Três discos: Aminoácido, Guache e Posada e o Clã

“Sem Açúcar”, Aminoácido (Independente)
Criando canções em espécies de jam sessions, o Aminoácido lançou seu segundo disco, “Sem Açúcar”, em fevereiro desde ano (seu disco de estreia, “Meticuloso”, é do ano passado). Vindos de Londrina, no Paraná, a banda já deu pistas, em entrevista aqui no Scream & Yell, sobre o que os inspira e os faz criar, mesmo assim, ainda é complexo definir o som da banda: há um tanto de rock progressivo e psicodélico, mas há também uma improvisação que vem do jazz e acaba flertando com diferentes subgêneros. De todo modo, não se assuste com essas tags, pois o som da Aminoácido passa bem longe do pedantismo ou das firulas. Tem algo de nonsense na banda que é divertido r que funciona efetivamente: é só ouvir “Xícara de Chá para Tomar Café”, que tem uns coros bizarros e ao mesmo tempo algumas partes faladas, tornando o todo muito engraçado (nessa linha, ouça também “Camaleão Daltônico”). O interessante é que a banda consegue misturar rock com humor sem soar aquela coisa meio adolescente abobalhado que geralmente esse encontro gera, pois aqui é um humor que não vem de piadas infames, ele surge dessa naturalidade da banda, dessa diversão que eles passam ao criar o próprio som. “Sem Açúcar” tem momentos mais porrada e outros mais climáticos, como na ótima “Cláudio”, mas no final das contas destacam-se os momentos mais alucinantes, em que a velocidade nos toma. Aminoácido é uma banda para se ficar atento, pois as maluquices podem só crescer e render coisas ainda mais legais.

Nota: 7 (ouça e baixe o álbum no Bandcamp)

“O Que Vem”, Guache (RockIt!)
“O Que Vem” é o disco de estreia do duo carioca Guache e já chega sob a chancela de dois nomes importantes: o disco sai pelo selo RockIt!, de responsabilidade de Dado Villa Lobos, e ganhou release de Kassin, que chamou o duo de “uma das grandes surpresas recentes”. O casal Gil Fortes e Luciana Melo (não confunda com a filha do Jair Rodrigues, são apenas homônimas) cria um trabalho delicado, que não tem nem um pouco a ver com a imagem publicitária de um Rio de Janeiro solar e efusivo; aqui as sonoridades são contidas, delicadas, como num dia chuva e neblina, em que você fica preso nos prédios, sem ver direito as montanhas da cidade maravilhosa. Gil integra o IN-SONE, trio de rock experimental, além de ser luthier e ter produzido discos de artistas como o Momo. Já Luciana é formada em Educação Artística e tem um background em projetos de experimentação de linguagens. O som do grupo é bastante marcado por um instrumento híbrido de responsabilidade de Gil, uma espécie de baixo-guitarra. Com um caráter bastante pessoal, “O Que Vem” foi gravado, editado e mixado na casa do casal durante o ano de 2017, informação que diz muito sobre esse clima de intimidade que o lo-fi da produção expõe. Agrega-se a isso o canto uníssono da dupla, num casamento do feminino e do masculino, que gera uma ambientação onírica para as canções. De cara, o disco tem ecos fortes do dream pop de bandas como Galaxie 500, por exemplo, mas isso não é um limitador do trabalho, que perpassa por diversos gêneros e subgêneros, criando um repertório coeso dentro de seu universo enigmático e distinto. É um disco delicado e que pede tempo de audição, para que se dê conta de suas nuances e complexidades – de todo modo, ouça em volume alto, para valer a pena.

Nota: 8 (ouça e baixe o álbum no Bandcamp)

“Posada e o Clã”, Posada e o Clã (Sagitta Records)
“Posada e o Clã”, disco homônimo da banda carioca, é o segundo disco sob esse nome. Posada, a voz nisso tudo, lançou de forma solo o excelente “Isabel”, saído no início de 2017. O Clã é formado por expoentes do underground carioca: a guitarra de Gabriel Ventura (Ventre, Lenine e Duda Brack), o baixo de Hugo Noguchi (Ventre e SLVDR) e a bateria de Gabriel Barbosa (SLVDR). O segundo disco enquanto banda foi lançado na finaleira de 2017 e ainda pede a atenção aos ouvidos que deixaram esse lançamento passar batido. Bem mais pesado que “Isabel”, este disco mostra um trabalho mais coletivo, menos centrado na figura e na poética de Posada. Aqui, as letras densas e líricas de Posada parecem ora dialogar ora enfrentar a sonoridade intensa e quase caótica criada pela banda. Produzido pelo já mítico JR Tolstoi, “Posada e o Clã” é um disco instigante e barulhento, que aponta a universalidade da banda, que consegue se comunicar com diferentes vanguardas nacionais de forma atrevida e não subserviente – há no disco ecos de manguebeat, de post-rock e daquele samba torto à paulistana. Destacam-se faixas como “Conga”, “Desata” e “Mais que desejo”, com participação de Duda Brack; além disso, a política “Tijolo”, que já havia sido gravada por Aíla, aparece aqui em versão soturna. Apesar de momentos mais delicados em “Posada e o Clã”, são os de maior porradaria que mais nos cativam: ouvir o disco repetidamente só faz aguçar a vontade de ver a banda ao vivo, a todo volume.

Nota: 8 (download gratuito no site oficial)

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