Boteco: 5 cervejarias, 10 cervejas

por Marcelo Costa

Retornando aos EUA com o debute da Mother Earth Brewing Company por aqui. Fundada em 2008 em Kinston, na Carolina do Norte, a Mother Earth bate ponto com seu carro chefe, a Cali’ Creamin’, uma American Cream Ale que recebe adição de baunilha. De coloração dourada com creme branco de boa formação e média retenção, a Cali’ Creamin’ esbanja baunilha assim que a tampinha da garrafa é sacada, e não espere sentir o aroma de outra coisa (com boa vontade, mel e casca de pão). Na boca, a baunilha soa um pouquinho mais comportada, mas domina o primeiro toque e também se destaca na sequencia, abrindo espaço para mel, caramelo, pão e biscoito. A textura apresenta leve frisância antes de se tornar cremosa (e “baunilhosa”). Dai para frente segue-se um conjunto bem saboroso… para quem curte doçura e baunilha. No final, claro, baunilha com leve mineral, que retorna no retrogosto acompanhado de mel.

A segunda da Mother Earth é a Sin Tax, uma suave (Medium) Imperial Sout cuja receita une os maltes Pale 2-Row, Chocolate Wheat, Roasted Barley, Chocolate, Medium Crystal, Black com flocos de aveia e açúcar mascavo. De lúpulo, apenas CTZ. De coloração marrom quase preta com creme bege de boa formação e média retenção, a Mother Earth Sin Tax exibe um aroma sensacional com pasta de amendoim, nozes amassadas, baunilha, chocolate e café. Na boca, menos amendoim, mais nozes e chocolate no primeiro toque. Na sequencia, café e derivados da tosta e torra do malte. A textura é suave, mas muito mais leve do que uma Imperial Stout tradicional, normalmente mais robusta. O amargor se mantém na faixa dos 45 IBUs e, dai pra frente, surge um conjunto bastante agradável, que honra o “apelido” de Peanut Butter Stout. No final, doçura achocolatada. Já o retrogosto traz pasta de amendoim suave e chocolate. Delicinha.

Dos Estados Unidos para a Dinamarca com duas da linha Sur, da To Øl (produzidas na Bélgica). A primeira é a Sur Blomst, uma Dry Hopped Sour Pale Ale cuja receita une os maltes Pilsner, Cara Crystal e Melanoidin com trigo não malteado, os lúpulos Amarillo e Motueka e adição de flor de sabugueira (Elderflower). De coloração alaranjada com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção, a To Øl Sur Blomst exibe um que combina forte pegada cítrica (limão, maçã e laranja) com leve presença de azedume e de floral. Na boca, floral e grapefruit juntos no primeiro toque com um amargor marcante na sequencia. A textura é suave, sedosa e bastante picante (de amargor e acidez). Dai pra frente surge um conjunto que remete delicadamente às (decepcionantes) “Dangerously Close To Stupid Amount of” descritas aqui, mas soam um pouquinho mais palatáveis. O final é cítrico e levemente amargo. No retrogosto, grapefruit, caramelo e floral. Esperava mais.

A segunda dinamarquesa da To Øl é a Sur Motueka, com o famoso lúpulo neozelandês, numa receita que mantém a composição de maltes e trigo da cerveja anterior. Na taça, uma cerveja de coloração alaranjada com creme bege clarinho, quase branco, espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, a To Øl Sur Motueka exibe um aroma com bastante cítrico (lima, limão, manga e toranja) com leve percepção de acidez láctica. Na boca, cítrico e acidez láctica, tudo junto no primeiro toque criando um perfil próximo ao da Blomst (e, na memória, diferente das versões Citra e Amarillo), mas mais interessante e menos enjoativo. Na língua, a textura segue suave, sedosa e picante (de amargor e acidez). Dai para frente, o conjunto segue a pegada de (mais) Sour (do que) Pale Ale, com o frutado cítrico ganhando força com a acidez láctica até o final, cítrico e levemente amargo com um toquinho de sal. No retrogosto, grapefruit, sal, doçura e floral. Soou mais interessante que a anterior.

Da Dinamarca para o Brasil com uma colaborativa entre a cervejaria Bastards, do Paraná, com a Urbana, de São Paulo: A Little Bitch Sour, uma Sour Barley Wine (oi?) de 10.5% e 57 IBUs. De coloração acastanhada com creme bege claro de boa formação e média retenção, a A Little Bitch Sour apresenta um aroma com doçura caramelada suave em destaque, trazendo consigo ainda notas de frutas escuras e levevissima remissão a frutas vermelhas. Na boca, doçura de caramelo e leve percepção de frutas vermelhas no primeiro toque, que se abrem em azedume, Jerez e vinho do Porto suave na sequência. A textura começa suave e picante (de álcool e azedume) e vai ficando sedosa sem chegar a se tornar licorosa. O amargor é inexpressivo, com o álcool e o azedume tomando sua posição de destaque. Segue-se um interessante conjunto que capricha no álcool e no azedume, mas abre espaço para frutas vermelhas e caramelo. No final, azedinho e um pouquinho de Jerez. No retrogosto, frutas vermelhas e escuras, azedinho e quase nada de álcool. Bem boa!

A segunda cerveja nacional é uma colaboração internacional entre os paulistas da Urbana e os holandeses da De Molen e da Kapsen. A Urbana Kaapse De Molen Imperial Stout é uma receita pancada com flocos de aveia e cumaru, fruta Amazônica já usada em receitas da Perro Libre (CCPS), Lohn (Carvoeira) e Amazon Beer (IPA Cumaru). De coloração marrom praticamente preta com creme bege escuro de média formação e rápida dispersão, essa Imperial Stout exibe um aroma com cumaru (próximo da baunilha) em destaque um degrau acima da sugestão de café, derivada da torra do malte. Há, ainda, presença sutil de defumação. Na boca, baunilha e cumaru com café forte logo no primeiro toque. Na sequencia, amargor potente (60 IBUs) e álcool perceptível, mas não intimidante. A textura é sedosa e, sobre a língua, vai se tornando licorosa e bastante picante (de álcool). Dai pra frente, uma cerveja extrema para ser degustada calmamente. No final, café, cumaru e picancia forte (de álcool). Na boca, cumaru, café e calor alcoólico.

Do Brasil para a Alemanha com um clássico: produzida pela Staatliches Hofbräuhaus München para o Munich Beer Festival, também conhecido como Oktoberfest, a HB Oktoberfestbier é uma Marzen de coloração dourada e creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, um perfil que se equilibra entre notas derivadas de malte (biscoito, pão, cereais) e de lúpulos (grama, herbal, floral). Na boca, cereais, grama, floral e um tiquinho de papelão no primeiro toque. A textura inicia levemente condimentada e vai ficando cremosa enquanto o álcool (apenas 6.3%) vai dando as caras sobre a língua. O amargor é suave e, dai para frente, surge um conjunto bastante maltado, mas com presença assertiva da lupulagem, que não traz amargor, mas garante um perfil de Marzen bem interessante. No final, leve herbal, papelão e caramelo. No retrogosto, cereais, biscoito e pão.

A segunda HB da sequencia (e quarta aqui no Scream & Yell: as anteriores foram a HB Original e a Münchner Weisse) é a Mailbock, uma Helles Bock de coloração âmbar avermelhada com creme bege de boa formação e média alta retenção. No nariz, aroma de malte tostado puxado para toffee, caramelo, açúcar queimado e melaço. Na boca, doçura caramelada com leve tosta no primeiro toque, sensação que logo se modifica com a doçura perdendo espaço para toffee, caramelo queimado e (os 7.2% de) álcool mais um amargor pontual. A textura é sedosa com leve picância (alcóolica). Dai pra frente surge o conjunto de uma cerveja elegante, caramelada, alcoólica e levemente picante. No final, amargor suave e um pitadinha de álcool. O retrogosto reforça a pegada de toffee que o bebedor sentirá durante todo o percurso acompanhado de leve herbal e melaço.

Da Alemanha para a Holanda com a duas versões da De Molen Bommen & Granaten (Bombas & Granadas), uma Barley Wine cuja receita une os maltes tostados nas versões Pils e Caramel com os lúpulos Columbus e Saaz. A primeira é a tradicional, que apresenta coloração âmbar avermelhada alaranjada com creme bege de baixíssima formação e rápida dispersão. No nariz, bastante doçura em notas que remetem a caramelo e mel, e, ainda, a própolis, defumado leve, álcool sutil (e são 11.9%) e um frutadinho. Na boca, caramelo e maple syrup com leve álcool (delicioso) no primeiro toque seguido de defumado bem levezinho mais maple e mais álcool, muito bem inserido no conjunto. A textura é sedosa, levemente licorosa, e mesmo sobre a língua a pancada de álcool soa suavizada, incorporada num conjunto que se revela caprichado até o final, levemente doce e frutado, uma compota de frutas alcóolica, sensação que se estende ao retrogosto, caloroso e envolvente. Excelente.

A segunda versão da De Molen Bommen & Granaten (Bombas & Granadas), que mantém aqui a mesma receita da anterior, é um experimento Barrel Aged que passa por velhas barricas que antes haviam maturado vinho de La Rioja, na Espanha. O resultado é uma cerveja em que a cor parece um tiquinho mais escura do que na versão original, mantendo os padrões de formação e duração de creme. As verdadeiras alterações, no entanto, começam no aroma, incrível, com bastante doçura caramelada, mas no lugar de maple syrup surge madeira (carvalho), canela, baunilha, alcaçuz e álcool (delicioso) vinilico. Na boca, um caramelo frutado e suavemente alcoólico dá às boas vindas no primeiro toque. Na sequencia, maciez e muito equilíbrio. A textura é muito mais sedosa do que na versão tradicional, mas o álcool, acrescido de madeira, surge muito mais confortável. Dai pra frente surge um conjunto maravilhoso, diferenciado, que altera o perfil da receita original, para melhor. No final, caramelo, álcool e madeira. Já o retrogosto acrescente leve cítrico, um toque vinilico e canela. Uma delícia.

Balanço
Minha primeira da Mother Earth Brewing Company, a Cali’ Creamin’ é uma delícia… para quem gosta de baunilha. Uma delicinha cremosa. Já a Sin Tax é uma Sweet Imperial Stout, muito boa e agradável. Mantendo o padrão das duas Dangerously Close To Stupid Amount of que eu havia provado semanas atrás, a To Øl segue decepcionando com a Sur Blomst. Já a Sur Motueka, se não alcança o brilho das versões Citra e Amarillo, ao menos convence sem enjoar, o que já é um passo à frente. Da Dinamarca com o Brasil com uma das mais interessantes da série até aqui: A Little Bitch Sour, uma Sour Barley Wine bem saborosa, com azedume potente, doçura mediana, muito frutado e álcool muito bem inserido. Legal! Já a Urbana Kaapse De Molen Imperial Stout é uma poderosa RIS com cumaru, que é preciso beber com cautela e aproveitar cada gole do latão de 473 ml (pessoalmente prefiro a Lohn Carvoeira, mas está aqui está excelente também).

Mother Earth Cali’ Creamin’
– Estilo: American Cream Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,25/5

Mother Earth Sin Tax
– Estilo: Imperial Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8.1%
– Nota: 3,46/5

To Øl Sur Blomst
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,25/5

To Øl Sur Motueka
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,39/5

Bastards A Little Bitch Sour (Colab Urbana)
– Estilo: Sour Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10.5%
– Nota: 3,55/5

Urbana Kaapse De Molen Imperial Stout
– Estilo: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 3,88/5

HB Oktoberfestbier
– Estilo: Marzen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 2,88/5

HB Mailbock
– Estilo: Helles Bock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 3,08/5

De Molen Bommen & Granaten
– Estilo: Barley Wine
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 11.9%
– Nota: 3,94/5

De Molen Bommen & Granaten Rioja BA
– Estilo: Barley Wine
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 11.9%
– Nota: 4,24/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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