Boteco: Cinco cervejarias nacionais, Dez Cervejas

por Marcelo Costa

Começando mais uma série “cervejarias” com a paulista Votus, de Diadema, que já havia passado por aqui com as 001, 005, 006 e 011 e agora retorna com a 007, uma Session IPA Single Hop Amarillo. De coloração amarela levemente turva com creme branco de excelente formação e muito boa retenção. No nariz, um agradável perfil que combina notas frutadas cítricas suaves (abacaxi e limão) com leve floral e leve condimentação (ervas) sobre uma base discreta de malte. Na boca, leve picância, cítrico (limão) e um q de mineral, tudo junto no primeiro toque, que se abre na sequencia a um perfil refrescante e suavemente amargo. A textura reforça a picância, com uma leve acidez remetendo a limão. Dai para frente surge um conjunto que honra o estilo com drinkability altíssimo, álcool baixíssimo (3.5%) e um sabor bem cítrico (até um com um toque de maracujá) e refrescante. No final, cítrico e amarguinho. Já o retrogosto acrescenta suavidade, adstringência discreta, refrescancia e maracujá. Boa!

Depois da 007 partiu para a Votus 012, uma Belgian IPA vencedora do 7º Concurso Estadual de Cervejeiros de São Paulo, etapa realizada pela cervejaria em parceria com a Realli e a AcervA Paulista, com receita de Sergio Müller. De coloração amarela turva, juicy, com creme branco de alta formação e longa retenção, a Votus 012 exibe um aroma com frutado (banana e leve cítrico), doçura maltada e levedura bastante ativa sugerindo acidez e condimentação. Na boca, frutado (mais para pêssego do que para banana) e levedura no primeiro toque. Na sequencia, condimentação suave, acidez bem leve, álcool (8.4%) bem suave e amargor discreto. A textura é suave e bastante picante (mais de levedura e álcool do que de lúpulo). Dai para frente, um conjunto bem interessante, com levedura comandando a experiência, pegada frutada cítrica discreta tanto quanto de doçura maltada e álcool comportado, mas perceptível. No final, doçura e picância (novamente mais de levedura do que álcool). No retrogosto, pêssego, leve cítrico e condimentação. Bela Belgian IPA.

De Diadema para Candido Mota, também interior de São Paulo, onde se localiza a cervejaria Casa Conti, ainda que a produção de suas cervejas seja feita em Nova Odessa, na fábrica da cervejaria Berggren. Entre as novidades da linha Paulistânia cá estão duas: a primeira é a Largo do Café, uma Oatmeal Coffee Stout que recebe adição de aveia e café (comprado no próprio Largo do Café, local histórico no centro da cidade de São Paulo). De coloração marrom escura com creme bege claro de boa formação e média alta retenção, a Paulistânia Largo do Café exibe um aroma com café suave em primeiro plano e chocolate levemente amargo na base, quase um cappuccino. Na boca, o chocolate praticamente iguala a contenda com o café no primeiro toque acompanhados de leve metálico. A textura é suave com leve metálico. Dai em diante, uma boa Sweet Stout, com café e chocolate disputando a atenção. No final, café… e chocolate, sugestões que retornam no retrogosto.

A segunda Paulistânia da série é a Ipiranga, uma Red Lager maturada com chips de amburana que apresenta uma coloração avermelhada com creme bege espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, a Paulistânia Ipiranga apresenta um aroma com presença intensa de madeira verde (amburana) sobre uma base tostada de malte caramelo. Na boca, domínio completo de amburana desde o primeiro toque, com tosta caramelada de malte em segundo plano, e álcool (7.2%) bastante sútil. A textura é suave com discreta picância (alcoólica) e, dai pra frente, surge uma cerveja bem interessante, ainda que a madeira, intensa, domine o perfil de tal maneira que diminua o drinkabilty. No final… amadeirado, um pouco mais macio, mas ainda assim intenso, dominando o conjunto e chegando ao retrogosto, que é madeira em destaque e caramelo.

De São Paulo para o Rio Grande do Sul, mais precisamente Garibaldi, cidade em que o Grupo Famiglia Valduga, especialista em vinhos e espumantes, criou a Cervejaria Leopoldina, em 2015. Agora ela estreia aqui com sua Witbier, que recebe adição de limão siciliano e coentro numa receita que ainda traz aveia em flocos (além de cevada e trigo). De coloração amarela levemente palha (mais pra Hoegaarden do que para Blue Moon) com creme branco de média formação e rápida dispersão, a Leopoldina Witbier exibe um aroma suave que combina cítrico (limão), condimentado (coentro) e doçura (dos maltes e cereais). Na boca, o mesmo equilíbrio que o aroma adianta com limão, doçura e condimentação na medida desde o primeiro toque. A textura é suave caminhando para o cremoso com leve (mas bem leve mesmo) picância. Dai para frente, uma Witbier deliciosa e refrescante, que honra o caminho aberto por Pierre Cellis. No final, refrescancia e um limãozinho. No retrogosto, coentro, limão e mais refrescancia.

A segunda Leopoldina é a Bohemian Pilsner da casa, uma cerveja de coloração âmbar clara com leve remissão a caramelo e creme bege bem clarinho, quase branco, de boa formação e média alta retenção. No nariz, doçura caramelada, uma suave condimentação e um herbal bem leve, derivado do tradicional lúpulo Saaz, são os destaques. Na boca, doçura discreta e bastante presença de herbal no primeiro toque, uma sensação que tem um leve up de herbal na sequencia, com amargor moderado e delicioso. A textura é suave e, dai pra frente, a Leopoldina Bohemian Pilsner investe no equilíbrio que marcou todo o trajeto anterior, com herbal assertivo, amargor marcante, ainda que suave, e leve doçura maltada remetendo a cereais e caramelo. No final, doçura leve e bastante herbal, sensação que permanece no retrogosto. Boa Bohemian!

Ainda mantendo-se no Rio Grande do Sul, mas saindo de Garibaldi para a capital Porto Alegre, casa da Tupiniquim, para mais duas cervejas dos gaúchos. A primeira é a Tupiniquim Smoked Lager, que remete à Fumaça, receita que a Evil Twin produziu na Tupiniquim em 2016 visando combinar a cerveja com churrasco. Nesta revisão, a cerveja exibe uma coloração dourada com leve toque âmbar. O creme branco exibe uma boa formação e média alta retenção. No nariz, notas de defumação bastante suaves trazendo algo de fumaça e defumado. Na boca, presença ainda maior de defumação já no primeiro toque, que acrescenta uma suave doçura maltada, que tenta equilibrar o conjunto. A textura é levemente condimentada com um suave metálico. Dai para frente surge uma Lager que entrega o que propõe: doçura suave de malte, fumaça e defumado. No final, maltadinho com defumação. No retrogosto, fumaça e cinzeiro.

A segunda da cervejaria Tupiniquim mantém o malte defumado como estrela: Rauchbock, uma Rauchbier de coloração âmbar escura, meio marrom, com creme bege de boa formação e média alta retenção. No nariz, o malte defumado chama a atenção rapidamente, delicioso, mas é possível perceber ainda um suave caramelado derivado da tosta na base. Na boca, mais malte defumado com uma leve doçura caramelada (tostadinha) no primeiro toque, que se abre na sequencia acrescentando leve remissão a frutas escuras e um amargor bem suave, mas bem suave mesmo. A textura é suave. Dai pra frente se mantém um conjunto que trata de equilibrar muito bem tanto as notas de defumação quanto as de doçura caramelada tostadas. No final, um leve defumadinho bem agradável. Já o retrogosto, leve fumaça, cinzeiro, caramelo e defumado. Gostei!

De Porto Alegre para o Rio de Janeiro com duas cervejas da 3Cariocas, uma das cervejarias mais queridas deste espaço na atualidade. A primeira é a Gravity, uma New England IPA que junta aveia, triplo dry-hopping de Citra e a levedura London Ale III. Como manda a etiqueta do estilo, a Gravity exibe uma coloração amarela intensamente juicy (como um suco) com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, potência cítrica assim que a lata é aberta sugerindo manga, mamão e melão. Há um leve toque de condimentação e, ainda, um chulézinho. Na boca, um delicioso suco cítrico acrescido de amargor suave (já perceptível no primeiro toque) e discreta condimentação remetendo a pimento do reino. A textura, como era de se esperar, é picante (levedura se divertindo sobre a língua). Dai pra frente surge um belo conjunto potentíssimo, com levedura ativa, lupulagem assertiva e amargor potente, ainda que tudo isso apareça reunido de maneira equilibrada. No final, amargor cítrico. No retrogosto, pimenta do reino, manga e levedura. Uou!

A segunda da 3Cariocas é uma Milkshake IPA chamada Space Cake cuja receita recebe nibs de cacau, baunilha e lactose mais triplo dry-hopping do lúpulo Citra. O resultado é uma cerveja de coloração amarela intensamente juicy (como um suco) com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, levedura, baunilha e lactose deliciosas lutando pela atenção do bebedor. Ainda é possível perceber suaves notas cítricas (limão siciliano) e doçura de chocolate (branco). Na boca, no primeiro toque surge a aridez da levedura com um cítrico suave e uma doçura discreta, que vai aumentando na sequencia e se abre em baunilha de uma maneira incrível e deliciosa. A textura é suave, mas bastante picante. Dai pra frente surge um conjunto incrível, com pega de lúpulo marcante, doçura de baunilha encantadora e um final levemente amargo. No retrogosto, aridez de levedura marcando toda a boca, cítrico e doçura. Incrivel.

Balanço
Abrindo com uma Session IPA Single Hop de Diadema, da Votus, a 007, muito caprichada, com floral, cítrico, drinkablity e refrescancia honrando o estilo. Muito boa! Ainda melhor é a Belgian IPA da Votus, a número 012, uma pancada suave condimentada, picante, frutada e deliciosa. Partindo para as duas Paulistânia, a Largo do Café é uma Sweet Stout interessante, com bom equilíbrio entre café e chocolate. Já a Ipiranga soa um pouco mais interessante pela adição de chips de amburana na maturação de uma Imperial Red Lager. A madeira, no entanto, acaba soando excessiva e tomando toda a atenção, mas não deixa de ser uma proposta interessante, que talvez necessite de mais equilíbrio. A estreia da Leopoldina por aqui é uma Witbier muito boa, que honra a trilha aberta pela Hoegaarden. Já a Bohemian Pilsener… A Tupiniquim Smoked Lager remete a Evil Twin Fumaça, duas Smokeds regulares. Bem melhor, a Rauchbock da Tupiniquim combina maltado e defumado no capricho. Dai passamos para outro nível: a 3Cariocas Gravity surge com uma incrível New England IPA, a Gravity, deliciosa.

Votus 007 Amarillo
– Estilo: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.5%
– Nota: 3,25/5

Votus 012
– Estilo: Belgian IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.4%
– Nota: 3,75/5

Paulistânia Largo do Café
– Estilo: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,90/5

Paulistânia Ipiranga
– Estilo: Red Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 3,00/5

Leopoldina Witbier
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,21/5

Leopoldina Bohemian Pilsner
– Estilo: Bohemian Pilsner
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,00/5

Tupiniquim Smoked Lager
– Estilo: Smoked Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,01/5

Tupiniquim Rauchbock
– Estilo: Rauchbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,31/5

3Cariocas Gravity
– Estilo: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3,91/5

3Cariocas Space Cake
– Estilo: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 4,07/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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