaZ presente na sequencia, a Pazion é uma American Wheat que recebe adição de maracujá orgânico cultivado no pomar da Fazenda Santa Teresinha, em Paraisópolis. Na taça, a Pazion exibe uma coloração amarela, juicy, com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, doçura encantadora de trigo e frutado cítrico envolvente dividem a atenção do bebedor, com um leve funky de levedura (norte-americana? Provavelmente) e também percepção de Cryo Hops. Entre as frutas, maracujá, um tiquinho de pêssego e doçura de pera formam parte da paleta aromática. Na boca, doçura (com leve percepção de levedura) no primeiro toque com percepção acentuada de maracujá (fruta) e amargor suave de lúpulos (20 IBUs) na sequencia. A textura é levemente picante, bem leve mesmo, e, dai pra frente, surge um conjunto bastante saboroso, com percepção de várias novidades do mundo cervejeiro moderno (levedura e Cryo Hops em destaque) além da fruta. No final, suavidade e maciez com leve picância. No retrogosto, um amarradinho (provável que de Cryo), doçura de trigo e maracujá. Gostosa.

De Minas Gerais para São Paulo com a primeira cerveja da Cervejaria Suméria, cigana de Santo André, na grande São Paulo, que vem produzindo suas receitas na fábrica da Lund, em Ribeirão Preto. A estreia por aqui é também com a primeira cerveja que a Suméria lançou no primeiro semestre de 2014, e abriu as portas para os andreenses: Olivia IPAlito, uma Caramel IPA de coloração âmbar acastanhada com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, caramelão saltando para fora da taça com leve presença de lúpulo herbal e um leve toque cítrico (maracujá) e de mel. Na boca, doçura melada no primeiro toque seguida no segundo seguinte por notas lupuladas bem mais suaves do que se espera, sugerindo herbal e cítrico com amargor moderado (os 59 IBUs do rótulo devem ser 29 na realidade). A textura inicia-se metálica e picante e vai se tornando cremosa. Dai pra frente, surge uma Caramel IPA menor, com lúpulo aparentemente cansado, o que cede espaço para o domínio do malte caramelo, que assume a função do destaque. No final, doçura e um traço de amargor. Já o retrogosto oferece mel e caramelo.

Três anos após o lançamento da Olivia IPAlito, a Suméria turbinou sua receita para transformar a versão original numa Double IPA com 7,6% ABV e 70 IBUs (contra os 5.4% e 50 IBUs da primeira) caprichando na união dos lúpulos Columbus, Citra, Chinook e Mosaic. Com coloração âmbar um tiquinho mais clara do que a versão padrão (até alaranjada) e creme branco de boa formação e longa retenção, a Suméria Olivia IPAlito Imperial IPA exibe um aroma bastante caramelado e com doçura em primeiro plano, mas com notas cítricas e herbais bem perceptíveis. Na boca, doçura melada e bastante cítrico chegam juntos no primeiro toque enquanto o cítrico se sobressai no segundo seguinte até a barreira de amargor, bem equilibrada, conter tudo de maneira suave. A textura é cremosa com leve picância (de lúpulo) e ainda mais doçura perceptível. Dai pra frente, um conjunto menos caramelado do que a versão tradicional, mas com ainda muito caramelo, o que deixa tanto o cítrico quanto o herbal em segundo plano, e até o amargor parece mais suave do que deveria. No final, leve cítrico mais melaço. No retrogosto, cítrico bem suave, caramelo e açúcar. Ok.

Abrindo esse trio Schneider Weisse com a minha segunda TAP 6 Aventinus (eis a primeira), uma caprichada Weizenbock cuja receita traz os lúpulos Magnum e Hallertauer Tradition ao lado de 50% de trigo e 50% de cevada tostada. De coloração âmbar escura e turva com creme bege de boa formação e média retenção, a Schneider Weisse TAP 6 apresenta um perfil aromático riquíssimo, que valoriza tanto as notas tradicionais de uma tradicional cerveja de trigo bávara (banana e cravo) mais acréscimo frutado (ameixa, uva passa e figo) além de pimenta do reino e canela. No paladar, o conjunto envolve o bebedor logo no primeiro toque, com doçura caramelada, toffee e presença de banana e de frutas escuras (figo e uva passa). A textura começa picante e vai ficando cremosa. Dai pra frente, amargor pontual e levemente alcoólico e um final que junta doçura, picancia e leve frutado. No retrogosto, caramelo, cravo, banana, figo e o desejo de beber outra na sequencia (e olha que são 8.2% de álcool).

A segunda Schneider Weisse é a versão Vintage da TAP 6 Aventinus, aqui safra 2013. Ou seja, a turma da cervejaria engarrafou a criança em 2013 e maturou por mais de três anos na própria garrafa dentro de porões na Bavária que antigamente eram utilizados para armazenar gelo do inverno para o verão. A rigor, é a mesma cerveja que a anterior com três anos de guarda na própria cervejaria. De coloração âmbar escura (ainda que um tiquinho mais clara que a anterior) e turva com creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, aparentemente as frutas escuras (ameixa, uva passa e figo) se sobressaem diante das notas clássicas do estilo, mas ainda assim é possível perceber banana e cravo com bastante facilidade além de pimenta do reino e canela (mais sutis, mas presentes). Na boca, frutas escuras dominam o primeiro toque com leve presença de condimentação, mas um conjunto sutilmente mais comportado. A textura começa picante e vai ficando cremosa. Dai pra frente, amargor leve, álcool mais presente e um final que junta doçura, picancia, álcool e leve frutado. No retrogosto, caramelo, cravo, banana, figo. Uma delícia.

Fechando o trio da Schneider Weisse com a Cuvée Barrique safra 2017, conhecida por TAP X, cerveja que é resultado de um blend – da Aventinus (TAP 6) com a também sensacional Eisbock da casa – envelhecido por 8 meses em barris de carvalho de segundo uso inicialmente utilizados para maturação de vinhos Pinot Noir. De coloração acobreada com creme bege de boa formação e rápida dispersão, a TAP X exibe um aroma complexo que combina azedume assertivo com notas frutadas (cereja, morango, uva e maçã), caramelo, madeira e couro. Na boca, azedume suave e frutado no primeiro toque. Logo na sequencia, o azedume aumenta a intensidade e traz consigo vinho, madeira e mais intensidade frutada. A textura é picante, levemente acética e, depois, sedosa (não chega a ser licorosa). Dai pra frente, um conjunto absolutamente incrível, que melhora o blend de duas excelentes cervejas com… madeira e vinho. No final, doçura, frutado, madeira e azedinho com um tiquinho de álcool. No retrogosto, frutado, caramelo, madeira, vinho e amor. Sensacional.

Balanço
Partiu Bélgica com a Fantôme Brise-Bonbons!, uma Saison delicinha com muito tempero, muito cítrico e muito álcool. Uma das melhores Fantômes que já bebi. Já a Coffee Ruby fica um pouquinho atrás (e parecia um pouquinho “cansada” também), mas ainda assim honra o nome da casa. Uma das primeiras NE brasileiras, a Invicta Conan ainda surpreende com um conjunto caprichado e saboroso. Já a Invicta Pump King é uma das melhores Pumpkin Ale feitas no Brasil. Ótima. Boa também é a ZalaZ Áurea, um IPA deliciosa, característica que se mantém na Pazion, uma American Wheat “muderna”. Voltando para São Paulo, a Suméria Olivia IPAlito decepcionou – esperava mais. Já a Double Olivia IPAlito me soou mais interessante, ainda que caramelada demais. Para fechar, três Schneider Weisse: a TAP 6 é uma Weizenbock produzida desde 1907 que poderia ser uma releitura bávara da escola trapista, de tão caprichado que é o resultado. Apaixonado! Já a versão Vintage 2013 desta mesma Schneider Weisse TAP 6 Aventinus oferece uma sensação bastante próxima da original, ainda que com leve alterações marcadas pelo tempo. No frigir dos ovos, ambas são sensacionais.

Fantôme Brise-Bonbons!
– Estilo: Saison
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3.90/5

Fantôme The Coffee Ruby
– Estilo: Saison
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3.79/5

Invicta Conan
– Estilo: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.76/5

Invicta Pump King
– Estilo: Pumpkin Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3.50/5

ZalaZ Áurea
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.3%
– Nota: 3.75/5

ZalaZ Pazion
– Estilo: American Wheat
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3.50/5

Suméria Olivia IPAlito
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 2.98/5

Suméria Double Olivia IPAlito
– Estilo: Imperial India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.6%
– Nota: 3.15/5

Schneider Weisse TAP 6 Unser Aventinus
– Produto: Weizenbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 8,2%
– Nota: 4,00/5

Schneider Weisse TAP 6 Mein Aventinus Vintage 2013
– Produto: Weizenbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 8,2%
– Nota: 4,00/5

Schneider Weisse TAP X Cuvée Barrique 2017
– Produto: Weizenbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 8,2%
– Nota: 4,72/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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