Scream & Yell recomenda: Aminoácido

Entrevista por Rafael Donadio 

Com menos de dois anos de formação, os londrinenses da banda Aminoácido lançaram o segundo disco da carreira, “Sem Açúcar” (2018), no começo de fevereiro, já consagrando um show de lançamento em pleno Festival Psicodália, no impressionante Palco do Lago. E foi lá mesmo que alguém da plateia definiu, entre breaks insanos da música “Flamingo Gentil”, em poucas palavras, o que é o som e a apresentação desse quinteto do interior do Paraná: “Cê chupa droga forte!”

Mas a canção “Xícara de Chá Para Tomar Café” indica que a droga utilizada por essa molecada, que está na faixa dos 19 aos 25 anos, é o café. Sem açúcar, claro. “(A música) fala um pouco sobre a nossa apreciação dessa iguaria milenar, que nos auxilia a cada dia para um despertar mais agradável. Além de dar uma guinada energética em nossas atividades, cafezinho é bom demais”, explica Thiago “Franzina” Franzim (guitarra/vocal).

Os outros aminoácidos que compõe toda a proteína são Douglas “Labigalina” Labigalini (bateria), Lugue “Henriquesina” Henriques (baixo), Cristiano “Pereirina” Pereira (guitarra/vocal) e João “Bolognina” Bolognini (percussão). Assim como já mostrou no primeiro álbum, “Meticuloso” (2017), Aminoácido é mistura, epifania, devaneios e muitas jams. É rock progressivo, é samba, música de concerto, frevo, música concreta, surf music, flamenco, pop, jazz, soul, rock e todas possíveis variações de gêneros. Temperada com boas doses de bom humor, refletido desde a estética até a apresentação do grupo.

Integrando diversas bandas de Londrina (PR) – Red Mess, Guro, Hellway Patrol, Loladéli, Iatrogenic entre outras –, fica um pouco mais fácil entender de onde os membros trazem tantos gêneros, misturas e influências. Mas para não esquecer das raízes, sonoras e geográficas, o disco “Sem Açúcar” fecha com um rock’n’roll rasgado, “Shirik Tanai”. Narrando uma noite num clássico ponto de encontro de Londrina, o “Postão Cutuvelo’s”, a música se torna transcendental a partir do momento em que o personagem chega no que pode ser considerado o ápice de uma boa noite de diversão, quando rolam as epifanias e outras revelações mais. E claro, a situação mais marcante da Aminoácido, as jams. “O som acaba com uma jam clássica, para ouvir torando.”

As jams são fator importante para o grupo. É dentro do estúdio Tapete Voador, do guitarrista Thiago, que elas acontecem. É lá também onde acontecem composições, gravações, mixagem e masterização. Tudo lançado pelo selo Tapete Voador. Antes de realizarem o plano de 2018, de viajarem (geograficamente) divulgando a banda para todo o país, trocamos algumas palavras com os integrantes. Tiramos algumas dúvidas sobre o problema da adição do açúcar no café e também sobre a banda e suas músicas.

Como surgiu a Aminoácido?
Douglas – A reunião do Aminoácido foi um tanto quanto cômica. No início a ideia era juntar os amigos, que já faziam parte de bandas diferentes, e fazer um som. Simplesmente isso. O som aconteceu, saíram algumas composições em duas horas de ensaio e resolvemos repetir. Repetimos uma, duas, três vezes. Resolvemos fazer um álbum de brincadeira. Saiu o “Meticuloso” (2017) e a “brincadeira” ficou mais séria. Com o tempo, passamos a compor muito, todos os ensaios. Fazemos isso até hoje, inclusive. No meio de 2017, o João Bolognini entrou para a banda como percussionista. Era um amigo nosso e tinha responsa nas baquetas, daí o convite para entrar para a banda e preencher o som que fazíamos. Logo após os primeiros ensaios e após decidirmos a gravação do “Meticuloso”, resolvemos colocar um nome definitivo. De início, tínhamos uma página de memes no Facebook com o nome Aminoácido. Como o projeto gira todo em torno do humor, resolvemos batizar a banda com o mesmo nome.

Quando comecei a ouvir o som de vocês me pareceu que viriam apenas músicas sem letras. De repente, surge uma com letra, e era um reggae (!). Como acontecem as composições no grupo? Como surgem as letras?
Douglas – A composição é a parte mais bacana do Aminoácido. Jogamos tudo o que nos vem à cabeça. Seja um funky, rap, country, rock, progressivo, tudo o que você possa imaginar. Nos reunimos toda semana no estúdio Tapete Voador e mandamos bala na parte criativa. Horas de composição. As letras geralmente surgem por iniciativa do Cristiano e do Thiago. Mas algumas nós todos fazemos na hora mesmo, no ensaio ou na hora de gravar. Decidir quais músicas serão com ou sem letras vai do que a música nos passa e a necessidade que ela mostra.

Cristiano – Nós somos bem amigos, conversamos bastante sobre música e nossos interesses são bem próximos, talvez por isso chegar com uma ideia que a gente teve é natural assim. Sempre que a gente faz alguma coisa que dá para tocar com a banda a gente leva para ver como que soa. Só que quando o som tá na mão, nós começamos a caminhar juntos, o rolê é fazer o que a gente acha que fica bom de tocar. A nossa dinâmica é bem divertida.

Quais são as principais influências musicais do Aminoácido?
‎Thiago – Acredito que podemos começar pelo funk/groove setentista. É o que sempre acaba sendo a linha condutora das “jams” que acontecem quando tocamos juntos, e na maioria das vezes essas sessões de improviso nos conduzem para a composição de músicas. No processo de composição é que surgem outras ideias, que com certeza possuem grande influência de Frank Zappa, que por sua vez tem influências de R&B americano e música contemporânea de concerto, como Stravinsky e Varése. O resultado dessas experiências sempre resulta em diferentes materiais sonoros, que podem nos levar a outros caminhos que remetem ao jazz (fusion) e rock progressivo brasileiro e internacional. Acho que alguns exemplos podem ser: Funkadelic, Herbie Hancock, Weather Report, Frank Zappa, Grupo Medusa, Hermeto Pascoal, Os Mutantes e também coisas novas que vem rolando no país, como Bixiga 70, Muñoz, Charlie e os Marretas, Quarto Astral, Bike, Macaco Bong e mais uma porrada de bandas novas que estão fazendo um som de alta qualidade e que sempre tocam por aí.

É possível enxergar música brasileira em quase tudo na banda, inclusive na estética. Qual a ligação de vocês com a música nacional?
Thiago – O som do Aminoácido busca retratar cenas do nosso cotidiano e de coisas que rolam ao nossa volta, e nós moramos em Londrina (PR), ou seja, até o nosso blues/funk vai ter um pé no som brasileiro, justamente por nós sermos daqui. Além disso, a gente curte demais bandas independentes atuais de diversos estilos, que vão desde o metal até o samba aqui do Brasil, e também os clássicos da música brasileira como Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Zé Ramalho, Os mutantes… E por aí vai.

Vocês fazem homenagem ao Kuririn (personagem do desenho Dragon Ball), tiraram o nome da banda de uma página de memes do Facebook. Musicalmente vocês já disseram, mas de quais outras fontes vocês bebem?
Douglas – Além dos memes, sempre revisitados, nós tiramos muito das ideias de brincadeiras nossas. Algumas fontes básicas também: digite “important videos” no Youtube (Atenção: Só faça isso após uma aula prática na Universidade Federal da Folha Verde)… Frank Zappa além da música… Hermes e Renato, muita coisa.

Pelas fotos e os apelidos é possível notar uma preocupação estética com a banda. Quão importante é isso para vocês?
Douglas – Desde o início da banda queríamos ter uma proposta planejada. Desde a sonoridade à roupa que usaríamos em shows. Creio que essa preocupação hoje em dia é o que faz o diferencial nas bandas. É o que instiga as pessoas a saberem um pouco mais sobre o projeto. Digo, por que eles se vestem assim? Por que falam assim com as pessoas? Por que o som deles soa desse modo? Tudo tem algo por trás, e ter isso como algo importante na banda é muito mais divertido de trabalhar.

Sobre o segundo álbum, “Sem Açúcar”, lançado dia 2 de fevereiro. Como foi o processo de produção? Fale um pouco sobre o disco.
Thiago – Quando lançamos o “Meticuloso”, já tínhamos algumas músicas do “Sem Açúcar” praticamente prontas, e estávamos até pensando em soltar elas como um EP, quase como um bônus do “Meticuloso”. Mas daí começou a sair mais som, a gente gravou algumas prés das músicas e viu que aquele conjunto de sons tinha condição de se tornar um segundo álbum. Foi relativamente rápido a produção dos sons, cada ensaio saía um som novo e a gente já ia gravando para ver como estava, produzimos o álbum todo no estúdio Tapete Voador.

Vocês lançaram um single antes do lançamento do disco “Sem Açucar” (2018), “Camaleão Daltônico”, que também está entre as nove faixas do álbum. Por que ela para “apresentar” o trabalho?
Thiago – A gente já tinha a ideia desse som pairando numas conversas por um tempo, até que um dia numa degustação culinária de bolinhos a gente pegou o violão e saiu o primeiro riff do som, na hora pensamos num camaleãozinho andando e daí foi. Esse som conta um pouco sobre uma espécie de camaleão com um problema de visão, o daltonismo, que faz com que ele não enxergue as cores direito, consequentemente ele não pode se camuflar e nem ver você, nem TV. Achamos que ia chamar a atenção das pessoas para o lançamento do álbum se soltássemos ela primeiro. Além de mostrar que nesse segundo álbum rolaria mais um monte de sons com letras.

Quais as principais diferenças do “Sem Açúcar” para o “Meticuloso”?
Thiago – Acredito que a maior diferença foi a consciência do que é o conceito por trás do Aminoácido para gente. Conseguimos condensar melhor o fluxo criativo que vinha rolando e, diferente do primeiro álbum, a gente passou um ano tocando e conhecendo melhor o que nós mesmos éramos capazes de fazer, afinal a banda tem pouco tempo de estrada, apenas um ano. E tudo isso resultou no “Sem Açúcar”, que possui mais sons com letras, coisa que no primeiro álbum não tem muito, mas ainda sim com alguns sons instrumentais, além da entrada de um novo integrante na banda, o João, que veio somar com umas percussões.

Por que degustar sem açúcar?
Douglas – Ah, bicho. Todo mundo sabe que açúcar é gostosinho, isso e aquilo. Mas cara, isso não é café. Não, não é. Você tá curtindo o docinho que o açúcar proporciona, não o bichão do pó de café bruto. Pô, me dá um nervoso. Me vê duas xícaras de café expresso grandes aí já, por favor. Ah, traz aquela aguinha com gás também, solta as pupilas né? Papilas. Ah sim…

Com menos de dois anos de banda e dois discos lançados, como foi fazer o show de estreia em pleno festival Psicodália?
Douglas – Meu amigo, falar para você que foi a coisa mais incrível do mundo. Se todos os músicos do mundo pudessem tocar naquele lugar eu o recomendaria mais de mil vezes. Ali parece que não é simplesmente um show, envolve muita coisa, a energia, a disposição da galera de ver o seu trabalho, de dançar. Cara, é outra coisa. Nós tínhamos ouvido falar do público do Psicodália por alguns amigos, mas nunca achamos que ia ser do jeito que foi. Se pudéssemos tocaríamos lá todo ano, sem enjoar.

A borboleta branca que fez uma participação especialíssima no show foi convidada ou apareceu de surpresa?
Douglas – Falar para você que aquilo foi presente da natureza pelo o que estava acontecendo ali. Temos alguns trechos gravados do momento em que a borboleta passa e dá pra ver no nosso rosto a felicidade que brota na hora. Borboleta branca ainda, bicho! Que isso?!

Como observam o atual momento do cenário do interior do Paraná? Tem tido espaço por aí ou muitas bandas estão indo para outras cidades a partir do momento que crescem, para “tentar a sorte”, como antigamente?
Douglas – Creio que por aqui ainda não mudou muita coisa não. O cenário parece que está crescendo, mais que alguns anos atrás, mas ainda assim as bandas correm para outras cidades para tentar a sorte de um caminho melhor para a carreira. Infelizmente é assim.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista do Diário do Norte do Paraná. A foto que abre o texto é de Lucas Klepa / Divulgação

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