Gal Costa ao vivo em São Paulo

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Marcando o lançamento oficial do CD (duplo) e DVD “Estratosférica Ao Vivo” em São Paulo, Gal Costa levou um público excelente para duas noites de shows na elegante Casa Natura Musical. Acompanhada de praticamente a mesma banda que gravou o disco ao vivo (a exceção é Serginho Machado, o baterista do Metá Metá que assume a posição de Pupillo, produtor musical de um show que tem direção geral de Marcus Preto), com Guilherme Monteiro (guitarra e violão), Fabio Sá (baixo) e Mauricio Fleury (guitarra), Gal mostrou que vive uma bela fase ao vivo, ainda que o show por vezes soe atado excessivamente ao roteiro.

A primeira parte do set é dedicada ao rock com a mão pesada de Serginho casando bem com os riffs de Guilherme e as levadas de baixo inteligentes de Fábio. “Sem Medo Nem Esperança”, canção de Arthur Nogueira e Antônio Cicero que abre o álbum “Estratosférica” também abre o show e injeta adrenalina na noite, com Gal desfilando seu belo vestido e seu belo vocal numa grande letra que fala sobre viver mortes e morrer vidas. O arranjo a conecta com “Mal Secreto”, clássico de Jards Macalé e Waly Salomão, numa versão bonita que permitiria, se o roteiro deixasse, falar de almas que choram vendo o Rio de Janeiro ocupado pelo exército.

“Jabitacá” acrescenta luminosidade na noite, mas é “Não Identificado” que causa o primeiro grande momento de comoção da noite, um hino na voz de uma lenda. Gal então repete o mesmo texto de todos os shows da turnê (“Vocês sabem que tenho me jogado no mundo de peito aberto, sem medo nem esperança…), recupera um Tom Zé genial (“Namorinho de Portão”) e segue replicando um roteiro de forma impecável, ainda que sem surpresas: “Ecstasy”, “Casca”, “Dez Anjos”, “Acauã” e, então, uma grande versão de “Cabelo”, com o gesto de chifrinhos de metaleiros na mão direita, para deleite de uma plateia apaixonada.

A parte bossa da noite começa com o belo sambinha de Mallu Magalhães, “Quando Você Olha Pra Ela”, que o público canta assim que Gal pede. O blues “Cartão Postal”, de Rita Lee e Paulo Coelho, dá sequencia ao show, e Gal perde uma das entradas da canção, um raro momento de descuido num show recriado nos mínimos detalhes (“Eu nunca tinha gravado nada do Paulo Coelho”, ela contou ao Scream & Yell). “Por Um Fio”, canção até então inédita de Marcelo Camelo”, vem com charme numa versão voz e violão, Gal acompanhada por Guilherme Monteiro (os dois circulam juntos com outro show, “Espelho d’Agua”, nesse formato), e se segue com a maravilhosa “Três da Madrugada”, que distrai um público notadamente mais a fim de batida do que de poesia (o que é uma pena).

Outro raro momento fora do script: rememorando a fase “Fatal”, Gal assume o violão, senta em um banquinho (não sem antes limpa-lo e garantir aos fãs do gargarejo: “É TOC, eu limpo tudo!”) e começa a contar como conheceu Caetano. Ela fala da Galeria Bazarte, em Salvador, e do pessoal que conheceu lá, Caetano incluso, e algum fã babão grita: “Você é mais maravilhosa que todos”. O público ri, Gal não entende e se perde na narrativa, desistindo: “Melhor parar de falar e cantar, não é mesmo”. Surge “Sim Foi Você”, que grande parte do público (inclusive aqueles que a achavam mais maravilhosa do que todos) não conhece e o silêncio se faz quando Gal dá a deixa para o público cantar, num leve momento de desconforto.

O estranhamento é esquecido na metade do primeiro segundo da introdução de “Como 2 e 2”, outro hino na voz da lenda, outro momento que todo apaixonado por música brasileira tem que ver ao menos uma vez na vida (e cantar a plenos pulmões, e chorar, e se emocionar). Luiz Melodia é relembrado com uma versão sincopada de “Pérola Negra”, e o show segue, inspirado musicalmente, mas indistinto se é São Paulo ou Belo Horizonte, se é Fortaleza ou Porto Alegre, se é Campinas ou Campina Grande, com “Por Baixo”, “Arara”, “Estratosférica”, a malemolência de “Os Alquimistas Estão Chegando” e, encerrando, “Meu Nome é Gal’, numa grande noite de boa música… e nenhuma surpresa.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa e arquiteta. Veja mais fotos em instagram.com/lili_callegari

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